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    January 13

    SOBRE AS AMIZADES E OS EXCESSOS...

     

    "Acumular é uma palavra neutra que pressupõe um somatório,

    uma avidez no acto de guardar.

    No entanto, acumular pressupõe também segurança no objecto acumulado.

    Só armazenamos o que nos tranquiliza agora, e para os próximos tempos.

    Acumulamos dinheiro, casas, projectos:

    e com tais armazéns mentais ou físicos, relaxamos.

    Mas não acumulamos excessos, não acumulamos energias não afáveis.

    Precisamente: o excesso é uma energia não afável.

    Não podes acariciar o excesso como fazes ao teu cão.

    Ficarias sem pernas."

    Nota 4: Sobre o acumular - Gonçalo M. Tavares

     

    tem certas coisas que toda gente jamais terá:

    uma delas é esta entrega, esta certa entrega perigosa.

    essa entrega de se conhecer ao outro, coisa rara que se nunca viu

    essa entrega a um amor diferente chamado

    amizade

     

    e correr até um perigo sem volta

    porque a gente nunca sabe ao certo o que o outro pensa

    e tenta e quer ficar junto mesmo sem falar nada

    só pra agradar como que pescando aquele algum sentimento que escapa

    e um algo assim isolado só de dentro da gente

    mas que é tão grande que a gente não agüenta

    e quer dividir e sabe que só algumas pessoas é que podem entender

    e não pode ser um alguém qualquer

    tem que ser alguém que tem que ter um algo em comum

    - um olhar um gesto - nem que não seja uma palavra -

    porque nessas horas palavras não são nada nem coisa nenhuma

    algo como saber tudo do outro sem até o outro saber nem porque se sabe de tudo

    e que se entendam os dois e se entende isso tudo como amigos

    e todo o resto dentro é uma coisa que só a dois se entende

    como sendo esse um amor diferente

     

     

     

    SOBRE A INVESTIGAÇÃO DAS COISAS DA VIDA...

     

    “Não tenho a pretensão de iluminar.

    A luz serve para me não perder.”

    http://eremiterioblogspot.blogspot.com

     

     

     

     
    OUTRA SITUAÇÃO
     

    Vamos investigar as pequenas coisas

    e escrever nas lousas o que é do bem ou do mal

    e deixar o bom

    e apagar o giz ruim

     

    O branco é o ranço das coisas que viraram pó

     

    Poderia criar um apagador de vida

    e se pudesse reescrever o que de errado estava

    o giz não dava

    Ou então tudo virava grafite

    e acabava tudo em aerosol -

    tudo o mais colorido

    e a vida não acabaria mais em pó

    e todo dia

    colorido

    só teria sol.  

     
    January 08

    SOBRE A BUSCA DOS SORRISOS...

     

    "Uma hora

    uma folha ao vento

    em cada palpitação

    uma busca."

    (Carmen Presotto, A Rosa)

     

    Hoje estou tão triste de não verter nem lágrimas

    é uma tristeza seca de rachadura no chão

    o peito rachado de nada sem água sem fonte

    o sorriso forçado sem inspiração

     

    É uma tristeza de fumaça jogada no ar

    cheio de uma cidade feita contra a vida

    cheia de poluição - fumaça pra nada

    sem nada, querer nada - nenhuma função

     

    Tristeza onde se perde a razão das coisas

    e a janela é só uma janela - uma moldura de prédios

    sem nuvens de lado, sem sol e sem luz

    é uma noite do lado de fora de todos os tempos

    e aqui e ali a vida se reduz...

     

    January 06

    SOBRE "I HAVE NEW NAME TODAY"...

     
    "As palavras se contaminam
    de cada um de nós
    Bebem nosso único sangue.
    Engravidam das vivências
    de específicos destinos.
    Quando alçadas em abstrações
    prévias estagiaram no cerne
    de nossa própria carne.

    Por isso descaminhos se traçam
    e se cavam abismos e abismos
    entre bocas e ouvidos.
    O que se expressa e vigora
    em aparente senha comum
    não cintila a sua aura
    e de nós o essencial ignora"

    A PALAVRA NA BERLINDA - Astrid Cabral
     
                                                                                                                                                     Foto de Elizabeth Padilha
     
    POBRES NhOMEnS
     
    Você tem um nome
    como todo mundo tem
    e todo mundo te chama por um
    nome
    sem nome você teria um problema
    enorme
    de identidade
    e fome
    de quem sou eu?
    onde estou ?
    nós somos quem somos nós dois então?
    e quando te chamam
    é desfeito o  nome
    e você não é mais só um
    vira alguém
    um significado
    além
    do nome.
     
    e de nome em nome
    passa um enorme espaço entre as pessoas
    que em algum dia some
    junto com o nome
    e ninguém se lembra mais se é mulher
    ou homem
    e muito menos
    do nome.
      
    e eu tenho o meu
    nome
    enorme
    formado por cinco nomes
    até um sobrenome
    árvore
    e até raízes
    o nome tem
    todo nome tem raízes
    não é à toa que
    meu último nome
    se transforma
    em árvore -
    no final do nome
    eu sou um
    carvalho.

     

    January 05

    SOBRE POEMAS, SOMBRAS E ESPELHOS...

     
    "o buraco do espelho está fechado
    agora eu tenho que ficar aqui
    com um olho aberto, outro acordado
    no lado de lá onde eu caí

    pro lado de cá não tem acesso
    mesmo que me chamem pelo nome
    mesmo que admitam meu regresso
    toda vez que eu vou a porta some

    a janela some na parede
    a palavra de água se dissolve
    na palavra sede, a boca cede
    antes de falar, e não se ouve

    já tentei dormir a noite inteira
    quatro, cinco, seis da madrugada
    vou ficar ali nessa cadeira
    uma orelha alerta, outra ligada

    o buraco do espelho está fechado
    agora eu tenho que ficar agora
    fui pelo abandono abandonado
    aqui dentro do lado de fora"

    O Buraco do Espelho - Arnaldo Antunes
    (in o carioca - revista de arte e cultura nº 2/ julho e agosto 1996)
     
     

     

    DAR DE NOVO

     Baseado em texto de HORACIO SALAS

     

    Os poemas dialogam entre si

    mudam de lugar, trocam mensagens

    atravessam os olhos

    descobrem trilhas novas

    resplandecem como fogos coloridos

    aparecem na superfície das águas

    começam uma nova lição de casa

    transformam a essência dos reflexos

    acendendo novas luzes e estrelas

    às vezes silenciam e evocam um filme de piratas

    e mistérios nas paredes dos museus

    formam algumas curvas douradas na tarde amarela

    se mudam de lugar

    iniciam um percurso inédito

    em alguma biblioteca poeirenta ou numa antologia

    apresentam-se de repente nos jardins e praças

    e anunciam-se ao cruzar uma avenida

    aparecem às vezes

    entre as silhuetas de alguma lembrança alheia

    e pintam o rosto com cores de guerra

    deslocam-se como densas nuvens -

    as palavras de Drummond ou Quintana podem viajar de jato

    encadernar-se

    ou imprimir-se em papéis transparentes

    apenas mudando-se de lugar os capítulos

    mudando-se sempre de lugar

    – os poemas -

    e começam a  embaralhar tudo outra vez.

     

    January 02

    SOBRE ALGUNS OLHARES INÚTEIS...

     

    “E de ontem para hoje já aconteceram tantas coisas importantes.

    Coisas miúdas e coisas grandes. Coisas preciosas e outras nem tanto.

    E eu ainda sou capaz de enumerar os cinco dias mais felizes da minha vida na semana passada!

    Eu sou assim, fútil e atento. Capaz de gestos nobres e vis.

    Guardo tudo dentro de mim para sempre.

    Datas, gestos faciais, melodias, apertos de mãos e abraços, pores-do-sol,

    e às vezes quase enlouqueço ao perceber que tudo existe,

    essas coisas todas.

    E não me canso de perguntar por quê.”

    http://www.diariodeummago.blogger.com.br

     

     
     
    E  PRA ONDE VAI O OLHAR?
     
    Tenho que ver tv pra alcançar você e olhar na tela do computador na internet
    na locadora na rua no farol na estrada na casa de campo dentro do campo de visão
    onde eu possa ver todas as coisas dos telhados de vidro onde não se jogam pedras e cacos de gente
    que passam despercebidos de todo jeito os olhos dos outros são outros e não são os seus
    e eu penso em tudo e tudo acaba num ponto - ponto e virgula ponto de ônibus ponto final
    em tudo eu penso e no fim de tudo só olho e quero e só penso mesmo em você!
     
    ...e enfim depois de tudo olhado, para quê serve o computador e a tv?
     

    SOBRE O DIA UM DE UM DE 2008...

     
    “Musica velha e jornal novo não combinam.
    Acreditamos em regras, limites e costumes,
    e quando algo bom acontece nos desviamos.
    Por fé, obediência ou medo. 
    Nos  importamos mais com o meio do que com a mensagem.
    Algo bom aconteceu essa noite.
    Nem quem me fez sabe o quanto.
    E eu me peço calma. E a ansiedade se vai.
    Com calma, mas se vai.”
    FERREIRA. Cristiano /2007
     
     
     
    DEMAIS
     
    Eu sinto demais
    eu falo demais
    eu peço de menos
    e as coisas são assim meu rapaz
    tem algumas coisas
    que são
    outras que não
    tem algumas coisas que sim
    outras
    enfim
    como as sombras todas no chão
    e a luz sem saber onde ir
    o que pensam as coisas na cabeça das pessoas
    não sei não
    eu sei que o que tudo a mais que sinto
    meu rapaz
    vem de tudo aquilo que eu vim
    de onde eu vim
    de onde veio
    sei que sempre tem mais
    de onde tudo todo outros meios de dentro
    de silêncios
    (inclusive os seus)
    e eu leio
    e eu vejo
    e eu sinto
    e eu falo
    continuo
    sempre capaz
    de onde me vejo
    de onde estou agora
    de onde tudo o que faço
    só sei sentir
    demais
    meu lindo
    rapaz