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October 28 SOBRE O TEMPO AGORA JÁ..."O que dói na cabeça
é essa porta dos fundos
incandescente
indicando
a saída."
Julio Carvalho
![]() IMEDIATAMENTES
Tenho semelhança
aos vadios quando
nas ausências entre os
pequenos
sustos
acompanhando
as formigas dos dias
acaba
a visão
no limite
dos horizontes distantes
e o sono
desvendando a palidez
de sonhos sem dono.
sejam bem vindos
os acasos
o quase...
livre adaptação de http://incrise.blogspot.com
October 21 SOBRE VERDADES E MALDADES..."A verdade é também sua busca: Como a felicidade, e não prevalecerá. Mesmo o verso começa a erodir
No ácido. Busca, busca; Vento move brando,
Em redemoinhos, muito frio. Que devemos dizer?
Em fala comum - Ora precisamos falar. Não estou mais seguro das palavras,
A mola do mundo. O que é inexplicável, A "preponderância dos objetos". O céu esplende
Diariamente com essa predominância E nos tornamos o presente.
Ora precisamos falar. Medo
É medo. Mas nos abandonamos um ao outro." Leviatã - Poema de George Oppen
Tradução de Ruy Vasconcelos ![]() INTERMEZZO CELESTIAL
até
os anjos
estão
perplexos
não se encontram
almas boas
almas livres
de detalhes
sórdidos
capazes de sustentar
auréolas
e sem apelarem
para as boas razões
eternas
do perdão
dos pecados
capitais
ou originais
bondades sejam ditas
e refeitas
em orações diárias:
as almas boas
estão ficando
cada vez mais
ordinárias.
October 20 SOBRE EXTRATOS VERDADEIROS..."bate na porta antes de sair do quarto
(falsa) licença ao mundo para contrariá-lo" (eu ando inFernando Pessoas...)
![]() EXTRATOS
Esqueça os nomes:
gosto mais quando já não é possível ouvi-los.
Estude os nós
Tudo é desatável Pois o tempo, ao dar de cara com a memória,
reconhece a fragilidade
dos seus direitos. Quando a gente faz o que gosta
nada dói
não dói nada
nem separação
nem coisa nenhuma
pesada
ou não.
Exemplo:
(os vagalumes estrelas
na luz azul luzindo
que eu vi hoje
caindo
da linha
escura
do céu)
SOBRE DESLOCAMENTOS..."a palavra em ângulo agudo
risco no ar adaga a descer sobre o homem ferida à flor dos olhos. voz letra música a palavra inevitável" Silvia Chueire
![]() MEIO SILÊNCIO
Aqui não faço nada
Aqui não tem olho
nem visão
nem televisão direito
eu vejo
mas me distraio com poesia:
eu olho as montanhas daqui
e vejo palavras
grudadas nelas
Eu vejo
que à noite nas estrelas
do céu caem rimas
e no dia as meninas
falam em coro
como se fosse
alguma música de festa
Eu vejo
nas ruas as pedras
organizando
as letras do dia seguinte
e os homens passando
poéticos
por cima de suas respostas
óbvias
Eu vejo
que as casas olham
pelas janelas
as estrofes colocadas
nelas
E eu vejo
em cada rosto
em cada muro
cada gosto que diz um pouco
da cidade mínima
sobre a poesia anterior
interior e simples
das coisas
daqui
de Cambuí.
(e eu sou só mais uma observação...)
October 17 SOBRE AS FONTES PRESENTES..."Tengo puñados de ojos en la
frente Cadenas de narices en la cara Cardúmenes de bocas Centenares de orejas Millones de pelos. No vengo de la unión de dos cuerpos Procedo de muchos y voy hacia ellos. Soy grande, pequeño, alto, bajo, Gordo, flaco, cobrizo, negro, blanco. Somos uno solo sin nombre y sin rostro. Aquí me llamo Julio." Gonzalo Millán (1947-2006) - Adaptação
NASCENTE
Quando a caneta vira sonda - explora
risca até no chão,
interrogando
confusa, procurando,
respostas no chão duro
estática, insuspeita, simétrica e seca
caneta
vira tudo de cabeça para baixo o ponto de interrogação, agora anzol
deixa dúvidas nas exclamações
poções de linhas
textos descobertos
desobedientes
buscando algo em tinta alguma pois desconfia que há outra vida embaixo da casca da superfície limpa e lisa
da poesia.
Apostando na existência, da pedra submersa e da poética do pensamento
e ao imaginá-la, a alimenta - lá dentro aqui fora, texto é uma espécie de outro pensamento claro e existente: a poesia é uma realidade
presente.
October 16 SOBRE BASES E REALIDADES..."Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias,
entre as vagas e as pedras,
entre o sonho e a verdade,
entre..."
Jorge de Lima
![]() TEM VIDA
TEM COISA TEM CAUSA TEM PESTADE
A Música Menor e os Restos de Realidade ou
Os Apavoramentos e Outras Realidades Vis...
I
Estar aqui
é estar a um passo
o tempo todo
da realidade
é quase como
concretizar
problematizar
polemizar
criar quadros
com tintas outras
e cheiros com olhos mesmos
outros olhos
o nariz?
como os outros incômodos
esse sai mesmo pela boca do homem
com um quase gosto de pó
um grão de poeira
uma pedra no sapato
um calo
um osso
exposto
a realidade exposta
osso a osso
incomoda
claro:
"alta agonia é ser,
difícil prova."
E todo dia prepara-se
a meta
morfose
agarro-me
aos casulos de pensamentos
e silêncios...
II
Este poema é todo visto de fora
e penso tanto
quanto as coisas que me perguntam
são pedras
e pedras
não rogo e nem jogo as verdades
de volta na cara
o mundo é cheio de palavras pesadas
e a leveza passou longe
das pedras
Hoje
a leveza e o silêncio
são mercadológicamente
apuradas
tratadas como pecado
assim como
outras antigas palavras
ditas com
sentimento
Então penso tanto
e fico
entre o sol e o calor das rochas
transumanei-me:
me pus a quebrar pedras
vi os sentimentos todos
no chão - decomposição
e por isso o meu andar
se fez ligeiro
e desde então
entre o chão e as asas
me defendo.
October 15 SOBRE IMAGENS & PALAVRAS..."Escrever é renunciar - eu não sei renunciar.
Gide disse que o diabo dessa vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros 99. Pois bem: a literatura é como se você tivesse que renunciar a todos os outros cem..." O Encontro Marcado - Fernando Sabino ![]() “Dono do mundo em mim como de terras que não posso trazer comigo.”
Fernando Pessoa
“...E cada terceiro pensamento passa a ser sobre a nossa sepultura.”
Prospero – A Tempestade – Shakespeare
IN MEMORIAN
Acabo de perceber que a vida não tem um fim
Pelo menos o fim que todos pregam
e também não penso em ser imortal
Letrado ou não
Enterrado ou não
Esquecido ou não
O relógio marca as horas e desmarca a memória
Cada dia mais um tempo e mais esquecimento
Trago em mim as coisas esquecidas de antes
e depois
Mas existem compensações
Riscos em paredes
Fotos antigas amareladas
Memórias dos outros
Geralmente a memória dos outros
não é a melhor forma da gente ser lembrado
A memória dos outros é cruel
Só se lembram das estripulias, artimanhas e maldades da infância
e das falcatruas da idade adulta
Não se lembram das coisas boas
Cheiro de fogão à lenha
Cheiro de terra molhada
Cheiro de bolinho de chuva
Gosto de bolo quente recém saído do forno...
Lembranças que são da gente e não dos outros
As lembranças dos outros não são eternas
As nossas lembranças sempre estão próximas
e basta uma coisa qualquer para reacendê-las:
o mesmo cheiro, a mesma cor, a mesma história...
A memória não morre
fica por aí
alimentando os sonhos, se espalhando
e continuando a proclamar a independência
do corpo
mesmo quando este está
separado
da alma...
October 07 SOBRE OS MAUS RUMORES E HUMORES..."Tenho medo de sair nas ruas, além do pavor de ficar em casa sozinho."
"Falso elogio: Querida você ficou linda com esses dez novos quilos!"
"O prazer eu conheci tarde quando me foderam no trabalho."
"Observações femininas: Gays...sempre roubando nossos namorados..."
"Hoje vou me fingir de pessoa sincera na internet."
" Se alguém lhe pedir socorro é hora de começar a correr."
"Posso até tentar mudar o mundo, mas eu quero ganhar bem por isso."
"Devo votar nos novos bandidos ou nos antigos ladrões?"
" - Ajudaria um mendigo?
- Em chamas, talvez..."
"Amo esses remédios que me fazem amar melhor."
![]() POISON Toda janela tem um veneno inexplicável Toda janela tem alguma coisa inexplicável Uma coisa “sair fora de si” Uma coisa solta, certa Que liberta As trancas das janelas são frias As ruas e os dias A liberdade vaza por elas A liberdade é pelas janelas As liberdades Fazem o plural Das janelas. October 04 SOBRE AS PORTAS E JANELAS..."O lobo-guará é manso
foge de qualquer ameaça é solitário avesso ao dia, tímido detesta as cidades para fugir do ataque cada vez mais inevitável dos cachorros atravessa estradas onde quase sempre é atropelado onívoro, com mandíbulas fracas come pássaros, ratos, ovos, frutas às vezes, quando está perdido, vasculha latas de lixo nas ruas engasga ao mastigar garrafas de plástico ou isopores se corta e ou morre ao morder lâmpadas fluorescentes ou engolir fios elétricos morre ao lamber inseticidas ou restos de tinta ou ao engolir remédios vencidos ou seringas e agulhas descartáveis dócil, sem astúcia, é facilmente capturado e morto por traficantes de pele quando então uiva." Extinção - Régis Bonvicino ...resta saber quem é o lobo o bobo do homem...
![]() ABERTURAS
Eu gosto do viéis das coisas
Eu gosto dos avessos, dos acessos
Eu gosto das janelas e seus venenos libertários
Eu gosto de ler
de me refestelar em livros muitos
e páginas e páginas de palavras viradas a dedo
e tem gente que lê, lê, lê
aprende com o vento
não vê nada
não entende
não engole
não se promove deglutidamente
letra
viva
(olhem o que está em extinção)
só quero que me deixem sozinho
eu e a minha lingua
vocês pensam que é fácil ser eu
e carregar comigo eu, eu e eu mesmo?
todas as minhas dores, doenças, entradas, saídas, idas e voltas e vindas
algumas que nem foram?
pessoas que não ficaram?
ter que guardar as alegrias feito papel delicado
e as tristezas como esquecimento?
não é fácil
não é fácil ter que ver, escutar, perceber as pessoas
longe - que não perto
e as perto - que não longe
difícil combiná-las - difícil pacto
difícil união
livre
eu vivo
uma quase impossível vida
uma quase possível perda
um quase tudo sempre perdido
estando perto ou não
eu vivo
quem vivo?
alguém tem alguma janela
aberta?
e é por elas
que sobrevivo. |
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