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December 31 SOBRE O ÚLTIMO DIA..."Não faz diferença
se você vem amanhã ou não vem desisti de esperar por alguém cuja ausência me faz companhia" - Martha Medeiros REWIND
A doçura é um estado de ser - não é só estado de espírito.
deixei
as roupas do ano passado no ano passado deixei os ombros cobertos no ano passado deixei de ouvir a cidade e o que dizem de mim quando ando sozinho ouço música e olho assim não tenho que estar todo o tempo a procurar curativos alívio
algodão e esquecimento deixei o ano passado no ano passado não deixei tudo por medo dos
esquecimentos
é verão mesmo nesta cidade e em todas as cidades
do hemisfério sul
Adaptado de Venha Voando
SOBRE O ANO PASSADO EM 2006..."As palavras traem. Queremos dizer uma coisa, e elas dizem outra.
Isso se dá, em particular, na poesia, quando as palavras deixam
de ser veículo para se tornarem objeto. Então, sua fragilidade e inconstância ficam ainda mais expostas."
José Castello
"O texto escrito
é a pessoa a menos A carta a letra não são a pessoa Nem sempre a pessoa agrada nem sempre a pessoa é amada Com a pessoa viva morta amada desagradada ausente presente as cartas as letras são sempre mortas Um mapa não é uma terra" Adília Lopes
le vitrail la nuit / a árvore cortada, &etc, 2006
"Senhor Jesus, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia? (...) Eu quero uma voz mais forte que o poema, mais forte que o inferno, mais dura que a morte: eu quero uma força mais perto de Vós." Jorge de Lima "Penso que a tarefa do século vindouro,
perante a mais terrível ameaça já conhecida pela humanidade,
vai ser a de reintegrar os deuses."
André Malraux
"Destruiu-se demais. E quando o real é a destruição,
o romanesco só pode ser a construção de alguma outra fé."
Ernesto Sábato
"Só se pode alcançar o absoluto através da fé e do ato criador."
Andrei Tarkovski, cineasta russo
"Não há noção de liberdade a não ser pelo ato poético que nos dá a noção do Absoluto."
Giuseppe Ungaretti
"No combate bem combatido entre Homo e Mundus,
a poesia conduz o poeta a seu nirvana especial."
Mário Faustino
"Fala-se: geografia do pensamento.
Escreve-se para habitá-lo."
Mariana Ianelli December 27 SOBREXISTIR E INSISTIR..."Vamos supor
que a vida seja um velho que carrega flores na cabeça. a jovem morte está sentada num café, sorridente, uma moeda entre o indicador e o polegar. (falo para você "compre umas flores" e: "a Morte é jovem a vida usa calças largas a vida gagueja, a vida tem barbas" e falo pra você que se fecha no silêncio
"Tá vendo a Vida?
Está lá e aqui,
é isto ou aquilo ou nada ou um velho quase adormecido, sobre a cabeça flores, sempre gritando pra ninguém alguma coisa sobre as rosas e tulipas, sim, Ela vai comprar? os belos ramalhetes - Ei, escuta,
tá de graça") e meu amor lentamente respondeu acho que sim. Mas acho que vejo mais alguém ali
uma senhora, seu nome é Depois, está sentada ao lado da jovem Morte, é bonita;
as flores gostam dela." e. e. cummings ![]() ALGUNS
Queixo-me da insistência de existir
e da distância da vida que é um corredor
imenso
e tantas portas quantas coisas e traições
onde a sorte ronda poucas
as chaves muito tênues
se desfazendo minuto a minuto
entre as horas
as demoras muitas
entendo
quando
quanto tempo ainda
o corredor a vida as portas
brincarão
comigo?
e eu?
sigo?
SOBRE O QUE HÁ ATRÁS DAS JANELAS...."Não adianta procurar,
tem coisa que não existe."
![]() “A vida é a vista: fiado só amanhã.”
Nelson Ascher
SOBRE OS BRINQUEDOS POÉTICOS..."Eu andei procurando retirar das palavras suas banalidades.
Não gostava de palavra acostumada.
E hoje gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas.
Tenho preguiça de ser sério.
Palavra: parvo; cores: o azul; fatos:
passei a vida tentando escrever em língua de brincar.
Minhas palavras são de meu tamanho;
eu sou miúdo e tenho o olhar pra baixo.
Vejo melhor o cisco.
Minhas palavras aprenderam a gostar do cisco, isto é, da palavra cisco.
E das coisas jogadas fora, no cisco.
Pra ser mais correto: as coisas que moram em terreno baldio.
É um dialeto infantil. Acho que passei a vida inteira brincando,
porque todo mundo ri da minha poesia.
Riem quando compreendem.
Comecei a ler meus versos, são todos assim; quanto à razão,
inclusive se você for raciocinar em cima do verso pra procurar o sentido,
não acha a idéia, porque a linguagem apaga a idéia, a metáfora destrói qualquer idéia.
As idéias depois, se quiserem, inventam."
Trecho de entrevista de Manoel de Barros concedida à Revista Caros Amigos - Dez 2006
![]() BRINQUEDO
A poesia brinca
entre as letras
e seus as e os e ãos
aviões e aviãos enjaulados
enquanto as palavras se soltam
formando arranjos de nuvens
de significados
e formas diversas
e divertidas misturas
paródias, comédias
e em silêncio então
a palavra bruta
se acalma
se aquieta
com a poesia
solta no ar:
é o brinquedo das palavras
tocando o céu
querendo
rimar...
SOBRE OS PRÓXIMOS POEMAS..."Comecei cedo e distante. Para escrever, despreparei-me
desesperei: escrevo sem parar, me álibi, meu escudo
de papel, às vezes bandeira. A letra varia, louca.
Do garrancho apressado para pegar em flagrante
à caligrafia medida, meditativa. Entre uma e outra
vale-tudo - rabisco, reparo, ruína. leio em voz alta,
gravo, escuto-me sozinho. Depois, bato, copio, amasso,
erro, apago, rasgo, a mão, os dactilografos,
borro o monstro, com elefantíase, apuro.
Agora, digito, salvo, me perco, deleto, sem impressão.
Amanhã recomeço."
Moto Contínuo - Armando Freitas Filho
eu quero tudo novo
um poema novo
não reciclado
nem politicamente correto
um poema que vá direto ao assunto
direto ao ponto
como um soco
direto no estômago
um poema louco
que pouco a pouco
se torne
intenso
um poema que seja gritado tanto
até que eu fique
rouco
December 26 SOBRE AS ENTREDATAS...“Um poema não se vende como música,
não se vende como quadro, como canção, ninguém dá um centavo,
uma fava, um poema não vive além de suas palavras,
sóis às avessas, não se vende como prosa,
só como história ou arremedo de poema,
não se vende como ferro-velho,
pedaços de mangueira de um jardim,
tambores de óleo queimado, sequer um pintassilgo,
cantando no aterro de lixo ou na língua negra dos esgotos,
que florescem algas, não se vende como grafite,
não se vende como foto, vídeo ou filme de arte,
não se vende como réplica ou post card,
mau negociante de inutilidades,
me tenha impregnado da praga das palavras.”
PROSA – Régis Bonvicino
![]() 200_7
A Sagrada Escritura usou a simbologia do sete para indicar a perfeição.
A Criação compreende sete dias.
Jesus usou a expressão “70 X 7” para significar “sempre”.
A Igreja Católica adota o sete e enumera os sete sacramentos, sete pecados capitais.
A Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –
somada aos quatro pontos cardeais, estações do ano, elementos (terra, água, ar e fogo)
resultam em sete que é a perfeição: a soma da ordem espiritual com a ordem material.
Em Iorubá, o sete é chamado de odu-odi, que significa “positivo e negativo”.
Quer dizer, o sete é um número ambíguo. Não é positivo nem negativo.
Para o Candomblé, o sete tem a magnitude de comprometer o presente
e ao mesmo tempo facilitar o futuro: é uma ponte.
No Islamismo o sete é mencionado diversas vezes no Alcorão e nas falas do profeta Mohamad.
Deus criou os sete céus e as sete camadas da Terra, os sete níveis do Paraíso e do Inferno, etc
O número sete é considerado um número moderado entre os números de um a nove,
indica uma grande quantidade sem ser extremo, além de ser ímpar.
E Deus é ímpar.
Sete são os buracos da cabeça. Dois ouvidos, olhos, narinas e boca.
É a parte mais importante do ser humano, por isso está acima do corpo.
É através dela que o espírito se relaciona com o todo.
O sete na verdade é uma síntese.
O sete também é um número cíclico,
acaba entrando numa relação de tempo, por isso sete dias da semana.
O sete simboliza a arte, a capacidade do homem de imprimir alguma coisa.
Por que o cinema é a sétima arte?
Porque é a soma de todas as outras.
O sete é o número perfeito, denota integralidade, universalidade e plenitude.
Está relacionado com a origem dos céus e da Terra.
Para os Adventistas do Sétimo Dia este é um memorial do tempo,
é um presente de Deus para a humanidade,
descansar nele é uma expressão de confiança no poder divino.
O sábado é a alegria antecipada para a eternidade.
O número sete tem um significado importante na Cabala.
Sete é o número de braços da menorá,
o candelabro que se transformou no símbolo mais antigo do Judaísmo.
Além disso, o sete representa o todo, o completo,
absoluto por ser o número de dias da semana.
O sete é o número do shabat, o descanso semanal do povo judeu que cai no sábado.
Desta maneira o seis representa nossas necessidades materiais
e o sete é o símbolo do transcendente, do espiritual.
Fonte: Revista SIMPLES - nov. 2006
December 21 SOBRE AS POSSIBILIDADES DA POESIA..."Choro contigo barco pela praia que deixas pelo sol que se deita longe das pedras do cais choro contigo barco ´manhã talvez não chore mais choro meu choro parco neném que a mãe não mais aleita choro a caça que espreita bem perto a mira do algoz choro catarinetas ´manhã alguém chora por nós choro saber que os açudes não são o mar que não se pode guardar em alguidares de areia choro o destino das sereias e o desatino do astrolábio choro saber que o homem sábio pode morrer se não souber nadar choro contigo e parto nas ondas vagas incertas as nossas velas abertas são ferramentas do caos chore comigo barco a sina de todos os naus" ...e por acaso
estar sempre sensível às coisas belas
não é nada mais
que outra forma
de poesia?
SOBRE O SOL E OUTRAS GRANDIOSIDADES..."Não há força cega.
cabe ao homem espreitar
as forças e descobrir-lhes
o itinerário."
"Quando há duas criaturas, a vida é possível.
Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la."
"As operações encaradas de perto
mostram os seus empecilhos e perigos.
Basta começar para ver como é difícil concluir.
Todo começo resiste.
O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável.
A dificuldade que se toca fere como um espinho."
"À proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário."
"...o crescimento da alma pelo assombro."
"O pesar é nuvem e muda de forma."
"Cair não é nada, é fornalha. Decair é fogo lento."
Trechos de Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo - Tradução de Machado de Assis
SOLSTÍCIO DE VERÃO
que vida o pensamento
espreita mais?
as catedrais, os templos,
as crenças naturais?
não se contam estrelas
assim como não se medem
as verdades de dentro
celebra-se
a vida
cada um a seu tempo
ao seu modo
e ao gosto
de cada um
e no mais
cresce-se o assombro da alma!
December 20 SOBRE A BRINCADEIRA SEMPRE..."Todo astronauta que se preze
Há de trazer pelo menos
um dos anéis de Saturno
e uma camisa de Vênus.
O maior problema da solidão é preservá-la.
Acho que o céu deve ser muito chato
porque lá tem chatos de todos os séculos.
Talvez seja melhor aqui,
pois aqui a gente só aguenta
os chatos da geração da gente.
A linha dos sessenta,
como a dos cinquenta ou dos quarenta anos,
é uma linha imaginária, como a do Equador:
o navio não dá o mínimo solavanco
quando a gente a atravessa."
Textos de Mário Quintana
![]() VINGANÇA
...a vida é uma bolha de sabão...
Eu não sou criança.
Eu sou adolessempre:
Eu adoro sorvete
e refrigerante
e nos dias de chuva
as poças d'agua
são poucas
todas viram espelhos
e as janelas são paisagens
pra outros lugares
os armários que guardavam coisas
sempre cheios de bichos
mudaram
e os medos saem pra fora
agora
pras esquinas
como assaltos
insultos
e afins
ainda somos crianças
o que mudam
são os pontos
de vida
de vista hoje em dia
todo mundo anda
cada vez mais
de olhos fechados
o brinquedo que resta
é essa estranha forma
de levar a vida brincando
como desforra
divirta-me
então...
SOBRE O QUASE CAOS..."Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos Van marcando mi retorno... Son las mismas que alumbraron Con sus palidos reflejos Hondas horas de dolor.. Y aunque no quise el regreso, Siempre se vuelve al primer amor.. La vieja calle donde el eco dijo Tuya es su vida, tuyo es su querer, Bajo el burlon mirar de las estrellas Que con indiferencia hoy me ven volver... Volver... con la frente marchita, Las nieves del tiempo platearon mi sien... Sentir... que es un soplo la vida, Que veinte años no es nada, Que febril la mirada, errante en las sombras, Te busca y te nombra. Vivir... con el alma aferrada A un dulce recuerdo Que lloro otra vez... Tengo miedo del encuentro Con el pasado que vuelve A enfrentarse con mi vida... Tengo miedo de las noches Que pobladas de recuerdos Encadenan mi soñar... Pero el viajero que huye Tarde o temprano detiene su andar... Y aunque el olvido, que todo destruye, Haya matado mi vieja ilusion, Guardo escondida una esperanza humilde Que es toda la fortuna de mi corazón. Volver... con la frente marchita, Las nieves del tiempo platearon mi sien... Sentir... que es un soplo la vida, Que veinte años no es nada, Que febril la mirada, errante en las sombras, Te busca y te nombra. Vivir... con el alma aferrada A un dulce recuerdo Que lloro otra vez..." Volver - Carlos Gardel
Composição: Carlos Gardel, Alfredo Le Pera
SE POR ACASO...
Todas as vacinas
as reparações
e as voltas que o mundo dá
sem respostas
anagramas
teorias
o caos chama
quando alguma coisa se organiza?
a língua e o lábio
o marujo e o astrolábio
o mar e as nuvens
sins, nãos e porquês...
relações
e humanas conclusões
não se prepara uma ilusão
ou uma surpresa
de modo
aleatório
a vida
com o que se brinca
se chama caos
ou é mesmo
destino?
December 19 SOBRE TODAS AS COISAS VERMELHAS..."É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d’água, bebida. A vida é líquida."
Hilda Hilst - Alcoólicas (Trecho)
VERMELHO
Regra número um: vermelho
É a cor do sexo
do medo
do perigo
e das placas que dizem
“proibido entrar”
Todas as minhas coisas favoritas
da vida
são vermelhas.
E vermelho não é confortável
assim como
sexo não é confortável
o que vem do vermelho
fogo
sangue
quente
e a paixão
são vermelhas
e líquidas
mas não certas
pare
e
aproveite:
queime! SOBRE AS IMAGENS E AS MENSAGENS..."perco pedaços de palavras
entre cervejas amendoins e anedotas anotar o mundo: poema da menina do meu olho: inquieto." POSTAIS
De onde são as fotos
as imagens
e as paisagens
colocadas nos postais?
De onde vem essas mensagens
fotografadas e
manipuladas
pela exatidão das lentes
de outros olhos?
E os olhos dos outros
por acaso
dizem mais
que os da gente?
SOBRE O AZUL E OS BLUES... "Falta enviar uma carta. uma árvore escrita
que ponha um final concreto a esta chuva de
relâmpagos. e a carta será escrita,
a árvore derrubada, o coração liberto."
Frederico Mira George Little Blue Butterfly
Talvez a gente tenha que fingir saber
o que estamos fazendo
talvez a gente não saiba a saída
ou a entrada é só uma coisa que está escondida
ou na porta ao lado
na ponta da praia
da rua
ou dentro
Por vários dias
procuramos no meio das palavras
a explicação para as coisas que sangram
- faz tempo que as palavras sangram
e o que se encontra
é sempre o verso
o inverso
do que se pensava
que tinha
e as palavras são poucas na explicação
o que anda rondando o corpo/coração
é uma alegria
que não desiste
e pensa
pensa
pensa
pensa
que engana
mas no fundo mesmo
ela é
triste
isso tudo são como
as pequenas borboletas azuis
aladas
inexistentes
que povoam a memória das coisas
a memória triste das coisas
o que foi guardado
reservado
esquecido
o que precisa ser esquecido
porque dói
assusta
ou afasta
um dia ela vai ser crisalidamente
ousada
e escapar
voando
nas suas asas azuis
de novo
livre
SOBRE O AMOR A TEMPO..."Nunca temos tempo.
Para ser e até para não ser.
Para arrumar ou desarrumar.
Arrumar ou desarrumar a gente mesmo.
Nunca temos tempo.
Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações.
O tempo de férias não conta, é um templo planejado,
que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espontânea inquietação.
Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar.
Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça.
Diversão termina rápido.
Minha boca é um relógio de corda.
Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso.
Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não.
Eu desmarco, não nego nada.
O constrangimento de cancelar algo me transtorna.
Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos.
Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também.
Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo.
Tudo é adiado.
A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas.
As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar,
ensaiar e aguardar perfumado o encontro.
Passar as roupas é uma necessidade.
Os vincos são desafiados com inusitada paciência.
Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários.
Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso.
O trabalho passa violentamente rápido.
Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger,
o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever.
Cada um assume uma condição noturna, intermitente,
o olhar abobado e a vontade excessiva.
A imaginação pára a escrita em um só nome.
Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma.
Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado.
O que pode dar errado já aconteceu antes.
Dentro do tempo. "
Fabrício Carpinejar
![]() E ÉRAMOS...
éramos dois.
ponteiros. num relógio só. dois para um. luta desigual. marcávamos as horas, claro. marcávamos o tempo e o que restava dele. éramos dois. ponteiros. num relógio só. um dia percebemos. estávamos presos por um arame a um maquinismo. que deixou de funcionar. um. dia. percebemos. nada pode acontecer antes do momento em que acontece. Frederico Mira George - Adaptado SOBRE AS CASAS E OS ACASOS..."Guardar mágoa é como tomar veneno
e esperar que o outro morra".
W.S.
CASA Onde se nasce
Onde se cresce
Onde se perde
Onde se acaba
December 14 SOBRE AS PALAVRAS E UM RESTO DE AMOR..."São como um cristal,
as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?" Eugénio de Andrade não sei porquê Mondrian O MAIS
o mais difícil/
tem o mais leve/
tem o mais bonito/
tem o mais longo dos dias/
tem o mais breve/
o mais alegre/
o amor de quem se entregue/
até então o mundo a face vire/
vira fácil/
muito fácil/
sendo todo o mundo/
o mais antigo/
único sentido/
amor.
December 12 SOBRE OS EXCESSOS E A POESIA..."Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei:
embebede-se.
E se ele me disser que o seu figado sofre com isso respondo: o que é o seu figado?
É uma coisa morta que vive enquanto você vive,
e os poemas que escrever vivem sem enquanto."
Fernando Pessoa ARTEFATO
...e todo bêbado /
sempre tolo /
não tem ciência /
e apaga o interruptor /
da consciência.
SOBRE VIDA E RAIVA..."O que é entristecível, continuará,
o que é risível, deleitoso, também. Continuará a vida, repetitiva. Novíssima continuará a vida. Só vida. Nua. Vida." Um Bom Motivo : Adélia Prado SE MUITA RAIVA...
O ódio não tem graça nenhuma
nas ruas, estradas
nas praças
não escapa
o ódio
não espaça
os dias
o ódio
estraga
a forma
deforma
cara
coração
clareza
razão
das coisas
o ódio
cria
e mata
o ódio
não acata ordens
só desordens
o ódio
não sabe de si
nunca se viu
não reconhece
nem conhece
e vice-versa
o ódio
acaba o tezão
e esquece
o coração
o ódio
se cerca
de arame farpado
cerca de arame armado
que fere
o ódio
acaba com tudo
vida ou não
o ódio
não deixa
nenhum
perdão.
December 11 SOBRE LIVROS E PENSAMENTOS..."Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil
Domá-los, cultivá-los em aquários / Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas / Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou o que é muito pior por odiarmo-los / Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras."
(Caetano Veloso)
"Você é mais cerebral..."
um amigo disse
o que sai do cérebro
o que pensa
tudo sente
irremediavelmente
a cabeça
quente
pensa demais
em tudo
faz um estudo
armado
da vida
e
prepara campos de visão
e sempre uma opinião
diferente
arranja filosofias
a prepara linguas
e táticas
para discussões
futuras
ou outras
agruras
a cabeça
cérebro
pensa demais
em tudo
e onde o ser cerebral
vive
dentro
da gente?
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