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    November 30

    SOBRE OS TEXTOS SEM TÍTULO...

     
    "POESIA É SUCO!"
    Julio Carvalho
     
     
     

    MICRO-CONTO FEITO NA OFICINA DO MARCELINO FREIRE

    (TEMA: AFOGAMENTO)

     

    Percebi tarde a linha do mar grudada no olho.

    Acordei com um cadeado no nariz e coberto de areia.

    E o outro só fez me beijar.

     

     

    November 22

    SOBRE OS PEQUENOS MEDOS E O AMOR...

     
    "É um medinho que chega leve, manso.
    Um medo natural. Instinto de preservação, sei lá,
    mas de qualquer forma algo que não quero mais sentir.
    Quero é abrir todas as minhas portas e encontrar portas abertas pra mim.
    Eu quero entrar; entrar sem bater. "
     
     
    PASSAGEIROS
    (Texto de Thiago Rossi adaptado por Júlio Carvalho)
     

    Geralmente tudo começa em pensamento como

    uma idéia brilhante e outras vezes nem tanto.

    Mas é sempre por ali que isso acontece, quando o pensamento sai do lugar

    e perde o horizonte transferindo seus impulsos para canais mais simpáticos à sua causa.

    Sensações mais táteis, degustáveis, palatáveis que vão surgindo

    por tantas vias quanto possíveis e usando todos os poros à vista.
    Sensações que deixam os pulmões delicadamente insatisfeitos

    e transformam o ritmo cardíaco em algo indefinido pelo intelecto,

    deixando o coração aos pulos e quase rarefeito com tanta precipitação.
    As mãos trêmulas resistindo ao toque amigo,

    pêlos e cabelos ouriçados tingindo-se de indecisões.
    O corpo todo num uníssono ao pestanejar num acorde violento e brutal de hormônios,

    sensações e vibrações tão estranhas que se tornam parentes muito próximos.

    Pernas e pés desvencilham-se do pensamento à toa

    e percorrem espaços tão vazios quanto o olhar

    que agora nada mais é que só um lugar comum.

    Imundo de ilusões. Inundo de ilusões.
    Um mundo de impossibilitações.

    O corpo já não é mais que um espaço ocupado e, de volta,

    retoma seu caminho como se nada tivesse acontecido a ninguém.

    Volta a passear pela existência das intenções variadas,

    das extensões desconhecidas e das tensões desapercebidas.

    Volta ao comum.

    Mas diferente.
     

    November 20

    SOBRE O DESEJO E A SOLIDÃO...

     
    "o mar, a mor
    te. Vertical
    o desejo."
    Horizontal - Albano Martins
     
     
    sem título e bastante leve
     
    sózinho tentando enganar a solidão que nunca se engana.
    quem se acaba e se engana é a gente.
    solitariamente.
     
     
    November 16

    SOBRE AS GRANDES E AS PEQUENAS COISAS...

     

    “Sabemos quanto parece decepcionante a famosa defini­ção da carícia enquanto "contato de duas epidermes".

    De fato, a carícia não pretende ser um simples contato.

    Só podemos reduzi-la a simples contato quando não com­preendemos seu sentido próprio.

    Porque a carícia não é um simples toque sutil, ela é um jeito de moldar a pele do outro.

    Acariciando o outro eu faço nascer a sua carne sob meus dedos.

    A carícia é um conjunto de cerimônias que encarnam o outro.

    Mas, dir-se-ia, ele já não estava justamente encarnado? Não.

    A carne do outro não existia ainda, explicitamente, para mim antes que,

    através da minha mão, eu me apossasse do seu corpo,

    e não existia também para ele porque sua atenção estava voltada

    para as coisas em redor e para as possibilidades do corpo.

    Assim, a carícia faz nascer o outro como carne para min e para ele próprio.

    E por carne não entendemos uma parte do corpo denominada pele, nem o corpo em repouso [... ]

    A carícia revela a carne desabilitando o corpo de sua ação,

    ela o separa das possibilidades que o entornam: ela é feita para descobrir,

    sob o ato a trama da inércia — isto é o ser-lá — que lhe sustenta.

    Por exemplo, acariciando a mão do outro descubro, sob a preensão,

    que esta mão é primeiramente uma extensão de carne e de ossos que pode ser tomada [...]

    A carícia é feita para fazer nascer, através do prazer,

    o corpo do outro ao outro e a mim próprio como passividade tocada.”

    (Sartre, L'être et lê néant, p. 440)

     

     

     

    HIPER HYPE

     

    hipercrença

    acreditar demais

    hiperviolência

    maldade demais

    hipervelocidade

    perigoso demais

    hiperatividade

    curas demais

    hipersaciedade

    gorduras demais

    hipersociedade

    gente demais

    hiperssexualidade

    sexo demais

    hipertextualidade

    informa demais

     

    é muito super mega ultra hiper

    e o mundo continua

    mini

    demais

     

    November 14

    SOBRE OS CORTES NAS PALAVRAS...

     

    "palavra não é coisa
    que se diga
    quem toma a palavra
    pela coisa
    diz palavra com palavra
    mas não diz coisa com coisa
    a palavra pode ser pesada
    a coisa, leve
    e vice-versa não é coisa alguma
    a palavra coisa
    não é a coisa palavra
    palavra e coisa
    jamais serão a mesma coisa"

    http://www.ricardosilvestrin.com.br

     
     
     
    eu nunca corto nada
    eu me adapto
    todo corte é brusco
    e dói muito
    adaptar-se é sobreviver aos terremotos

     

    SOBRE FUGAS E SALTOS...

     

    “Fugir do previsível alimenta a fantasia

    num mundo carente de poesia.”

    UOMINI - http://www.uomini.blogger.com.br

     

     

    modern suicide

     

    antes de pular

    observe o aviso luminoso:

    a próxima parada

    é o ponto final

     

    November 11

    SOBRE TODOS OS TEMPOS DO MUNDO...

     

    “O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe,

    da língua mãe, da língua materna:

    para o glorificar, para o embelezar, ou para o despedaçar,

    para o levar ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido.”

    O PRAZER DO TEXTO – Roland Barthes

     
     
    eu só tenho três tempos:
    hoje, agora, já
    o resto é futurontem
    já foi
    ou ainda será
     
     

    SOBRE FICAR CALADO...

     
    "É como desconhecer-se
    todo dia um pouco -
    numa fração -
    e refazer-se no outro
    ao cabo."
    http://incrise.blogspot.com
     
     
    Sou todo ouvidos
    às vezes alguns olhos
    e nenhuma boca
     
    November 06

    SOBRE OS SONS DAS CIDADES...

     

    "...Sou Bach, manhãs de domingo, Goethe, Google, Kafka,

    cerveja gelada, jornais empilhados, papo cabeça, Chico Buarque,

    cinema europeu, rock, chiado de vinil, Jack Daniels, lojas de conveniência nas madrugadas.

    Sou as paisagens que vi, as pessoas de cuja companhia desfrutei..."

    E também sou o cicerone deste labirinto.

    Délio Pinheiro  -  http://www.novoslabirintos.blogger.com.br

     

     

     

    metrônomocidade

     

    a cidade é um barulho

    e cada rima

    e marcação

    é som

    e cada esquina

    compõe compassos

    e planos

    colados

    por todos os lados

    a métrica

    simetricamente

    compulsivamente

    encontra-se armada

    a pontas e facas

    ruidosas farpas cantantes

    dissonantes

    em tempos tão modernos

    os incômodos

    apitos, buzinas e estratosféricas

    britadeiras

    sonoras

    azucrinantes

    coincidentes

    varrem

    a cidade

    toda

    que ruidosamente

    poematiza-se

     

    November 04

    SOBRE ABRAÇOS E ALMAS...

     

    “A indiferença é o abraço não dado.”

    Sérgio Napp

     

     

     

    escrevinhalma

     

    minha alma

    é minha cara

    escrita e escarrada

     

    e as coisas que eu escrevo

    - que droga -

    eu arranco da alma

     

    pensam que não dói?

     

    e a alma coitada

    toda esburacada

    fica faltando

    palavras...

     

     

    SOBRE TODOS OS FAMINTOS E SONHOS...

     

    "Uma música não precisa mais que três minutos.
    Um haicai, alguns segundos.
    Mas podem durar a vida inteira.
    Um filme, duas horas no escuro.
    Um romance, muitas noites em claro.
    Um quadro o tempo todo.
    Até que se canse,
    ponha outro em seu lugar.
    Uma escultura numa praça,
    mesmo com chuva,
    mesmo que se mude de cidade,
    ela está lá"

    http://www.ricardosilvestrin.com.br

     

     

     

     

    o corpo precisa da fome

    e come

    a alma precisa de sonho

    e o corpo

    dorme

    se os sonhos se deterioram

    a alma

    some

    e o corpo

    se consome

    depressa

     

    depressão

    é a deterioração dos sonhos

    http://idealiapolaris.blogspot.com

     

    SOBRE AS SAGRADAS PALAVRAS...

     

    "Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical

    das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô

    que se apaixonasse pelo seu plantel. (...)

    A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda."

    O Gigolô das palavras - LUIZ FERNANDO VERISSIMO 

      

     

    Já cansado de tanto trabalho, disse Jesus a um pobre coitado:

    - Fazer outro milagre? Você estar vivo já não é um?

     

    November 03

    SOBRE AS FORMAS EXTREMAS DO AMOR...

     
    "ele sempre me chamava e eu nunca respondia:
    era o humor
    e falta de amor
    e ambos continuam faltando
    mas em menor grau.
    estou melhorando..."
    Julio Carvalho
     
     
    amor na parede
    arranca pedaço
    da gente?