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    November 30

    SOBRE O TEMPO E SUAS DIFERENÇAS...

     
    "Seja um poema, uma tela, ou o que for, não procure ser diferente.
    O segredo está em ser indiferente."
    Mário Quintana

     

     
    O relógio laranja
    na parede
    descasca o tempo
     
    em gomos 
     

    SOBRE O DEVER SER OU O QUERER SER...

     

    “Procura-se quem sequestre coração. Faça folia e carnaval.

    Beije na  boca, diga que ama, leia poemas à meia-luz.

    Não tenha medo das águas profusas, que, confusas, já se misturam.

    E deixe em ordem a desordem da casa: volte pra sempre todos os dias.”

    Recorte de Jornal - Ana Peluso

     

                                                                                                                                      Desenho de CilvaH.

     

    O do meio

     

    Entre os extremos

    Entre as coisas

    Todas

    O do meio

    O que fica entre os dois pólos

    Do máximo ao mínimo

    O todo eu sempre quis

    Mas

    Ainda duro

    O coração não diz

    O que na verdade tudo o que eu poderia ser

    De cada

    Coisa

    De cada historia

    Eu sou o do meio

    Ainda que você vá embora

    Eu fico assim entre dois extremos

    No caso o mar

    Estou entre as águas

    Eu sou a onda

    Esperando quebrar

    Eu sou o do meio

    Esperando amar

     

    P.S. o julio tem o citoplasma exposto...

     

     

    November 25

    SOBRE PROPAGANDA E POESIA...

     
    ”A mais íntima
    memória se
    desdobra cega
    e surda:

    A presença tátil
    de suas dobras
    incrustadas
    nas marcas linhas
    das minhas mãos.

    O gosto redondo
    do seu corpo
    na retina língua
    do meu gesto
    ou rosto.

    E seu perfume
    rio riso colorido
    escorrendo
    sobre o corpo
    sopro e calor.

    Memória se
    deseja. O resto,
    se ouça ou veja.”
    Memória se - Frederico Barbosa (in Contracorrente, São Paulo, Iluminuras, 2000)
     
     
    HERMÉTICA
     
    A poesia escorre
    da coca
    pra caixa
    e encaixa
    perfeitamente
    todas as idéias
    em cada
    coisa
    que cabe na coca
    e na caixa
    enquanto
    entorna
    retorna
    reforma
    as palavras
    que não escorrem
    pra fora
    nos cacos
    do texto.
     
    November 16

    SOBRE CONVITES E FRUSTRAÇÕES...

     

    "Escrever letras e agrupá-las em certos signos.

    Pô-los sobre linhas e pontuá-las.

    Ao final, dobrar o papel e colocá-lo numa gaveta.

    Esquecer e perder aquele bilhete para uma faxina bem feita,

    que enviará o papel para a reciclagem.

    ................................................................................................................................

    O vento se apressa. Voa sobre todo o mar.

    Resigna-se a viajar acorrentado.

    Mais tarde descobre o pior:

    encarar vidraças mal encaradas

    e se contentar em enlouquecer a rodopiar

    e moer mera poeira de asfalto."

    FRUSTRAÇÕES - CilvaH: meados de novembro de 2007.

     

     

                                                                             photo by http://www.flickr.com/photos/gsrod

     CONVITE

     

    É tarde demais?

    Pra aceitar um convite?

    É tarde demais?

    Pra  eu ir te ver agora

    Pra eu ir te contar

    Segredos

    Malucos

    Idéias

    Idades

    Ideais e coisas assim

    Poemas de mim

    É tarde demais

    Pra eu ir aí?

    Eu poder falar de mim

    E também te ouvir

    Deixar uns segredos aí jogados no chão

    Sair daí depois

    Quase como um ladrão

    Roubar seus sentidos

    Roubar seus segredos

    Devolver outro ouvido

                            (Segredo!)

    Falar de bobagens

    E outras imagens

    É tarde demais

    Pra eu ir aí?

    É tarde demais

    Pra eu te ouvir? 

     

    SOBRE POR ONDE SE MOVIMENTAR, IR OU FALAR...

     
    "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
    Estendendo-me os braços, e seguros
    De que seria bom que eu os ouvisse
    Quando me dizem: "vem por aqui!"
    Eu olho-os com olhos lassos,
    (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
    E cruzo os braços,
    E nunca vou por ali...
    A minha glória é esta:
    Criar desumanidades!
    Não acompanhar ninguém.
    — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
    Com que rasguei o ventre à minha mãe
    Não, não vou por aí! Só vou por onde
    Me levam meus próprios passos...
    Se ao que busco saber nenhum de vós responde
    Por que me repetis: "vem por aqui!"?
     
    Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
    Redemoinhar aos ventos,
    Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
    A ir por aí...
    Se vim ao mundo, foi
    Só para desflorar florestas virgens,
    E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
    O mais que faço não vale nada.
     
    Como, pois, sereis vós
    Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
    Para eu derrubar os meus obstáculos?...
    Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
    E vós amais o que é fácil!
    Eu amo o Longe e a Miragem,
    Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
     
    Ide! Tendes estradas,
    Tendes jardins, tendes canteiros,
    Tendes pátria, tendes tetos,
    E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
    Eu tenho a minha Loucura !
    Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
    E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
    Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
    Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
    Mas eu, que nunca principio nem acabo,
    Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
     
    Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
    Ninguém me peça definições!
    Ninguém me diga: "vem por aqui"!
    A minha vida é um vendaval que se soltou,
    É uma onda que se alevantou,
    É um átomo a mais que se animou...
    Não sei por onde vou,
    Não sei para onde vou
    Sei que não vou por aí!
    Cântico negro - José Régio
     
     
    MÓDULO
     

    um copo

     

    a copa da árvore

     

    O ás de copas

     

    Corpóreo

     

    tudo toma corpo

     

    toma forma

     

    toma instante

     

    um monumento

     

    um momento

     

    o que circula entre minutos, dias e horas

     

    é movimento 

     
     
    November 10

    SOBRE HOMENS E POETAS...

     

    ”E aquele, entre os homens, que não quer voltar ao pó,
    É preciso antes que comece a cantar em qualquer canto um canto de dor.

    E aquele, entre os homens, que não quer gestar intrigas,
    É preciso antes que aprenda a calar em todas as línguas.

    E aquele, entre os homens, que não quer morrer de solidão,
    É preciso antes que comece a beijar todas as bocas.

    E aquele, entre os homens, que não quer morrer sem verdade,
    É preciso antes que aprenda a acreditar em todas elas.

    E aquele, entre os homens, que não quer morrer de tédio,
    É preciso antes que aprenda a ser todos de todas as maneiras.

    E aquele, entre os homens, que quer permanecer íntegro,
    É preciso antes que saiba silenciar todas as falas.

    E aquele, entre os homens, que quer permanecer sensível,
    É preciso antes que saiba sentir tudo de todas as maneiras.

    E aquele, entre os homens, que quer permanecer são,
    É preciso antes que saiba ter todas as loucuras.”
    Canto Nietzschiano - Gustavo de Castro
     
     
     

    Emendas

     

    ...em geral, os pensadores são inspiradores

    mas a língua é dela  mesma, não tem dono...

    com segurança o que eu disse, o disse um outro no mundo

    essa é a benção da língua, pode libertar as pessoas

    porque não pede a elas licença para existir

     

    enquanto isso

    nas entrelinhas existe o poeta

    o poeta torna a palavra particular

    faz das palavras o estranhamento

    o encantamento

    mesmo da pessoa que lê

    e da outra que escuta

    para depois falar

     

    mas o encantamento talvez não permita pensar ou se permitir

    - pensar o pensamento fica nas mãos do encantador

     

    será então

    que o poeta é como um encantador de serpentes das palavras?

    Ou seria um ser que usa o encantamento interior pra dar forma ao que sai no texto?

    Ou seria o contrário?

    - As palavras são as encantadoras do poeta,

    ele interpreta os sentimentos que a experiências com elas deixa no seu corpo.

     

    O poeta constrói, reconstrói e monta a poesia

    Apara as bordas, retira o brilho fosco da palavra bruta...

    Lapidar a palavra, para o poeta, é sinônimo de viver.

     

    SOBRE OS TRAÇOS DE CERTOS LUGARES...

     

    " poética
    ...roubar outras, o silêncio, ler se apropriando, traduzir, ficar perto de."

    Masé Lemos

     

     

     

    UM TRAÇO

     

    Sou só garganta...

    Não sou violento.

    Não sou maldoso.

    Sou um resultado.

     

    Sim, sou branco.

    Da cor branco-rascunho

    a ser escrito

    preenchido

    Com aqueles longos pincéis

    que fazem aquarelas

    lentamente

    como se fazendo um carinho na tela

    branca

    A tela como rascunho como papel como eu

    No momento não existem canetas lápis ou pincéis até

    No momento a cor é o branco-limpo

    E atrás alguma coisa ligeiramente avermelhada

    chamada coração.

     

    SOBRE AS BOAS IDAS E AS PIORES VINDAS...

     

    "Primeiro, as cores.

    Depois, os humanos.

    Em geral, é assim que vejo as coisas.

    Ou, pelo menos, é o que tento."

    Marcos Zusak

     

     

     

    10-LOCAMENTOS

                              para Gabriel Rodrigues

     

    Ir a um lugar onde não se quer

    Pisar num chão de cacos de vidro

    Deixar de se olhar o que é bonito

    Impressões e impossibilidades

    O que se faz e o que se quer fazer

     

    Os olhos dizem muito pouco

    e a ânsia é tamanha que se perde na boca

    Não se fala do tamanho das coisas quando elas são muito grandes

    As impossibilidades são grandes

    Irremovíveis

    Irretocáveis

    O que se faz é um silêncio em prol delas

    Um acomodamento

    Um céu de cor cinza...

     

    O que causa o medo

    não é ir

    é onde...

     

     
    November 05

    SOBRE O TUDO MENINO E O NADA ADULTO...

     
    "O menino tira da caixinha as coisas obsoletas:

    Luneta de ver de onde vem formiga;
    Cheiro de coisa que não tem nome;
    Pedaço de pensamento de reinação;
    Três luvas de tocar as estrelas do céu da boca;
    Dois mantos de abelhas amargas, que servem
    para cobrir o mar.

    Punhado de palavras que fogem da fala;
    E pedaços de olhares desviados;

    O menino dessas desimportâncias
    quer retirar o sentido,
    e ver se isso funciona para versos,
    ou mesmo cantigas.

    O menino acha que o desuso
    é fabrica para versos:
    como o silêncio

    O menino sem saber
    inventou uma máquina
    de desdizer as coisas:
    e repeti-las."
    http://incrise.blogspot.com

     

    O OCO DENTRO

     

    O oco.

    O soco.

    O vazio.

    O nada.

     

    Do lado oposto

    do rosto

    tudo o que não se pode conter:

    o riso

    o dente do siso

    o choro...

    não vê

    a cárie de dentro

    o buraco vazio

    de dentro feito

    a mesma cárie

    que investe no corpo

    no peito

    vazio.

     

    Oco.

     

    Feito muito,

    os poucos

    que estão

    dentro

    podendo

    ser maiores

    as  razões que preencham

    o dentro.

     

    Maiores que tudo -

    maiores até

    que o vazio

    da angústia

    de não saber

    que o que falta

    ao oco

    do corpo

    é amar.