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January 31 SOBRE O FALAR E AS PALAVRAS..."Ao longo da muralha que habitamos Há palavras de vida, há palavras de morte Há palavras imensas que esperam por nós e outras frágeis que deixaram de esperar Há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição. Entre nós e as palavras, surdamente, As mãos e as paredes de Elsenor E há palavras e noturnas, palavras gemidos Palavras que nos sobem ilegíveis à boca Palavras diamantes, palavras nunca escritas Palavras impossíveis de escrever por não termos conosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo, nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul, onde oxidados morrem Palavras maternais, só sombra, só soluço, só espasmos, só amor, só solidão desfeita. Entre nós e as palavras, os emparedados E entre nós e as palavras, o nosso dever falar."
![]() muitas são as cartas que guardam palavras escritas e outras muitas que foram caladas
e por falar nisso...
alguns que se acham tão
eruditos
acreditam saber mais
mas o que pensam
vara sentimento e fica só razão de ser
em mente e mentem
crescem as paredes e ficam as palavras de menos
as pessoas que falam demais
e sentem tão pouco
que passa a ser indecentemente
falta de coração
ou educação
em boca fechada
realmente
inteligente
não entra
coisa
tosca
e eu que tenho visto muita mosca...
SOBRE O MENOS MEDO E MAIS CORAGENS..."Tu tens um medo:
Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno." Cecília Meireles
![]() o medo é um só e as coragens, várias...
AINDA MEDO
I.
quase pouco diminuindo
quando como não se alimenta
e o medo se alimenta
é sabido
por isso
causo boicotes ao medo
enfrento
passo por lugares inomináveis
proibidos
confesso os piores pecados
e o medo fica bobo
besta, até meio perdido
coitado
se esconde quando era eu o escondido
o medo fica assim até que um dia,
espero,
o medo tenha sumido.
II.
é triste ir pela vida como quem regressa
e entrou humildemente por engano pela porta errada.
a vida são as coisas feitas porta à fora.
e sem medo.
SOBRE CERTAS APARÊNCIAS..."Sinto a vida escapando pelos poros.
Não posso conter o apelo de minha anatomia.
Sou o veículo frágil das hipóteses desconexas, das crenças céticas, dos hermetismos confessos.
Sou corpo que não cabe em recipientes. Sou eu
quase nada
e ao mesmo tempo
quase deus."
Ézio Deda - Adaptado
![]() das nuvens nas nuvens nas águas de chuva das outras tantas águas que molham: broto
DAS APARÊNCIAS
alguma
coisa se desprendeu mas o quê? como faltas de palmas e plantas
como os vasos dentro de nós
as palmas e os aplausos
em flores e nós nos vasos
os vasos plantados
com plantas
que crescem demais e tem que mudar de lugar
mas a mudança tem que vir de fora
é um crescer de fora pra dentro
crescer é um não brincar de fazer previsões
natural
um quase
quando vi - cresci!
e você, o outro aí: voltou ao normal?
replantado?
reciclado por assim dizer ao gosto do mato verde?
apascentando, pastoreando todo dia
o olhar de outros?
Vastos são os vasos e o que cresce dentro deles
desde as ervas daninhas e as plantas carnívoras e as plantas benignas
falta-lhes um sorriso por enquanto
enquanto - palavra senão
então
o joio do trigo sempre todo dia separado
broto água
broto lágrima
colho
olho no olho
broto-me
enfim
SOBRE ESSA FALTA DE ASAS..."Que coisas são essas que me dizes sem dizer,
escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza
é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
Torna-se desesperada, urgente.
Eu já não sei o que faço.
Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei?
Não quero me afogar: Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara."
Caio Fernando Abreu ![]() sou não vôo, sou não apaixonado, sou não pássaro, mas sou asas...
O VÔO
os pombos os pombos os pombos
andam tão avoados quanto amor ou paz
ou outra coisa qualquer que signifiquem
sob as luzes
os tetos largos das catedrais
os pensamentos dos amantes
os vôos cada vez mais raros
disparos errados de cupido
nenhum vôo
os pombos andam perdidos
sem paz
aturdidos
não se contentam
com que vêem nas calçadas
nas migalhas
no pouco que escolhem - quando escolhem
quando encontram
é comida pouca
e muita falta
pouca asa
que nem acompanha direito
e voltam pra casa
aos trancos
barrancos que sobram só
no final do dia
e no outro dia
os pombos
levantam
acordam
e mesmo assim
voam tudo
de novo.
SOBRE OS MEDOS E OUTROS BICHOS...
receio
que estejamos lentos
rastejamos plenos
de medo
alguma coisa já bem cedo
acorda na cama junto:
o medo -
que anda de roupa nova
mas com a mesma cara:
não tem mais jeito
ou foge
ou sente
ou tenta
esconder
o medo
feito
nada.
January 30 SOBRE UM ÚNICO DESEJO..."A linguagem é como uma pele:
esfrego minha linguagem no outro.
É como se eu tivesse palavras em vez de dedos,
ou dedos nas pontas das palavras."
Roland Barthes
UM DESEJO
Um desejo de que a poesia em mim durasse para sempre.
Eternamente ramos e ramos de palavras dos meus dedos,
infinitos,
e que precisasse podá-los todos os dias,
antes que envolvesse toda minha existência.
Queria que a inspiração
que me falta agora
fosse tão forte,
que eu não conseguisse parar de escrever
e de pensar
e morreria antes de uma semana disso.
E no atestado de óbito escreveriam:
morreu de desgaste,
morreu de excesso de inspiração,
de tantos êxtases,
que morreu...
Queria na verdade não querer nada
e ter em minhas mãos a capacidade
de escrever algo tão belo e tão simples que,
daqui a milênios,
continuasse a inspirar poetas,
amores
e saudades...
SOBRE DUAS REGRAS À BEIRA-MAR..."Neste exato momento
todos estão conectados
e cada segundo é importante.
Pegue dez minutos do mundo e da vida de pessoas estranhas
e terá alguma história para contar.
Toda vida tem sua própria história
e toa história tem sua própria vida."
As Regras do Mar - Julio Carvalho
![]() os destinos e as viagens e as pessoas todas são coisas que passam além da gente...
AS REGRAS DO SOL
Pela praia andei
pela beira mar
a espuma se quebra
uma onda, uma cor
de sol, um raio frouxo
e num final de tarde
descansar
de sol, um tom de pele
que de tão claro
vermelho está
e arde
como saudade
antes de ir
e não poder
mais voltar.
January 24 SOBRE COMO CORRER RISCOS..." Se você quiser saber a verdade sobre uma pessoa
descubra o sonho dela e depois trabalhe de trás para frente."
Julio Carvalho
...as nuvens, as nuvens, as nuvens...o que levam as nuvens...
RESPOSTA RÁPIDA
..e muito cuidado com o que você deseja...
Todos nós perseguimos alguma coisa.
Mais dinheiro, mais amor, talvez mais uma chance.
Mas o que realmente queremos é mais vida. Mais um pouco desta bela vida.
Mas você precisa ter cuidado pois pode ser que queira ainda mais que o necessário
e no final acabe com muito menos.
O mundo é lindo. Deveríamos estar satisfeitos.
Mas a verdade é que todos nós queremos mais.
Algumas pessoas sabem disso e percebem que quando satisfazem o sonho de uma outra,
esta outra pessoa fará qualquer coisa por ela.
Outras ainda trabalham para estas pessoas que satisfazem outros sonhos.
E fazem isso porque querem mais como todo mundo.
Alguns arriscam para obter a vitória. Alguns para obter amor. Outros ainda para obter poder.
Mas você não conseguirá realizar o seu sonho se não arriscar alguma coisa
e o segredo está em não arriscar o que não se pode perder.
Você pode pensar que é diferente mas um dia você também vai querer mais.
A pergunta é: o que você está disposto a arriscar?
EVEN MONEY (Adaptado)
January 23 SOBRE UNS PONTOS E TEIAS..."Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. -Temos um talento doloroso e obscuro. construímos um lugar de silêncio. De paixão." Aos amigos - Herberto Helder
leve, leve, fio
fio, fio leve, fio- -leve, fio-ama. fiama hasse pais brandão
sobe entra sai volta corta um nó
cruza volta desce ponto leve
lento assim
a trama da vida
íntima
vira teia
tece
e acontece.
SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER...PARAGRAFE-SE: verbo intransitivo e reflexivo.
Acepções conhecidas: 1) tome a forma de um parágrafo.
2) tome alguma forma. 3) dê-se um sentido. 4) "tome tenência", como se diz.
5) ache um caminho na vida. 6) mude de assunto (sinal de educação).
7) defina-se como uma idéia principal e umas poucas secundárias.
![]() tome algo para parar o tempo na estrada
UM OUTRO ACORDANDO
Isso é você que acaba de acordar, assim vadio, que risca com o fósforo de manhã
e acende o fogo no rabo da vida e sai por aí desprevenido e puro de alma lavada.
Um ponto a mais na existência das formas finas da manhã na sua boca aberta de sono
- um bocejo saudando o dia no meio de tanta preguiça.
E eu aqui sentado na mesa do café esperando um outro beijo seu.
Os jornais, livros e trabalho esperando dentro do dia amanhecendo
e eu só pensando na noite e em abraços, completamente distraído
pensando em coisas como se você já tivesse ido, saído fora.
Algo do tipo "a falta que você me faz antes de você ir embora daqui".
O que me sobra quando logo um outro beijo é o cheiro do café fresco,
os lençóis passados no armário e essa inquietação das horas que se dobram diante da janela.
E o tempo me dizendo que você precisa ir.
E eu já com saudades.
Se o tempo não pára, porque então não pode tudo voltar logo rápido?
January 22 SOBRE UMA OUTRA LEITURA..."As palavras, depois de serem ditas, diferentes de somente escritas,
abandonam as vozes e perdem-se no céu.
Flutuam invisíveis e agora silenciosas.
Ninguém as percebe, mas elas estão ali,
prontas para serem abocanhadas por um pensamento qualquer."
Paula Taitelbaum
LEITURA DÁGUA
Lá, li os livros n'água
líquidos com palavras e sílabas flutuantes
pedras de acentos:
pontos, vírgulas e interrogações
formando redemoinhos
e círculos
entrelinhas mostrando margens
um rio que leva livros, palavras e textos
fazendo alguma confusão.
no final da correnteza
cachoeira de letras
rio ou choro
e acabo de ler.
SOBRE O SUSTO DE UM OUTRO..."Se o escritor já nasce feito, já nasce escritor,
não há nada que possa ajudá-lo muito,
contudo também não há nada que possa prejudicá-lo.
O que tenho a dizer: aventure-se pessoalmente na vida.
Esta é - será sempre - a matéria prima da literatura.
Porque a literatura é a empresa de conquista verbal da realidade,
desde que você tenha antes conquistado a realidade pessoalmente."
Márcia Denser em entrevista para a revista BAGATELAS! número #3
![]() O ESPANTALHO
O homem olhava sozinho pela janela do carro estacionado à beira da plantação.
Seus pensamentos se perdiam na plantação como se nela ele encontrasse alguma inspiração e segurança.
O seu olhar era fixo, distante, perdido de longe demais.
As idéias iam se formando e criando e crescendo de sementes a plantas inteiras.
A inspiração veio plena e cheia de elementos ricos e poderosos.
Um insight, um tumulto, uma vidência, a violência clara das idéias brotando.
Imediatamente pensou em anotar tudo mesmo sem ter nenhum papel, caneta ou suporte para escrever.
Ficou quieto, suspenso, como se mexer a cabeça o fizesse misturar tudo dentro dela
e esquecer o que seria escrito.
Sem mais, um barulho de repente: um pássaro tão distraído quanto ele,
se choca contra o pára-brisas do carro.
Assustado, acorda daquele estado suspenso de pensamento e sai completamente da sua inspiração.
Preocupado, vai averiguar o pássaro e quando dá por si
apaga tudo como um sonho esquecido no pós-acordar.
E fica estático, apavorado. Acabou-se a idéia, a inspiração, o sonho.
Vai ter de começar tudo outra vez. Respirar e re-inspirar.
Talvez o pássaro agora morto faça com que ele venha a criar outra história em breve.
Algo assim de surpresa, de susto.
Como esse texto, por exemplo.
SOBRE VINHO E LEMBRANÇA..."Ultimamente eu mais acaricio um mouse do que gente."
Paula Taitelbaum
![]() O MICROCOSMO DAS UVAS VERMELHAS
ou a memória nas uvas.*
Líquido: vinho.
Cor: vermelha.
Sabor: agradável.
Tempo: infância.
Relação: neto e avô.
Lugar: uma adega.
Mistura: água, açúcar e vinho.
Resultado: sangria.
INTERVALO
Idade: 18 anos.
Ocasião: um almoço de domingo.
Recipiente: uma taça cheia.
Conteúdo: vinho puro.
Intenção: maturidade.
Significado: lembrança.
SOBRE COMO MANTER A HARMONIA..."Escrever é enxergar cores além do espectro,
como se o resto do mundo - todo o mundo - fosse daltônico."
"É preciso transgredir as regras para acertar a vida."
Márcia Denser
![]() Fotopoema de Julio Carvalho
CONCLUSÃO
Não me sinto
mais ou menos verde
mas ainda não estou maduro
January 20 SOBRE MATÉRIA E RELIGIÃO..."Existem muitos caminhos para se ir ao mesmo lugar, ou para se chegar a lugar nenhum.
Na encruzilhada da vida, um rumo escolhido é um rumo sem volta.
Mamãe posso ir? Quantos passos? De elefante ou de formiguinha?
Quem chegar por último é mulher do padre.
Pois quando você é criança o futuro parece terminar ali no muro do quintal.
O máximo que temos é uma curiosidade e uma imaginação ingênua quanto a ele,
é talvez uma juvenil e rara sensação de eternidade.
Mas a vida não é brincadeira. E tem lá seus bichos papões.
Secretos e escondidos entre as frestas da nossa alma.
Esperando para atacar ao longo de qualquer caminho."
![]() A-PRECEM-SE
Poematemático religioso polêmico
Valha-me!
Por Nosso Senhor do Bonfim
e dos começos
onde estamos com a cabeça?
de vento ou de prego?
presos a idéias tão velhas quanto o tempo
adventos
precisa-se
de outras paradas e palavras
a mais (+)
sem (100) discussões
que não levam a nada
ou coisa alguma
o que se tem que fazer
que Ser é feito
dito de fato
é obedecer
(não cegamente)
às mudanças
e oferecer
respostas mais (+) claras
sem disfarces
sem caras e bocas
inclusive com
mais (+) bocas falando e comendo
e gente
crescendo com mais (+) opiniões concretas
menos ( - ) discretas
menos ( - ) caladas
Valha-me Nosso Senhor do Bonfim
precisa-se de um novo
começo
menos ( - )
denso
a cara leve
e um sorriso
a pleno
vento
oremos:
coremos
de vergonha
pelo que ainda somos
e dizemos
SOBRE COMO TER O POEMA..."Muitos homens que vêem não enxergam a palavra
E muitos homens que ouvem não a escutam
Embora, para outros, ela se revele tal qual
noiva radiante que se rende ao próprio cônjuge"
Rig Veda - Tradução Mario Mieli
![]() ![]() Sobre Um Metro E Meio de Poesia
DE OLHO NA POESIA
Por OMAR KHOURI*
É consagrada e persistente a idéia de POESIA como a ARTE DA PALAVRA, por excelência,
o que não deixa de corresponder à verdade, a uma parte da verdade, digamos.
De fato mesmo, a poesia sempre esteve envolvida com outros códigos/outras artes, em alianças mais ou menos explícitas.
Com a eclosão dos modernismos e seus desdobramentos, a poesia se assume como arte intersemiótica,
invadindo outros campos, casando-se com outros universos, rompendo com quaisquer delimitações,
o que, de resto, aconteceu com as outras áreas da criação artística.
POESIA E VISUALIDADE: embora a questão não seja nada nova e muita água já tenha rolado desde fins do século passado,
provoca discussões acirradas e reprovação por parte daqueles que, verbalistas conservadores
(fazedores de versos livres ou não) pensam ser seu território e se julgam no direito de reservar para si o rótulo POETA.
(Quem estaria interessado na disputa?) Discussões infrutíferas da fatura (poema).
Daí, que a denominação POESIA VISUAL seja insuficiente, porque essa poesia é mais, nem sequer exclui sonoridades!
Melhor seria chamá-la POESIA INTERSEMIóTICA INTER/MULTI-MíDIA DA ERA PóS VERSO,
pois utiliza vários códigos e meios e já é concebida para ser veiculada do papel ao CD-ROM, passando pelo vídeo.
Essa é a poesia que nos últimos vinte e cinco anos vem provando que a experimentação é companheira inseparável do exercício artístico.
Retomando a questão POESIA: é poesia toda forma de organização sígnica com certo grau de complexidade que,
visando a um fim estético, traz consigo uma carga conceitual, própria do mundo das palavras.
É poesia tudo aquilo que o poeta quer que o seja; pelo simples fato de ele ser poeta, suas faturas serão poemas.
Voltando à questão POESIA/OLHO: há três formas principais de visualidade na poesia:
1. Aquela evocada pelas palavras (a projeção de uma imagem na retina da mente -"fanopéia", Pound).
2. A emprestada ao poema, necessariamente, pelo registro da escrita.
3. A visualidade que entra como um propósito do fazedor, que explora os recursos da escrita, do desenho, da cor, etc.
Ela comparece tanto nos poemas figurativos como nas verdadeiras fusões de códigos.
E a poesia que aqui se situa não tem as mais avançadas tecnologias;
transita pelos vários meios; poesia aberta às possibilidades-mil do hoje.
POESIA INTERSEMIóTICA INTER/MULTI-MíDIA : A POESIA DA ERA PóS VERSO
* Omar Khouri, Professor universitário, crítico, poeta e artista gráfico.
SOBRE COLOCAR A MÃO NA ARTE..."busca
no fragmento da palavra na sílaba calada um ruído, silvo ou cicio que sirva aos sentidos suspensas no quadro-negro apagado, escritas a giz, palavras vício do ouvido cicatriz." Kleber Mantovani ![]() A MÃO NA ARTE
abra mão
abra arte
abracadabra
faz sua parte
artemagicar
imaginar
vendo com os olhos
a arte mão -
cada parte
do corpo
quando a arte
é grande
arde
de antemão
muitas vezes
admirar com a mão
toda grande arte
devia fazer
parte
arte da cabeça aos pés
serumano todo
arteiro
fezer todo mundo
ar-tezão:
o gozo
de ver
arte
na
mão.
SOBRE AS NOMINDENTIDADES..."Hoje roí todas as unhas.
Quero menos eu em mim."
Paula Taitelbaum
![]() Fotopoema inspirado na obra de Lenora de Barros.
NOME
"Quando você nomeia você convida a existir." Citado por Juliana Leite
nome
enorme
coisa
a causa
das coisas
que causam
quase tudo
nomidentidades
informe seu nome
e tome
a surpresa
que a palavra
se torne
outras vezes
o nome
distorce
esconde
uma fome
cuidado com o que o nome
seu mau uso
se transforme
e cause um problema
enorme
...enquanto isso o Verdadeiro Nome dorme...
SOBRE AS CAUSAS E OS EFEITOS..."Na música os metrônomos marcam o tempo
junto com o contratempo que não é visível.
No meio, há o sentido das coisas.
E você está lá, mas ainda não sabe."
Do Filme DIAS DE ABANDONO
![]() A CRIAÇÃO
Um dia desses Deus estava entediado e criou.
(Ele sempre cria coisas quando está entediado.)
Piscou um olho e fez a luz e o dia e as trevas e o céu.
Deu de ombros e fez as águas e as terras e o ar.
Estalou os dedos e fez os animais e as plantas e os sexos.
Bateu palmas e fez os sentimentos e a alma e a dor.
Quando acabou e distraído e olhando a obra feita
não viu uma dobra de grama do chão e levou o maior tombo.
E eu nasci.
January 18 SOBRE O RASCUNHO DO AMANHÃ..."Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz. O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro.
Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.
Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além. O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro,
sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será,
embora o tempo passe e já não sejamos mais."
Michel Eyquem de Montaigne EXEMPLO
por todos os pensamentos hoje
plantam-se intenções
o resto
vai se colher
de qualquer jeito
só não se colhe
se morre
então
fico com o hoje
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