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    October 31

    SOBRE OS DOIS LADOS DA MESMA MOEDA...

     

    O LIVROCORPO

    O PRIMEIRO LIVRO (escrito no corpo de Jerome)

    no filme "THE PILLOW BOOK"

    A AGENDA

    Pescoço

    Eu quero descrever o Corpo como um Livro
    Um Livro como um Corpo
    E este Corpo e este Livro
    Será o primeiro Volume
    De Treze Volumes.

    Caixa Torácica

    A primeira grandeza do livro está no torso
    Sede dos pulmões
    Que sopra o vento que seca a tinta.
    Sede do coração
    Que bomba a tinta
    Que é sempre vermelha
    Antes que seja negra
    O coração e dois pulmões são mantidos retos
    Perto, mas não se delimitando
    Protegidos pela cobertura da caixa torácica,
    Cobertos por enegrecidos títulos de papel como marca d’água
    O sopro da inspiração corre entre eles
    Desenhados do ar por sua influência conjunta.


    Nuca ao Cóccix

    Nenhuma função do livrocorpo é singular
    Se um serviço múltiplo puder ser realizado.
    Assim o ar da inspiração
    Divide a mesma passagem
    Com sais, palavras,
    Sentenças, adoçantes, parágrafos
    Todos desmoronam em agitação nas páginas ruminantes,
    Para jazer em fileiras seriadas como hastes de arroz
    Num campo, ou os pontos da costura num tatami,
    Pacientemente aguardando irrigação
    Por água ou visão
    Mesmo que em mil anos não surja um leitor.

    Barriga

    A segunda grandeza do livro está na barriga,
    Fábrica para a mistura dos materiais,
    Um laboratório de seleção e fiação,
    Retendo e relembrando,
    Uma editora em fluxo contínuo,
    Estampada com o corte denteado do umbigo,
    Raramente ocioso, nunca parado,
    Dividindo o espaço com preparações
    Para o futuro com a ironia da economia.
    Futuro e passado partilhando a mesma rodovia.
    Livrocorpo sempre mostrando, na sua história, evoluções.

    Pênis e Escroto

    Eu sou a muito necessária
    Coda.
    O pedaço-rabo,
    O sempre reprodutor
    Epílogo.
    O derradeiro parágrafo pendente
    Esta é a razão
    Para que o próximo livro
    Brote.

     

     

    INTRO
    ódio com gelo?
    prefiro o ódio puro
    o gelo engana
    esfria
    esconde
    o gelo é uma intenção que não aparece
    em nada
    e em nada ajuda
    o ódio
    acabar

     

     

    A MORDIDA

     

    Ódio que nada!

    o que não odeio

    o que não vejo

    o que não sei

    o que não posso

    ou possuo o ódio que não tenho

    e não devo estar assim por tanto tempo

    nesse descuidado todo sem querer

    só por odiar e não poder

    e nem saber o porquê do odiar

    de fato tenho

    um ódio puro sem mais nem porquê

    sem saber até de onde

    e porquê veio

    ou quando se vai

    esvai

    pelo ralo do peito

    e me queimo

    ardo feito fogo

    fogo igual ao da paixão

     

    Será que tanto ódio assim que me queima

    não é o mesmo da paixão

    que me falta

    agora?

    Será?

    Não?

     
     
    October 30

    SOBRE PESSOAS E COMERCIAIS...

     

    "PESSOAS DIFÍCEIS NÃO SÃO FÁCEIS
    PESSOAS DIFÍCEIS SÃO MÍSSEIS
    PESSOAS DIFÍCEIS SÃO KAMIKAZES
    PESSOAS DIFÍCEIS SÃO VORAZES
    MORDAZES
    SÃO ASES DA AVIAÇÃO
    DÃO ASAS À IMAGINAÇÃO
    DECOLAM, DEGRINGOLAM A SITUAÇÃO

    PESSOAS DIFÍCEIS NÃO SÃO FÁCEIS
    PESSOAS DIFÍCEIS SÃO FRÁGEIS
    SÃO ÁGEIS, VULNERÁVEIS
    SÃO DÉFICITS, SÃO SUPERÁVITS
    SUPERÁVIDAS
    MAS INSUPERÁVEIS
    AINDA QUE INSUPORTÁVEIS.

    EU SOU UMA PESSOA DIFÍCIL
    MAS O QUE FAZER
    SE É ESSE O MEU OFÍCIO?
    EU VIM PRA CONFUNDIR
    BAGUNÇAR O SEU HOSPÍCIO.

    TOBIAS OR NOT TOBIAS
    EIS A QUESTÃO
    ATÉ A PRÓXIMA INTERNAÇÃO

    FOBIAS OR NOT FOBIAS
    EIS A QUESTÃO
    ATÉ A PRÓXIMA OPERAÇÃO

    FOLIAS OR NOT FOLIAS
    EIS A RAZÃO
    ATÉ A PRÓXIMA ENCARNAÇÃO
    ATÉ A PRÓXIMA ENCANAÇÃO
    ATÉ A PRÓXIMA ENGANAÇÃO
    ATÉ A PRÓXIMA APROXIMAÇÃO

    SO LONG, FAREWELL,
    ALFWIDERZEHN, GOODBYE...".

    PESSOAS DIFÍCEIS - (Mathilda Kóvak)

     

     

                                                                            in http://edutell.nafoto.net/index.html

     

    TRAGICOMÍDIA

     

    Agora o trágico

    sai na mídia

    sai em tudo

    vira cada absurdo

    que ninguém merece saber mais

    O que traz isso tudo é que desgraça agora

    passa na tv

    no vídeo

    na internet

    onde se lê...

    Agora o ruim é de graça

    é free

    é livre

    e nunca mais vi

    coisa boa

    ser falada

    ser dita

    anunciada

    como tantas coisas são

    como refrigerantes e carros caros tão

    falados são

    e a todo instante

    alguma coisa nova aparece

    e é outra desgraça

    de novo

    que aponta

    ali

    na esquina...

     

     

    Será que deus não vê

    o que acontece

    pela tv?

     
    October 20

    SOBRE FICAR ZEN SABER DE DEUS...


    "Eu falo
    tu ouves
    ele cala.
    Eu procuro
    tu indagas
    ele esconde.

    Eu planto
    tu adubas
    ele colhe.

    Eu ajunto
    tu conservas
    ele rouba.

    Eu defendo
    tu combates
    ele entrega.

    Eu canto
    tu calas
    ele vaia.

    Eu escrevo
    tu me lês
    ele apaga."
    Conjugação - Affonso Romano de Sant'Anna

     

     

     

    "eu acho que Deus é isso...

    as coisas boas

    as coisas ruins

    a intuição

    o afeto

    o D (EU) S é assim que eu vejo"

    Alex Olobardi

     

    October 18

    SOBRE POESIA E AS COISAS DE TODO DIA...

     

    "Por você eu viro o dia.

    Transformo o vulgar em poesia"

    julio carvalho

     
     

    DIÁRIO DAS COISAS

     

    Não deixe que as coisas

    fiquem tão perdidas assim

    todos os dias

    as coisas nem sempre

    estão afim

    de acontecer.

     

    O que as coisas têm em comum

    é de só aparecer

    quando querem

    ser.

     

    Alguma coisa

    das coisas

    acontece de vez em quando

    num de repente

    de coisas breves

    e surpresas leves

    demais.

     

    O que acontece entre tantas coisas

    ultimamente

    em alguns dias

    é a alegria

    de ver você

    entre as coisas de sempre

    acontecer que

    num outro repente

    poder ver você

    diariamente.

     
     

    SOBREVÔOS E DESCOMPLICAÇÕES...

     

    "Todos somos chances para o voar novamente.

    Basta que queiramos sentir o peso de abrir os braços e o alívio de fechá-los digno."

    luis eduardo de melo

     
     
    PURO E SEM GELO
     
    Não complique
    não me explique
    o porquê do big bang
    o nascer do sol
    da meia noite
    a vida já está
    tão atrapalhada
    não me venha com palhaçada
    de novo
    não tente enrolar
    o mundo não vai
    por você parar
    ou separar
    as verdades das mentiras
    não complique
    não apresse a confusão
    o que preciso agora
    é arrumar a zona
    que está meu coração
     
    eu sei que não ensino
    não digo nada
    e meu silêncio apaga
    qualquer vestígio de
    lucidez
    que explico
     
    mas não é por nada
    é só para não ter explicação
    ficar tudo só no sentimento
    mesmo
    que não tenha tudo
    uma solução
     
    não preciso de palavras
    é tudo puro e sem gelo
    sentimento e só isso basta
    não se irrite
    deixe tudo como está
    não explique
    a vida por si só
    se descomplicará
     
    October 17

    SOBRE AS PESSOAS RUINS E OS MOMENTOS BONS...

     

    “Não tenho certeza sobre a inteira exatidão dessa primeira lembrança,

    porque outras competem com ela, algumas somente táteis, algumas olfativas,

    outras não propriamente representáveis e, por conseguinte,

    intransmissíveis e irreproduzíveis, a não ser dentro de mim mesmo,

    porque jamais se detêm para que eu possa esboçar uma descrição mais clara.

    Só sei que estão aqui, em algum lugar da minha mente, num arquivo difícil de ser consultado.”

    DIÁRIO DO FAROL
    João Ubaldo Ribeiro

    Diário do Farol é um livro escrito por João Ubaldo Ribeiro lançado em 2002, cujo eu-lírico é um sociopata.

    O livro também mostra como pessoas deste tipo ascendem facilmente na sociedade.

     

    O Sociopata é o indivíduo que despreza as leis, vivendo suas próprias regras.

    O Sociopata despreza a sociedade, e a vê como estúpida e desprezível.

    Para ele, só existe o lado negativo da sociedade.

     

    No livro o leitor é advertido desde a epígrafe: »Não se deve confiar em ninguém«.

    A vida real é feita de rupturas, exceto para aquela maioria dos homens

    que perde a oportunidade de viver de fato por nunca romper

    com nada realmente importante, adverte-se.

     

    Aspectos essenciais:

    . Insensibilidade aos sentimentos alheios.

    . Atitude aberta de desrespeito por normas, regras e obrigações sociais de forma persistente.

    . Estabelecimento de novos relacionamentos com facilidade, e dificuldade de mantê-los.

    . Baixa tolerância à frustração, com rompantes de agressividade e violência.

    . Incapacidade de assumir culpa, ou de aprender com punições.

     

    DAS VONTADES DE TER

     

    Eu quero outro beijo teu

    e que teu sexo me permita ter mais que só um tipo de prazer

    eu quero outro dia teu

    e que as horas parem de andar desse jeito tão rápido

    a ponto de você ter que ir embora tão cedo

     

    Eu quero outro gozo teu

    outro espaço teu

    outro modo

    outro tempo

    outro outra vez teu

     

    Eu quero saber onde

    meu corpo

    se perdeu

    no teu

     

     

    SOBRE A SAUDADE E SUAS EMENDAS...

     
    "Soledad,
    aqui estan mis credenciales,
    vengo llamando a tu puerta
    desde hace un tiempo,
    creo que pasaremos juntos temporales,
    propongo que tu y yo nos vayamos conociendo.
     
    Aquí estoy,
    te traigo mis cicatrices,
    palabras sobre papel pentagramado,
    no te fijes mucho en lo que dicen,
    me encontrarás
    en cada cosa que he callado.
     
    Ya pasó
    ya he dejado que se empañe
    la ilusión de que vivir es indoloro.
    Que raro que seas tú
    quien me acompañe, soledad,
    a mi, que nunca supe bien
    cómo estar solo."
    Soledad - (Jorge Drexler) - Sepúlveda, 01/04/06
     
                                                                                    Arnaldo Antunes
     
    EMENDA
     
    eu penso
    faço
    traço
    o laço
    tento certo
    meio passo
    meio faço
    o traço certo
    penso
    o que não senti
    no próximo passo
    tento
     
    October 16

    SOBRE O AÇO, O OSSO E A PALAVRA...

     

    "Uma mosca cabe na poesia, a democracia cabe na poesia.

    A questão não é o que você diz, mas como você diz. […]

    O que cabe na poesia é a linguagem que sabe de si."
    Arnaldo Antunes, em entrevista a Mario Cesar Carvalho (Folha de S. Paulo, 15/06/1990)

     
                                                                                                                                                          Arnaldo Antunes
     

    OUÇO/AÇO/OSSO

     

    Me ouço

    até no osso

    no osso da palavra

    sentada

    de pernas cruzadas

    a palavra no ar

    aguarda

    no aço

    no osso

     

    A palavra espera

    desespera pela próxima frase

    a próxima fase do texto

    escrito

    lido

    ouvido

    rugido

    gritado

    falado

    calado

    em qualquer lugar acontecido

    a palavra só faz sentido

    quando

    descruza

    as pernas

    e anda por aí

    aos textos

    aos trancos

    aos berros

    e barrancos

     

    SOBRE PALAVRAS CERTAS E ERRADAS....

      (não posso deixar escapar meu pensamento)

    thula kawasaki disse que
    a menina conhecia melhor que ninguém

    tudo aquilo que não existia

    ... eu sou filha da palavra
    eu nasci de uma idéia ...

    (não posso deixar escapar meu coração)

    eu me deparo com o vazio
    eu firmo o passo, respiro o abismo

    corro, disparo no vazio
    respiro o passo, eu firmo o abismo

    eu fecho os olhos no vazio
    eu sopro vozes nos vazios
    projeto o corpo no vazio
    eu firmo o passo, respiro o abismo
    eu firmo o passo, respiro o abismo

    faísco olhares nos vazios
    eu viro o passo, respiro acima

    caminho sobre os edifícios
    espalho folhas nos meninos
    recolho mitos modos femininos
    eu firmo o passo, respiro o abismo
    eu firmo o passo, respiro o abismo

    ... eu sou filha da palavra
    eu nasci de uma idéia ...

    suspiro vozes no caminho (sussurro frases no vazio)
    meu medo escapa por um fio
    eu dou de cara com o abismo
    e sobrevôo o precipício

    filha da palavra
    letra  sandra ximenez (inspirada em obra lítero-visual da artista thula kawasaki)
    música  sandra ximenez e felipe Julián

     
     
    ERRATA
     
    pro povo vê
    pro povo tê
    pro povo tê que sabê
    que o que não se sabe o que é tê podê
    que tem que sabê
    di mim e de ocê
    o que ocê vê
    o que ocê vê
    o que ocê vê
    não tem ninguém
    que precisa
    sabê
     

    SOBRE APRENDIZAGEM E OUTRAS COISAS DE DENTRO...

     
    "Pouco tenho aprendido
    permaneço vigiando
    e estudando a rota dos barcos
    passa o tempo
    me crescem as cicatrizes
    vivo só e é curioso
    o sol nasce
    e se põe
    e eu nada entendo."
    Javier Salinas
     
     
    AS OUTRAS
                   (COISAS)
     
    "Poco he aprendido, permanezco de vigía y
    estudio las rutas de los barcos,
    pasa el tiempo,
    me cruje a cicatrices.
    Vivo solo y es curioso, el sol nace
    y se pone, nada entiendo."
    Javier Salinas
     
    Eu tenho outra historia
    Eu tenho outra memória
    Eu tenho
    eu tenho
    eu tenho sim
    respostas
    é
    estranhas
    sim
     
    Eu estou aqui
    pra ver
    O que não vi
    O que não tive
    O que não pude
    O que não devo
    O que não
    tem
    razão de ser
     
    Tudo para experimentar
    o óbvio
    o ócio
    o cio
    um rio de coisas
    por dentro
    sem nenhum
    cabimento
     
    O mais perto possível de mim
    é agora
    é quando eu tenho outra coisa
    estranha
    dentro
    de
    mim.
     

    SOBRE DIÁLOGOS E SENTIMENTOS...

     
    "Meus olhos são seus olhos quando você chora...
    Aprendi pelo seu olhar a saber onde se escondem suas lágrimas."
    Julio Carvalho

     

    DIÁLOGOS

    I
    Deveríamos tentar esquecer o que foi ruim
    ou processar os poucos momentos de nossas vidas
    que foram bons e não as merdas que passamos?

    II
    Devemos fingir e não lembrar do que foi ruim?
    Do que foi dolorido?
    Da perda?
    Da dor?
    Da mágoa?
    Do desamor?

    III
    "O tempo muda tudo "
    É o que as pessoas dizem
    mas para algumas não é verdade.
    Fazer coisas é o que muda algo.
    Não fazer nada deixa as coisas do mesmo jeito que eram

    IV
    Essas coisas acontecem
    Sempre acontecem com alguém
    Porque alguém se importa com o que aconteceu comigo?
    As pessoas não estão nesse quarto
    Não...
    Elas estão por aí.
    São médicos, advogados, entregadores
    Alguns fazendo coisas grandes, outros fazendo porcarias
    Devo basear a minha vida toda em quem está no quarto comigo?
    Eu vou basear esse momento em quem está preso comigo no quarto.
    A vida é isso.
    Uma série de quartos.
    E quem fica preso conosco nesses quartos
    depende do que as nossas vidas são.

    October 14

    SOBRE DORMIR, ACORDAR E O MEIO DOS SONHOS...

     
    "É cada vez mais difícil presentear. Onde ainda sobra algum espaço?
    Ah, que desgraça, não saber o que mais desejar. Tudo foi realizado.
    O que falta dizemos, é a carência, como se a quiséssemos transformar em desejo nosso.
    E continuamos presenteando sem piedade.
    Ninguém sabe o que quando de quem lhe demonstra afeto."
    A RATAZANA - Gunter Grass
     
     

    DIA LENTO

     

    Um quase sono agora

    meio que toma o corpo

    e demora a cair

    no sonho

    o desejo só é sono

    só é sonho quando se dorme

    onde só assim

    qualquer desejo

    pode se realizar

    no sono

    tudo pode

    além do que

    dormir

    faz o corpo

    realizar

    a vontade

    do descanso

    e nos olhos fechados

    o preparo dos sonhos

    trazendo a verdade

    inconsciente

    e o desejo

    fazendo

    clarear. 

     

    October 11

    SOBRE TODAS AS OUTRAS PESSOAS E EU...

     
    "A pessoa certa atravessa a rua com seu terno branco,
    gravata de seda italiana.
    A pessoa certa, executiva de si mesma,
    atravessa a praça com sapatos pretos, meias de náilon norte-americanas.
    A pessoa certa entra no prédio, recolhe dinheiro,
    coloca na pasta, pega o elevador.
    A pessoa certa atravessa o hall e chega à porta giratória.
    A pessoa certa põe o pé na calçada
    e cai fulminada sem saber por quê."
    A Pessoa Certa -
    Álvaro Alves de Faria
     
     
    OUTRA PESSOA
    (Adaptado)
     
    A pessoa certa atravessa a rua
    não olha para os lados, não nota, não vê...
     
    A pessoa certa, executiva de si mesma, atravessa a rua
    com pressa nos seus passos presos e acelerados.
     
    A pessoa certa entra no prédio, entra no elevador,
    aperta um botão, vai e volta até algum andar.

    A pessoa certa atravessa o hall
    e chega à porta giratória procurando a saída.

    A pessoa certa põe o pé na calçada
    e passa direto por mim sem mesmo saber por quê quem sou eu...
     
     

    SOBRE AS PAREDES E OUTRAS CONSTRUÇÕES DIFERENTES...


    "Se falhar a construção
    aproveito-me da linguagem:
    minto."
    Adriana Lustosa
     
     
    HOUTRO
     
    não quero as coisas que já passaram
    quero as coisas que estão por vir
    como outro
    todo outro é novo
    outro amor
    outro dia
    outro jeito
    outro medo
    tudo outro diferente
    é o que não se repete
    não fica preso
    na garganta
    da gente

    SOBRE AS MULHERES E AS FRUTAS MADURAS DA LÍNGUA...

     
    "Cada um tem o seu passado fechado em si,
    tal como um livro que se conhece de cor,
    livro de que os amigos apenas levam o título."
    Virginia Woolf
     
     
     
    um dia um
                                     outro dia zum
                  e o dia dura
                                                  mais que fruta madura
             e eu na árvore
                                  olhando tudo
    me segurando
                      firme
                            pra não cair
     
     
    October 08

    SOBRE O AMOR E OUTROS CACOS...

     

    Si hubiéramos sabido que el amor era eso
    F. Umbral

    si hubiéramos sabido que el amor era eso
    con instrucciones claras, con gráficos y esquicios
    con precaución y tiento se nos hubiera ido
    de las manos igual sin mucho estruendo

    como se van los dientes de leche de la boca
    como lleva la hormiga el pan al hormiguero
    sin darnos casi cuenta sin pasar casi el tiempo
    como nace una flor, por ejemplo, una rosa

    si hubiéramos sabido que el amor era eso
    no sería preciso mirando atrás usar
    el tiempo subjuntivo del arrepentimiento

    que es además pretérito y muy triste además
    si hubiéramos sabido o si hubiéramos hecho
    si hubiéramos si hubiésemos si habríamos

    Gonzalo Escarpa

    (de Voltereta, obra inédita)


     

     
    SOB OS PÉS
    ou "o que temer"
     
    perigo é pisar sem querer
    em caco de vidro
    sem saber onde andar
     
    perigo é
    fechar os olhos
    e não ter o que sonhar
     
    perigo é não ter calma
    é correr demais
    sem parar
     
    perigo é andar descalço
    e sem olhar
     
    perigo
    é não deixar
    a vida
    passar
     
    e dói menos que um corte
    de caco
    de vidro
    no pé
     
     

    SOBRE COLOCAR TUDO NO PRETO E NO BRANCO...

     
    "Não te dei nada que seja impuro
    No futuro também vai ser assim
    Se hoje amanheceu um dia escuro
    É porque capturei o sol pra mim'
    Moska
     
    POEMA EM P&B UM
     
     
    POEMA EM P&B DOIS
     
                                               fotos feitas na PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO
     
    October 05

    SOBRE DETER AS PALAVRAS E OS OLHARES...

      
    "Detener la palabra
    un segundo antes del labio,
    un segundo antes de la voracidad compartida,
    un segundo antes del corazón del otro,
    para que haya por lo menos un pájaro
    que puede prescindir de todo nido.

    El destino es de aire.
    Las brújulas señalan uno solo de sus hilos,
    pero la ausencia necesita otros
    para que las cosas sean
    su destino de aire.

    La palabra es el único pájaro
    que puede ser igual a su ausencia."
     
    DETENER LA PALABRA... - Roberto Juarroz 1925 - 1995 Poeta argentino.
    Ensaista, tradutor e crítico literário.
    Fez parte da Academia Argentina de Letras.

     

    VISIONS

    por estas janelas todas

    estarei em cada uma delas
    em cada quarto
    em cada compartimento
    em cada rosto
     
    eu olho todos
    os olhos
    de janelas
    bem
    abertas
     

    October 03

    SOBRE O SUTIL E O VIOLENTO...

     
    "A experiência me ensinou que, quando uma situação se torna confusa e incompreensível
    ao ponto de ter algo de sinistro, não se deve ir logo jogando a culpa no diabo antes de averiguar
    se não houve alguma mentira humana na origem da mixórdia toda.
    Como é da natureza da mentira ocultar-se a si própria, depois ocultar a ocultação e por fim apagar da memória
    todos os rastros da sua origem, não existe mentira isolada: há uma progressão geométrica de falsificações
    e aquilo que parecia uma toca de coelho acaba por se tornar uma cratera imensa, um abismo insondável.
    Não que o diabo não tenha participação nenhuma na coisa, mas às vezes todo o seu trabalho consiste em inspirar a mentirinha inicial, deixando o resto da arquitetura abissal por conta da estupidez humana."

    Olavo de Carvalho
     
    SUTIL VIOLENTO UM
     
     
    SUTIL VIOLENTO DOIS

    SUTIL VIOLENTO TRÊS

      

    October 01

    SOBRE QUALQUER POSSÍVEL AMOR...

     

    "não tá fácil dividir sentimento

    tá fácil dividir o corpo "

    Alguém citado por Gabriel Souza Rodrigues

     

     

    SORTE

     

    De repente quando pedra

    quando peso as coisas mudas

    e as palavras que não saem da linha da voz

    De repente quando tudo pára

    e as faltas e os corpos vêem ausência em tudo

    De repente quando os olhos

    fecham perspectivas

    e nenhuma lente enxerga mais nada

    De repente eu espero

    encontrar do outro lado de fora de mim

    outra coisa

    não mais tão dolorida

    não mais tão sofrida

     

    Espero encontrar

    De repente

    você.