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    October 30

    SOBRE TODO ASSUNTO IGNORADO...

     

    "Quando estou longe
    Quero ficar perto
    Quando estou perto
    Quero ficar dentro
    Quando estou dentro
    Quero ficar mudo
    Quando estou mudo
    Quero dizer tudo"

    Itamar Assumpção

     

     

     

    DESCASO

     

    Não tenho nada com isso

    Não tenho nada com o osso

    daquele cachorro

    Não tenho nada com o outro

    Se o outro é insosso e não me diz nada

    é morto 

     

    Não visto roupa rasgada

    Nem tenho a cara lavada

    E nem uso barba, bigode, nem nada...

     

    Esfrego na cara dos outros o osso, o isso e o morto

    feito de palavra que não me faz falta

    E roupa usada

    E cara limpa

    (Muito obrigado)

    Eu tenho em casa.

     

    October 29

    SOBRE SEXO E LITERATURA...

     

    "Aos meus futuros editores:

     

    Eu escrevo em samba.

    Minhas linhas não coincidem com as alemãs.

    Minhas palavras não cheiram como as inglesas.

    Meu distanciamento não é telescópico.

    Não faço música clássica.

    Eu sambo na página

    literal 

    e literariamente!"

    Julio Carvalho -Adaptado

     
     

    FAZENDO AMOR EM 2008

     

    - Estou cansada. O teclado está ruim...

    - Espere. Estou quase já...

    - Quase o quê?

    - Gozando, oras!

    - Mas eu estou cansada de teclar!

    - Não pára! Abre a cam de novo...

    - Não consigo! A conexão está lenta e não dá pra abrir as duas câmeras juntas...

    - Que droga! Então fica quieta pra eu ver você melhor...

     

    Eu me ajustava a cadeira do melhor jeito que conseguia.

    Um quarto a meia luz meio escura e eu nua sem nada.

    Já havia tirado calcinha e tudo o mais que havia de tecido sobre o corpo.

    Agora era só eu e pele. E tesão. Aparecia pra ele como se fosse uma vadia. Puta mesmo.

    Daquelas piores que eu sempre vejo lá na Rua Augusta no final de semana quando vou buscar o Mariano depois do after hour de alguma balada.

     

    - Acabou?

    - Não, não! Isso mexe mais, mexe na bucetinha, no rabinho, isso, isso...

     

    Eu me contorcia o mais que podia e ele não chegava nunca ao fim...

    Sem microfone, eu era obrigada a teclar pra poder explicitar o que eu estava sentindo e aquilo era incômodo, porque eu me desconcentrava a toda hora.

    Eu me olhava na câmera na tela do monitor e me sentia meio estúpida fazendo caretas e me contorcendo feito uma vagabunda tarada. Nunca tinha feito aquilo, mas ele me convenceu de tanto insistir pedir e implorar. E aí eu me rendi. Fiz de santa no começo, mas então como é que eu ia resistir depois de tanto tempo sem sexo, morando sozinha sem namorado e recém separada de uma relação frustrada com um maluco que tinha transtorno bipolar? É o que me resta. Meu computador e minha câmera e tarde da noite na internet com algum tarado de plantão. Eu até que demorei e relutei pra fazer isso. Porque não sou dessazinhas sabe? Eu tenho um filho e já fui casta até perceber que um homem só é coisa de mentalidade judaica cristã vinda de pais desajustados sexualmente.

     

    - Ai, ai! Só mais um pouco... Levanta a cam mais pra cima. Isso, isso!

     

    Eu já estava enjoando daquilo.

    Meu teclado não ajuda e eu ainda tento esboçar uns uis e ais na tela pra ver se ele acaba logo com isso. Eu não tinha o que fazer quando fui dar ouvidos aos conselhos da louca da minha vizinha. Ela é completamente atrapalhada e nunca consegue levar um relacionamento muito tempo adiante. Mas como eu não tinha mais outro jeito pra conhecer alguém, fui me meter a ouvir os conselhos dela.

     

    – Faça como eu. Internet é “mó bom”. Dá pra fazer um homem por dia.

     

    Fazer um homem por dia? E homem já não nasce feito?

    Cada coisa!

    E agora eu aqui esperando esse sacrossanto macho gozar olhando pra mim...

     

    - HAAAAAAAAAAAAAAAAAA

    - Até que enfim! Acabou?

    - Sim. Preciso de um banho...

    - Não vai ter conversa? Não vai dizer se foi bom ou fumar um cigarro?

    - Aqui é internet minha filha. Não é cama...

    - Ha! Tá bom...

    - Fui.

    Offline...

    October 27

    SOBRE OUTROS LUGARES E OUTRAS PESSOAS...

     

    "Eu sempre deixo as pequenas sensações e mesquinharias para as outras pessoas.

    Prefiro sentir sensações imensas, aquelas de perder o fôlego, os sentidos quase.

    O resto do mundo que se contente com o mínimo..."

    Julio Carvalho

      

     

    OUTRA PESSOA

    Outra pessoa não diria o que eu digo.

    Não pensaria o que eu penso.

    Não iria a uma livraria escolher os livros que eu gosto de ler.

    Não ouviria as músicas que eu gosto de ouvir.

    Outra pessoa não sentiria o mesmo gosto que eu pelas coisas.

    E nem diria o mesmo que eu diria pelas costas.

    Se bem que quase não digo muito pelas costas.

    Prefiro dizer na cara mesmo.

    Pela frente de outra pessoa que não eu, é claro.

    Outra pessoa poderia passear em um shopping, comprar presentes para o namorado ou para a namorada,

    pensar em que roupa vai usar em determinada festa, ou que roupa tirar depois da festa,

    perder a vergonha e gritar no meio da rua como um doido,

    ir ao cinema ver o filme do momento, comprar uma revista na banca mais próxima da sua casa,

    ler os jornais pela manhã na internet, pensar na solidão, na companhia, no ganho, na perda...

    Outra pessoa poderia ir a outros lugares até mais interessantes, mas não sentiria o mesmo que eu sinto

    quando vejo os mesmos quadros e paisagens e as coisas da rua passando pelos olhos.

    Eu tenho até um pouco de medo da outra pessoa que eu não conheço

    e não me convenço assim tão rápido, que é outra pessoa tão legal quanto eu.

    Ou tão odiosa quanto eu. Porque como qualquer outra pessoa eu também sei ser odioso e cínico.

    Não tão bem como outras pessoas que nem invejo por isso.

    E eu sei que outras pessoas podem ser boas ou más por causa disso.

    Não me importo muito porque não sou eu nesse outro lugar.

    Outra pessoa não sabe nem o que eu sinto.

    Ou penso.

    Outra pessoa não sou eu.

    Eu sou essa pessoa em mim.

    Eu sou uma pessoa.

    Não outra pessoa.

    Qualquer.

     

    October 24

    SOBRE O ESCREVER E O BELO...

     

    "O sorriso não cobra

    Seu habitat é a boca

    Sua verdade, o silêncio

    Seu desenho, os dentes

    Seu alvo, os carentes."

    http://accrocca.spaceblog.com.br

     

     

     

     

    Mas acho mesmo que escrever é uma via de acesso à beleza.

    Quando a gente fala ou lê as coisas é como se elas já viessem prontas,

    assim de uma vez só, colocadas na língua ou no papel impresso.

    Quando a gente escreve a coisa é mais séria.

    As palavras se organizam cada vez de uma forma diferente.

    As coisas são retiradas, colocadas, unidas, separadas, aumentadas, diminuídas...

    Essas construções e rearranjos me transportam às questões relativas a beleza.

    Organizar as palavras é dar um sentido a beleza delas.

    Retirá-las do reino das coisas comuns. Do reino do vazio de significados.

    Talvez seja por isso que muitos escrevem.

    Para ter acesso a toda essa beleza da língua.

    Para ter acesso ao reino da beleza usando as palavras.

     

     

    October 14

    SOBRE O INVERSO DAS COISAS...

     

    “As palavras e as coisas moram comigo.”

    Vera Lúcia

     
     

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    verso