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    January 31

    SOBRE O FALAR E AS PALAVRAS...


    "Ao longo da muralha que habitamos
    Há palavras de vida, há palavras de morte
    Há palavras imensas que esperam por nós 
    e outras frágeis que deixaram de esperar
    Há palavras acesas como barcos 
    e há palavras homens, palavras que guardam 
    o seu segredo e a sua posição.

    Entre nós e as palavras, surdamente,
    As mãos e as paredes de Elsenor

    E há palavras e noturnas, palavras gemidos
    Palavras que nos sobem ilegíveis à boca
    Palavras diamantes, palavras nunca escritas
    Palavras impossíveis de escrever
    por não termos conosco cordas de violinos
    nem todo o sangue do mundo, nem todo o amplexo do ar 
    e os braços dos amantes escrevem muito alto
    muito além do azul, onde oxidados morrem
    Palavras maternais, só sombra, só soluço,
    só espasmos, só amor, só solidão desfeita.

    Entre nós e as palavras, os emparedados
    E entre nós e as palavras, o nosso dever falar."
    Mário Cesariny
     
    muitas são as cartas que guardam palavras escritas e outras muitas que foram caladas
     
    e por falar nisso...
     
    alguns que se acham tão
    eruditos
    acreditam saber mais
    mas o que pensam
    vara sentimento e fica só razão de ser
    em mente e mentem
    crescem as paredes e ficam as palavras de menos
    as pessoas que falam demais
    e sentem tão pouco
    que passa a ser indecentemente
    falta de coração
    ou educação
    em boca fechada
    realmente
    inteligente
    não entra
    coisa
    tosca
     
    e eu que tenho visto muita mosca...
     

    SOBRE O MENOS MEDO E MAIS CORAGENS...

     
    "Tu tens um medo:
    Acabar.
    Não vês que acabas todo o dia.
    Que morres no amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que te renovas todo o dia.
    No amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que és sempre outro.
    Que és sempre o mesmo.
    Que morrerás por idades imensas.
    Até não teres medo de morrer.

    E então serás eterno."
    Cecília Meireles
     
                                o medo é um só e as coragens, várias...
     
    AINDA MEDO
     
    I.
    quase pouco diminuindo
    quando como não se alimenta
    e o medo se alimenta
    é sabido
    por isso
    causo boicotes ao medo
    enfrento
    passo por lugares inomináveis
    proibidos
    confesso os piores pecados
    e o medo fica bobo
    besta, até meio perdido
    coitado
    se esconde quando era eu o escondido
    o medo fica assim até que um dia,
    espero,
    o medo tenha sumido.
     
    II.
    é triste ir pela vida como quem regressa
    e entrou humildemente por engano pela porta errada.
    a vida são as coisas feitas porta à fora.
    e sem medo.
     

    SOBRE CERTAS APARÊNCIAS...

     
    "Sinto a vida escapando pelos poros.
    Não posso conter o apelo de minha anatomia.
    Sou o veículo frágil das hipóteses desconexas,
    das crenças céticas, dos hermetismos confessos.
    Sou corpo que não cabe em recipientes.
     
    Sou eu
    quase nada
    e ao mesmo tempo
    quase deus."
    Ézio Deda - Adaptado
     
    das nuvens nas nuvens nas águas de chuva das outras tantas águas que molham: broto
     
    DAS APARÊNCIAS
     
    alguma
    coisa se desprendeu
    mas o quê?
    como faltas de palmas e plantas
    como os vasos dentro de nós
    as palmas e os aplausos
    em flores e nós nos vasos
    os vasos plantados
    com plantas
    que crescem demais e tem que mudar de lugar
    mas a mudança tem que vir de fora
    é um crescer de fora pra dentro
    crescer é um não brincar de fazer previsões
    natural
    um quase
    quando vi - cresci!
     
    e você, o outro aí: voltou ao normal?
    replantado?
    reciclado por assim dizer ao gosto do mato verde?
    apascentando, pastoreando todo dia
    o olhar de outros?
    Vastos são os vasos e o que cresce dentro deles
    desde as ervas daninhas e as plantas carnívoras e as plantas benignas
    falta-lhes um sorriso por enquanto
    enquanto - palavra senão
    então
    o joio do trigo sempre todo dia separado
    broto água
    broto lágrima
    colho
    olho no olho
    broto-me
    enfim
     

    SOBRE ESSA FALTA DE ASAS...

     
    "Que coisas são essas que me dizes sem dizer,
    escondidas atrás do que realmente quer dizer?
    Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias.
    Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza
    é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
    Torna-se desesperada, urgente.
    Eu já não sei o que faço.
    Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
    Como pude cair assim nesse fundo poço?
    Quando foi que me desequilibrei?
    Não quero me afogar: Quero beber tua água.
    Não te negues, minha sede é clara."
    Caio Fernando Abreu
     
                                                                          sou não vôo, sou não apaixonado, sou não pássaro, mas sou asas...
     
    O VÔO
     
    os pombos os pombos os pombos
    andam tão avoados quanto amor ou paz
    ou outra coisa qualquer que signifiquem
    sob as luzes
    os tetos largos das catedrais
    os pensamentos dos amantes
    os vôos cada vez mais raros
    disparos errados de cupido
    nenhum vôo
    os pombos andam perdidos
    sem paz
    aturdidos
    não se contentam
    com que vêem nas calçadas
    nas migalhas
    no pouco que escolhem - quando escolhem
    quando encontram
    é comida pouca
    e muita falta
    pouca asa
    que nem acompanha direito
    e voltam pra casa
    aos trancos
    barrancos que sobram só
    no final do dia
    e no outro dia
    os pombos
    levantam
    acordam
    e mesmo assim
    voam tudo
    de novo.
     

    SOBRE OS MEDOS E OUTROS BICHOS...

     
    "O medo vai ter tudo
    pernas
    ambulâncias
    e o luxo blindado
    de alguns automóveis
    Vai ter olhos onde ninguém o veja
    mãozinhas cautelosas
    enredos quase inocentes
    ouvidos não só nas paredes
    mas também no chão
    no teto
    no murmúrio dos esgotos
    e talvez até (cautela!)
    ouvidos nos teus ouvidos

    O medo vai ter tudo
    fantasmas na ópera
    sessões contínuas de espiritismo
    milagres
    cortejos
    frases corajosas
    meninas exemplares
    seguras casas de penhor
    maliciosas casas de passe
    conferências várias
    congressos muitos
    ótimos empregos
    poemas originais
    e poemas como este
    projetos altamente porcos
    heróis
    (o medo vai ter heróis!)
    costureiras reais e irreais
    operários
    (assim assim)
    escriturários
    (muitos)
    intelectuais
    (o que se sabe)
    a tua voz talvez
    talvez a minha
    com a certeza a deles

    Vai ter capitais
    países
    suspeitas como toda a gente
    muitíssimos amigos
    beijos
    namorados esverdeados
    amantes silenciosos
    ardentes
    e angustiados

    Ah o medo vai ter tudo
    tudo
    (Penso no que o medo vai ter
    e tenho medo
    que é justamente
    o que o medo quer)

    O medo vai ter tudo
    quase tudo
    e cada um por seu caminho
    havemos todos de chegar
    quase todos
    a ratos"
    Alexandre O'Neill
     

    receio
    que estejamos lentos
    rastejamos plenos
    de  medo
    alguma coisa já bem cedo
    acorda na cama junto:
    o medo -
    que anda de roupa nova
    mas com a mesma cara:
    não tem mais jeito
    ou foge
    ou sente
    ou tenta
    esconder
    o medo
    feito
    nada.
     
    January 30

    SOBRE UM ÚNICO DESEJO...

     
    "A linguagem é como uma pele:
    esfrego minha linguagem no outro.
    É como se eu tivesse palavras em vez de dedos,
    ou dedos nas pontas das palavras."
    Roland Barthes
     
     
    UM DESEJO
     
    Um desejo de que a poesia em mim durasse para sempre.
    Eternamente ramos e ramos de palavras dos meus dedos,
    infinitos,
    e que precisasse podá-los todos os dias,
    antes que envolvesse toda minha existência.
     
    Queria que a inspiração
    que me falta agora
    fosse tão forte,
    que eu não conseguisse parar de escrever
    e de pensar
    e morreria antes de uma semana disso.
    E no atestado de óbito escreveriam:
    morreu de desgaste,
    morreu de excesso de inspiração,
    de tantos êxtases,
    que morreu...
     
    Queria na verdade não querer nada
    e ter em minhas mãos a capacidade
    de escrever algo tão belo e tão simples que,
    daqui a milênios,
    continuasse a inspirar poetas,
    amores
    e saudades...
     

    SOBRE DUAS REGRAS À BEIRA-MAR...

     
    "Neste exato momento
    todos estão conectados
    e cada segundo é importante.
    Pegue dez minutos do mundo e da vida de pessoas estranhas
    e terá alguma história para contar.
    Toda vida tem sua própria história
    e toa história tem sua própria vida."
    As Regras do Mar - Julio Carvalho
     
     
       os destinos e as viagens e as pessoas todas são coisas que passam além da gente...
     
    AS REGRAS DO SOL
     
    Pela praia andei
    pela beira mar
    a espuma se quebra
    uma onda, uma cor
    de sol, um raio frouxo
    e num final de tarde
    descansar
    de sol, um tom de pele
    que de tão claro
    vermelho está
    e arde
    como saudade
    antes de ir
    e não poder
    mais voltar. 
     
    January 24

    SOBRE COMO CORRER RISCOS...

     
    " Se você quiser saber a verdade sobre uma pessoa
    descubra o sonho dela e depois trabalhe de trás para frente."
    Julio Carvalho
     
     
                                                                 ...as nuvens, as nuvens, as nuvens...o que levam as nuvens...
      
    RESPOSTA RÁPIDA
    ..e muito cuidado com o que você deseja...
     
    Todos nós perseguimos alguma coisa.
    Mais dinheiro, mais amor, talvez mais uma chance.
    Mas o que realmente queremos é mais vida. Mais um pouco desta bela vida.
    Mas você precisa ter cuidado pois pode ser que queira ainda mais que o necessário
    e no final acabe com muito menos.
    O mundo é lindo. Deveríamos estar satisfeitos.
    Mas a verdade é que todos nós queremos mais.
    Algumas pessoas sabem disso e percebem que quando satisfazem o sonho de uma outra,
    esta outra pessoa fará qualquer coisa por ela.
    Outras ainda trabalham para estas pessoas que satisfazem outros sonhos.
    E fazem isso porque querem mais como todo mundo.
    Alguns arriscam para obter a vitória. Alguns para obter amor. Outros ainda para obter poder.
    Mas você não conseguirá realizar o seu sonho se não arriscar alguma coisa
    e o segredo está em não arriscar o que não se pode perder.
    Você pode pensar que é diferente mas um dia você também vai querer mais.
    A pergunta é: o que você está disposto a arriscar?
     
    EVEN MONEY (Adaptado)
     
    January 23

    SOBRE UNS PONTOS E TEIAS...

      
    "Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
    Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
    com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
    Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
    dentro do fogo.
    -Temos um talento doloroso e obscuro.
    construímos um lugar de silêncio.
    De paixão."
    Aos amigos - Herberto Helder
     
     
    leve, leve, fio
    fio, fio leve, fio-
    -leve, fio-ama.
    fiama hasse pais brandão
     
    sobe entra sai volta corta um nó
    cruza volta desce ponto leve
    lento assim
    a
    trama
    da vida
    íntima
    vira teia
    tece
    e acontece.
     

    SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER...

     
    PARAGRAFE-SE:
    verbo intransitivo e reflexivo.
    Acepções conhecidas: 1) tome a forma de um parágrafo.
    2) tome alguma forma. 3) dê-se um sentido. 4) "tome tenência", como se diz.
    5) ache um caminho na vida. 6) mude de assunto (sinal de educação).
    7) defina-se como uma idéia principal e umas poucas secundárias.
     
                                                                                tome algo para parar o tempo na estrada  
    UM OUTRO ACORDANDO
     
    Isso é você que acaba de acordar, assim vadio, que risca com o fósforo de manhã
    e acende o fogo no rabo da vida e sai por aí desprevenido e puro de alma lavada.
    Um ponto a mais na existência das formas finas da manhã na sua boca aberta de sono
    - um bocejo saudando o dia no meio de tanta preguiça.
    E eu aqui sentado na mesa do café esperando um outro beijo seu.
    Os jornais, livros e trabalho esperando dentro do dia amanhecendo
    e eu só pensando na noite e em abraços, completamente distraído
    pensando em coisas como se você já tivesse ido, saído fora.
    Algo do tipo "a falta que você me faz antes de você ir embora daqui".
    O que me sobra quando logo um outro beijo é o cheiro do café fresco,
    os lençóis passados no armário e essa inquietação das horas que se dobram diante da janela.
    E o tempo me dizendo que você precisa ir.
    E eu já com saudades.
     
    Se o tempo não pára, porque então não pode tudo voltar logo rápido?
     
    January 22

    SOBRE UMA OUTRA LEITURA...

     
    "As palavras, depois de serem ditas, diferentes de somente escritas,
    abandonam as vozes e perdem-se no céu.
    Flutuam invisíveis e agora silenciosas.
    Ninguém as percebe, mas elas estão ali,
    prontas para serem abocanhadas por um pensamento qualquer."
    Paula Taitelbaum

     

    LEITURA DÁGUA
     
    Lá, li os livros n'água
    líquidos com palavras e sílabas flutuantes
    pedras de acentos:
    pontos, vírgulas e interrogações 
    formando redemoinhos
    e círculos
    entrelinhas mostrando margens
    um rio que leva livros, palavras e textos
    fazendo alguma confusão.
     
    no final da correnteza
    cachoeira de letras
    rio ou choro
    e acabo de ler.
     

    SOBRE O SUSTO DE UM OUTRO...

     
    "Se o escritor já nasce feito, já nasce escritor,
    não há nada que possa ajudá-lo muito,
    contudo também não há nada que possa prejudicá-lo.
    O que tenho a dizer: aventure-se pessoalmente na vida.
    Esta é - será sempre - a matéria prima da literatura.
    Porque a literatura é a empresa de conquista verbal da realidade,
    desde que você tenha antes conquistado a realidade pessoalmente."
    Márcia Denser em entrevista para a revista BAGATELAS! número #3
     
     
    O ESPANTALHO
     
    O homem olhava sozinho pela janela do carro estacionado à beira da plantação.
    Seus pensamentos se perdiam na plantação como se nela ele encontrasse alguma inspiração e segurança.
    O seu olhar era fixo, distante, perdido de longe demais.
    As idéias iam se formando e criando e crescendo de sementes a plantas inteiras.
    A inspiração veio plena e cheia de elementos ricos e poderosos.
    Um insight, um tumulto, uma vidência, a violência clara das idéias brotando.
    Imediatamente pensou em anotar tudo mesmo sem ter nenhum papel, caneta ou suporte para escrever.
    Ficou quieto, suspenso, como se mexer a cabeça o fizesse misturar tudo dentro dela
    e esquecer o que seria escrito.
    Sem mais, um barulho de repente: um pássaro tão distraído quanto ele,
    se choca contra o pára-brisas do carro.
    Assustado, acorda daquele estado suspenso de pensamento e sai completamente da sua inspiração.
    Preocupado, vai averiguar o pássaro e quando dá por si
    apaga tudo como um sonho esquecido no pós-acordar.
    E fica estático, apavorado. Acabou-se a idéia, a inspiração, o sonho.
    Vai ter de começar tudo outra vez. Respirar e re-inspirar.
    Talvez o pássaro agora morto faça com que ele venha a criar outra história em breve.
    Algo assim de surpresa, de susto.
    Como esse texto, por exemplo.
     

    SOBRE VINHO E LEMBRANÇA...

     
    "Ultimamente eu mais acaricio um mouse do que gente."
    Paula Taitelbaum
     
     
    O MICROCOSMO DAS UVAS VERMELHAS
                                                 ou a memória nas uvas.*
     
    Líquido: vinho.
    Cor: vermelha.
    Sabor: agradável.
    Tempo: infância.
    Relação: neto e avô.
    Lugar: uma adega.
    Mistura: água, açúcar e vinho.
    Resultado: sangria.
     
    INTERVALO
     
    Idade: 18 anos.
    Ocasião: um almoço de domingo.
    Recipiente: uma taça cheia.
    Conteúdo: vinho puro.
    Intenção: maturidade.
    Significado: lembrança.
     
     

    SOBRE COMO MANTER A HARMONIA...

     
    "Escrever é enxergar cores além do espectro,
    como se o resto do mundo - todo o mundo - fosse daltônico."
     
    "É preciso transgredir as regras para acertar a vida."
    Márcia Denser
     
                                                                                                           Fotopoema de Julio Carvalho
     
    CONCLUSÃO
     
    Não me sinto
    mais ou menos verde
    mas ainda não estou maduro
     
    January 20

    SOBRE MATÉRIA E RELIGIÃO...

     
    "Existem muitos caminhos para se ir ao mesmo lugar, ou para se chegar a lugar nenhum.
    Na encruzilhada da vida, um rumo escolhido é um rumo sem volta.
    Mamãe posso ir? Quantos passos? De elefante ou de formiguinha?
    Quem chegar por último é mulher do padre.
    Pois quando você é criança o futuro parece terminar ali no muro do quintal.
    O máximo que temos é uma curiosidade e uma imaginação ingênua quanto a ele,
    é talvez uma juvenil e rara sensação de eternidade.
    Mas a vida não é brincadeira. E tem lá seus bichos papões.
    Secretos e escondidos entre as frestas da nossa alma.
    Esperando para atacar ao longo de qualquer caminho."
     
     
    A-PRECEM-SE
    Poematemático religioso polêmico
     
    Valha-me!
    Por Nosso Senhor do Bonfim
    e dos começos
    onde estamos com a cabeça?
    de vento ou de prego?
    presos a idéias tão velhas quanto o tempo
    adventos
    precisa-se
    de outras paradas e palavras
    a mais (+)
    sem (100) discussões
    que não levam a nada
    ou coisa alguma
    o que se tem que fazer
    que Ser é feito
    dito de fato
    é obedecer
    (não cegamente)
    às mudanças
    e oferecer
    respostas mais (+) claras
    sem disfarces
    sem caras e bocas
    inclusive com
    mais (+) bocas falando e comendo
    e gente
    crescendo com mais (+) opiniões concretas
    menos ( - ) discretas
    menos ( - ) caladas
    Valha-me Nosso Senhor do Bonfim
    precisa-se de um novo
    começo
    menos ( - )
    denso
    a cara leve
    e um sorriso
    a pleno
    vento
     
    oremos:
     
    coremos
    de vergonha
    pelo que ainda somos
    e dizemos
     

    SOBRE COMO TER O POEMA...

     
    "Muitos homens que vêem não enxergam a palavra
    E muitos homens que ouvem não a escutam
    Embora, para outros, ela se revele tal qual
    noiva radiante que se rende ao próprio cônjuge"
    Rig Veda - Tradução Mario Mieli
     
    Sobre Um Metro E Meio de Poesia
     
    DE OLHO NA POESIA
    Por OMAR KHOURI*
     
    É consagrada e persistente a idéia de POESIA como a ARTE DA PALAVRA, por excelência,
    o que não deixa de corresponder à verdade, a uma parte da verdade, digamos.
    De fato mesmo, a poesia sempre esteve envolvida com outros códigos/outras artes, em alianças mais ou menos explícitas.
    Com a eclosão dos modernismos e seus desdobramentos, a poesia se assume como arte intersemiótica,
    invadindo outros campos, casando-se com outros universos, rompendo com quaisquer delimitações,
    o que, de resto, aconteceu com as outras áreas da criação artística.
     
    POESIA E VISUALIDADE: embora a questão não seja nada nova e muita água já tenha rolado desde fins do século passado,
    provoca discussões acirradas e reprovação por parte daqueles que, verbalistas conservadores
    (fazedores de versos livres ou não) pensam ser seu território e se julgam no direito de reservar para si o rótulo POETA.
    (Quem estaria interessado na disputa?) Discussões infrutíferas da fatura (poema).
    Daí, que a denominação POESIA VISUAL seja insuficiente, porque essa poesia é mais, nem sequer exclui sonoridades!
    Melhor seria chamá-la POESIA INTERSEMIóTICA INTER/MULTI-MíDIA DA ERA PóS VERSO,
    pois utiliza vários códigos e meios e já é concebida para ser veiculada do papel ao CD-ROM, passando pelo vídeo.
    Essa é a poesia que nos últimos vinte e cinco anos vem provando que a experimentação é companheira inseparável do exercício artístico.
     
    Retomando a questão POESIA: é poesia toda forma de organização sígnica com certo grau de complexidade que,
    visando a um fim estético, traz consigo uma carga conceitual, própria do mundo das palavras.
    É poesia tudo aquilo que o poeta quer que o seja; pelo simples fato de ele ser poeta, suas faturas serão poemas.
     
    Voltando à questão POESIA/OLHO: há três formas principais de visualidade na poesia:
    1. Aquela evocada pelas palavras (a projeção de uma imagem na retina da mente -"fanopéia", Pound).
    2. A emprestada ao poema, necessariamente, pelo registro da escrita.
    3. A visualidade que entra como um propósito do fazedor, que explora os recursos da escrita, do desenho, da cor, etc.
    Ela comparece tanto nos poemas figurativos como nas verdadeiras fusões de códigos.
    E a poesia que aqui se situa não tem as mais avançadas tecnologias;
    transita pelos vários meios; poesia aberta às possibilidades-mil do hoje.
    POESIA INTERSEMIóTICA INTER/MULTI-MíDIA : A POESIA DA ERA PóS VERSO
     
    * Omar Khouri, Professor universitário, crítico, poeta e artista gráfico.
     

    SOBRE COLOCAR A MÃO NA ARTE...

     
    "busca
    no fragmento
    da palavra
    na sílaba
    calada um

    ruído, silvo ou cicio
    que sirva aos
    sentidos

    suspensas no
    quadro-negro
    apagado,
    escritas a giz,
    palavras
    vício do ouvido
    cicatriz."
    Kleber Mantovani
     
         
     
    A MÃO NA ARTE
     
    abra mão
    abra arte
    abracadabra
    faz sua parte
    artemagicar
    imaginar
    vendo com os olhos
    a arte mão -
    cada parte
    do corpo
    quando a arte
    é grande
    arde
    de antemão
    muitas vezes
    admirar com a mão
    toda grande arte
    devia fazer
    parte
    arte da cabeça aos pés
    serumano todo
    arteiro
    fezer todo mundo
    ar-tezão:
    o gozo
    de ver
    arte
    na
    mão.
     

    SOBRE AS NOMINDENTIDADES...

     
    "Hoje roí todas as unhas.
    Quero menos eu em mim."
    Paula Taitelbaum
     
    Fotopoema inspirado na obra de Lenora de Barros.
     
     
    NOME
    "Quando você nomeia você convida a existir." Citado por Juliana Leite
     
    nome
    enorme
    coisa
    a causa
    das coisas
    que causam
    quase tudo
     
    nomidentidades
     
    informe seu nome
    e tome
    a surpresa
    que a palavra
    se torne
    outras vezes
    o nome
    distorce
    esconde
    uma fome
    cuidado com o que o nome
    seu mau uso
    se transforme
    e cause um problema
    enorme
     
    ...enquanto isso o Verdadeiro Nome dorme...
     

    SOBRE AS CAUSAS E OS EFEITOS...

     
    "Na música os metrônomos marcam o tempo
    junto com o contratempo que não é visível.
    No meio, há o sentido das coisas.
    E você está lá, mas ainda não sabe."
    Do Filme DIAS DE ABANDONO
     
     
    A CRIAÇÃO
     
    Um dia desses Deus estava entediado e criou.
    (Ele sempre cria coisas quando está entediado.)
     
    Piscou um olho e fez a luz e o dia e as trevas e o céu.
    Deu de ombros e fez as águas e as terras e o ar.
    Estalou os dedos e fez os animais e as plantas e os sexos.
    Bateu palmas e fez os sentimentos e a alma e a dor.
     
    Quando acabou e distraído e olhando a obra feita
    não viu uma dobra de grama do chão e levou o maior tombo.
     
    E eu nasci.
     
    January 18

    SOBRE O RASCUNHO DO AMANHÃ...


    "Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz.
    O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro.
    Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.
    Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós.
    Estamos sempre além. O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro,
    sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será,
    embora o tempo passe e já não sejamos mais."
    Michel Eyquem de Montaigne  
     
     
     
    EXEMPLO
     
    por todos os pensamentos hoje
    plantam-se intenções
    o resto
    vai se colher
    de qualquer jeito
     
    só não se colhe
    se morre
     
    então
    fico com o hoje