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    December 31

    SOBRE O ÚLTIMO DIA...

     
    "Não faz diferença
    se você vem amanhã
    ou não vem
    desisti de esperar
    por alguém
    cuja ausência
    me faz companhia"
    - Martha Medeiros
     
     
     
    REWIND 
    A doçura é um estado de ser - não é só estado de espírito.
     
    deixei
    as roupas do ano passado
    no ano passado

    deixei os ombros cobertos
    no ano passado

    deixei de ouvir a cidade
    e o que dizem de mim
    quando ando sozinho

    ouço música
    e olho
    assim não tenho que estar todo o tempo
    a procurar curativos
    alívio
    algodão e esquecimento

    deixei o ano passado
    no ano passado
    não deixei tudo
    por medo dos
    esquecimentos

    é verão mesmo nesta cidade
    e em todas as cidades
    do hemisfério
    sul
     
    Adaptado de Venha Voando 
     

    SOBRE O ANO PASSADO EM 2006...

     
    "As palavras traem. Queremos dizer uma coisa, e elas dizem outra.
    Isso se dá, em particular, na poesia, quando as palavras deixam
    de ser veículo para se tornarem objeto.
    Então, sua fragilidade e inconstância ficam ainda mais expostas."
    José Castello
     
     
    "O texto escrito
    é a pessoa
    a menos

    A carta a letra
    não são a pessoa

    Nem sempre a pessoa
    agrada
    nem sempre a pessoa
    é amada

    Com a pessoa viva morta amada desagradada ausente presente
    as cartas as letras são sempre mortas

    Um mapa não é uma terra"
    Adília Lopes
    le vitrail la nuit / a árvore cortada, &etc, 2006
     
    "Senhor Jesus, o século está podre.
    Onde é que vou buscar poesia?
    (...)
    Eu quero uma voz mais forte que o poema,
    mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
    eu quero uma força mais perto de Vós."
    Jorge de Lima
     
     "Penso que a tarefa do século vindouro,
    perante a mais terrível ameaça já conhecida pela humanidade,
    vai ser a de reintegrar os deuses."
    André Malraux
     
    "Destruiu-se demais. E quando o real é a destruição,
    o romanesco só pode ser a construção de alguma outra fé."
    Ernesto Sábato
     
    "Só se pode alcançar o absoluto através da fé e do ato criador."
    Andrei Tarkovski, cineasta russo
     
    "Não há noção de liberdade a não ser pelo ato poético que nos dá a noção do Absoluto."
    Giuseppe Ungaretti
     
    "No combate bem combatido entre Homo e Mundus,
    a poesia conduz o poeta a seu nirvana especial."
    Mário Faustino
     
    "Fala-se: geografia do pensamento.
    Escreve-se para habitá-lo."
    Mariana Ianelli  
     
    December 27

    SOBREXISTIR E INSISTIR...

     
    "Vamos supor
    que a vida seja um velho que carrega flores na cabeça.

    a jovem morte está sentada num café,
    sorridente, uma moeda entre
    o indicador e o polegar.

    (falo para você "compre umas flores"
    e: "a Morte é jovem
    a vida usa calças largas
    a vida gagueja, a vida tem barbas"
    e falo pra você que se fecha no silêncio 
    "Tá vendo a Vida?
    Está lá e aqui,
    é isto ou aquilo
    ou nada ou um velho quase
    adormecido, sobre a cabeça
    flores, sempre gritando
    pra ninguém alguma coisa sobre as
    rosas e tulipas,
    sim,
    Ela vai comprar?
    os belos ramalhetes 
    - Ei, escuta,
    tá de graça")
    e meu amor lentamente respondeu acho que sim.
     
    Mas acho que vejo mais alguém ali
    uma senhora, seu nome é Depois,
    está sentada ao lado da jovem Morte,
    é bonita;
    as flores gostam dela."
    e. e. cummings
     
     
    ALGUNS
     
    Queixo-me da insistência de existir
    e da distância da vida que é um corredor
    imenso
    e tantas portas quantas coisas e traições
    onde a sorte ronda poucas
    as chaves muito tênues
    se desfazendo minuto a minuto
    entre as horas
    as demoras muitas
    entendo
    quando
    quanto tempo ainda
    o corredor a vida as portas
    brincarão
    comigo?
     
    e eu?
     
    sigo?
     

    SOBRE O QUE HÁ ATRÁS DAS JANELAS....

     
    "Não adianta procurar,
    tem coisa que não existe."
     
     
     “A vida é a vista: fiado só amanhã.”
    Nelson Ascher
     

    SOBRE OS BRINQUEDOS POÉTICOS...

     
    "Eu andei procurando retirar das palavras suas banalidades.
    Não gostava de palavra acostumada.
    E hoje gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas.
    Tenho preguiça de ser sério.
     
    Palavra: parvo; cores: o azul; fatos:
    passei a vida tentando escrever em língua de brincar.
    Minhas palavras são de meu tamanho;
    eu sou miúdo e tenho o olhar pra baixo.
    Vejo melhor o cisco.
    Minhas palavras aprenderam a gostar do cisco, isto é, da palavra cisco.
    E das coisas jogadas fora, no cisco.
    Pra ser mais correto: as coisas que moram em terreno baldio.

    É um dialeto infantil.
    Acho que passei a vida inteira brincando,
    porque todo mundo ri da minha poesia.
    Riem quando compreendem.
    Comecei a ler meus versos, são todos assim; quanto à razão,
    inclusive se você for raciocinar em cima do verso pra procurar o sentido,
    não acha a idéia, porque a linguagem apaga a idéia, a metáfora destrói qualquer idéia.
    As idéias depois, se quiserem, inventam."
    Trecho de entrevista de Manoel de Barros concedida à Revista Caros Amigos - Dez 2006
      
     
    BRINQUEDO
     
    A poesia brinca
    entre as letras
    e seus as e os e ãos
    aviões e aviãos enjaulados
    enquanto as palavras se soltam
    formando arranjos de nuvens
    de significados
    e formas diversas
    e divertidas misturas
    paródias, comédias
    e em silêncio então
    a palavra bruta
    se acalma
    se aquieta
    com a poesia
    solta no ar:
    é o brinquedo das palavras
    tocando o céu
    querendo
    rimar...
     

    SOBRE OS PRÓXIMOS POEMAS...

     
    "Comecei cedo e distante. Para escrever, despreparei-me
    desesperei: escrevo sem parar, me álibi, meu escudo
    de papel, às vezes bandeira. A letra varia, louca.
    Do garrancho apressado para pegar em flagrante
    à caligrafia medida, meditativa. Entre uma e outra
    vale-tudo - rabisco, reparo, ruína. leio em voz alta,
    gravo, escuto-me sozinho. Depois, bato, copio, amasso,
    erro, apago, rasgo, a mão, os dactilografos,
    borro o monstro, com elefantíase, apuro.
    Agora, digito, salvo, me perco, deleto, sem impressão.
    Amanhã recomeço."
    Moto Contínuo - Armando Freitas Filho
     
     
     
     
    eu quero tudo novo
    um poema novo  
    não reciclado
    nem politicamente correto
    um poema que vá direto ao assunto
    direto ao ponto
    como um soco
    direto no estômago
    um poema louco
    que pouco a pouco
    se torne
    intenso
    um poema que seja gritado tanto
    até que eu fique
    rouco
     
    December 26

    SOBRE AS ENTREDATAS...

     
    “Um poema não se vende como música,
    não se vende como quadro, como canção, ninguém dá um centavo,
    uma fava, um poema não vive além de suas palavras,
    sóis às avessas, não se vende como prosa,
    só como história ou arremedo de poema,
    não se vende como ferro-velho,
    pedaços de mangueira de um jardim,
    tambores de óleo queimado, sequer um pintassilgo,
    cantando no aterro de lixo ou na língua negra dos esgotos,
    que florescem algas, não se vende como grafite,
    não se vende como foto, vídeo ou filme de arte,
    não se vende como réplica ou post card,
    mau negociante de inutilidades,
    me tenha impregnado da praga das palavras.”
    PROSA – Régis Bonvicino
     
     
     
     
    200_7
     
    A Sagrada Escritura usou a simbologia do sete para indicar a perfeição.
    A Criação compreende sete dias.
    Jesus usou a expressão “70 X 7” para significar “sempre”.
    A Igreja Católica adota o sete e enumera os sete sacramentos, sete pecados capitais.
    A Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –
    somada aos quatro pontos cardeais, estações do ano, elementos (terra, água, ar e fogo)
    resultam em sete que é a perfeição: a soma da ordem espiritual com a ordem material.
     
    Em Iorubá, o sete é chamado de odu-odi, que significa “positivo e negativo”.
    Quer dizer, o sete é um número ambíguo. Não é positivo nem negativo.
    Para o Candomblé, o sete tem a magnitude de comprometer o presente
    e ao mesmo tempo facilitar o futuro: é uma ponte.
     
    No Islamismo o sete é mencionado diversas vezes no Alcorão e nas falas do profeta Mohamad.
    Deus criou os sete céus e as sete camadas da Terra, os sete níveis do Paraíso e do Inferno, etc
    O número sete é considerado um número moderado entre os números de um a nove,
    indica uma grande quantidade sem ser extremo, além de ser ímpar.
    E Deus é ímpar.
     
    Sete são os buracos da cabeça. Dois ouvidos, olhos, narinas e boca.
    É a parte mais importante do ser humano, por isso está acima do corpo.
    É através dela que o espírito se relaciona com o todo.
    O sete na verdade é uma síntese.
    O sete também é um número cíclico,
    acaba entrando numa relação de tempo, por isso sete dias da semana.
    O sete simboliza a arte, a capacidade do homem de imprimir alguma coisa.
    Por que o cinema é a sétima arte?
    Porque é a soma de todas as outras.
     
    O sete é o número perfeito, denota integralidade, universalidade e plenitude.
    Está relacionado com a origem dos céus e da Terra.
    Para os Adventistas do Sétimo Dia este é um memorial do tempo,
    é um presente de Deus para a humanidade,
    descansar nele é uma expressão de confiança no poder divino.
    O sábado é a alegria antecipada para a eternidade.
     
    O número sete tem um significado importante na Cabala.
    Sete é o número de braços da menorá,
    o candelabro que se transformou no símbolo mais antigo do Judaísmo.
    Além disso, o sete representa o todo, o completo,
    absoluto por ser o número de dias da semana.
    O sete é o número do shabat, o descanso semanal do povo judeu que cai no sábado.
    Desta maneira o seis representa nossas necessidades materiais
    e o sete é o símbolo do transcendente, do espiritual.
     
    Fonte: Revista SIMPLES - nov. 2006
     
    December 21

    SOBRE AS POSSIBILIDADES DA POESIA...


    "Choro contigo barco
    pela praia que deixas
    pelo sol que se deita
    longe das pedras do cais
    choro contigo barco
    ´manhã talvez não chore mais

    choro meu choro parco
    neném que a mãe não mais aleita
    choro a caça que espreita
    bem perto a mira do algoz
    choro catarinetas
    ´manhã alguém chora por nós

    choro saber que
    os açudes não são o mar
    que não se pode guardar
    em alguidares de areia
    choro o destino das sereias
    e o desatino do astrolábio
    choro saber que o homem sábio
    pode morrer se não souber nadar

    choro contigo e parto
    nas ondas vagas incertas
    as nossas velas abertas
    são ferramentas do caos
    chore comigo barco
    a sina de todos os naus"
    Barco - Chico César
     
     
    ...e por acaso
    estar sempre sensível às coisas belas
    não é nada mais
    que outra forma
    de poesia?
     

    SOBRE O SOL E OUTRAS GRANDIOSIDADES...

     
    "Não há força cega.
    cabe ao homem espreitar
    as forças e descobrir-lhes
    o itinerário."
     
    "Quando há duas criaturas, a vida é possível.
    Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la."
     
    "As operações encaradas de perto
    mostram os seus empecilhos e perigos.
    Basta começar para ver como é difícil concluir.
    Todo começo resiste.
    O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável.
    A dificuldade que se toca fere como um espinho."
     
    "À proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário."
     
    "...o crescimento da alma pelo assombro."
     
    "O pesar é nuvem e muda de forma."
     
    "Cair não é nada, é fornalha. Decair é fogo lento."
    Trechos de Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo - Tradução de Machado de Assis
     
     
    SOLSTÍCIO DE VERÃO
                                           ...Feliz Litha!
     
    que vida o pensamento
    espreita mais?
    as catedrais, os templos,
    as crenças naturais?
     
    não se contam estrelas
    assim como não se medem
    as verdades de dentro
     
    celebra-se
    a vida
    cada um a seu tempo
    ao seu modo
    e ao gosto
    de cada um
     
    e no mais
    cresce-se o assombro da alma!
     
    December 20

    SOBRE A BRINCADEIRA SEMPRE...

     
    "Todo astronauta que se preze
    Há de trazer pelo menos
    um dos anéis de Saturno
    e uma camisa de Vênus.
     
    O maior problema da solidão é preservá-la.
     
    Acho que o céu deve ser muito chato
    porque lá tem chatos de todos os séculos.
    Talvez seja melhor aqui,
    pois aqui a gente só aguenta
    os chatos da geração da gente.
     
    A linha dos sessenta,
    como a dos cinquenta ou dos quarenta anos,
    é uma linha imaginária, como a do Equador:
    o navio não dá o mínimo solavanco
    quando a gente a atravessa."
    Textos de Mário Quintana
     
     
     
     VINGANÇA
    ...a vida é uma bolha de sabão... 
     
    Eu não sou criança.
    Eu sou adolessempre:
     
    Eu adoro sorvete
    e refrigerante
    e nos dias de chuva
    as poças d'agua
    são poucas
    todas viram espelhos
    e as janelas são paisagens
    pra outros lugares
    os armários que guardavam coisas
    sempre cheios de bichos
    mudaram
    e os medos saem pra fora
    agora
    pras esquinas
    como assaltos
    insultos
    e afins
     
    ainda somos crianças
    o que mudam
    são os pontos
    de vida
    de vista hoje em dia
    todo mundo anda
    cada vez mais
    de olhos fechados
    o brinquedo que resta
    é essa estranha forma
    de levar a vida brincando
    como desforra
     
    divirta-me
    então...
     

    SOBRE O QUASE CAOS...

     
    "Yo adivino el parpadeo
    De las luces que a lo lejos
    Van marcando mi retorno...
    Son las mismas que alumbraron
    Con sus palidos reflejos
    Hondas horas de dolor..

    Y aunque no quise el regreso,
    Siempre se vuelve al primer amor..
    La vieja calle donde el eco dijo
    Tuya es su vida, tuyo es su querer,
    Bajo el burlon mirar de las estrellas
    Que con indiferencia hoy me ven volver...

    Volver... con la frente marchita,
    Las nieves del tiempo platearon mi sien...
    Sentir... que es un soplo la vida,
    Que veinte años no es nada,
    Que febril la mirada, errante en las sombras,
    Te busca y te nombra.
    Vivir... con el alma aferrada
    A un dulce recuerdo
    Que lloro otra vez...

    Tengo miedo del encuentro
    Con el pasado que vuelve
    A enfrentarse con mi vida...
    Tengo miedo de las noches
    Que pobladas de recuerdos
    Encadenan mi soñar...

    Pero el viajero que huye
    Tarde o temprano detiene su andar...
    Y aunque el olvido, que todo destruye,
    Haya matado mi vieja ilusion,
    Guardo escondida una esperanza humilde
    Que es toda la fortuna de mi corazón.

    Volver... con la frente marchita,
    Las nieves del tiempo platearon mi sien...
    Sentir... que es un soplo la vida,
    Que veinte años no es nada,
    Que febril la mirada, errante en las sombras,
    Te busca y te nombra.
    Vivir... con el alma aferrada
    A un dulce recuerdo
    Que lloro otra vez..." 
     Volver - Carlos Gardel
    Composição: Carlos Gardel, Alfredo Le Pera
     
     
     
    SE POR ACASO...
     
    Todas as vacinas
    as reparações
    e as voltas que o mundo dá
    sem respostas
    anagramas
    teorias
    o caos chama
    quando alguma coisa se organiza?
    a língua e o lábio
    o marujo e o astrolábio
    o mar e as nuvens
    sins, nãos e porquês...
    relações
    e humanas conclusões
    não se prepara uma ilusão
    ou uma surpresa
    de modo
    aleatório
    a vida
    com o que se brinca
    se chama caos
    ou é mesmo
    destino?
     
    December 19

    SOBRE TODAS AS COISAS VERMELHAS...

     
    "É crua a vida. Alça de tripa e metal.
    Nela despenco: pedra mórula ferida.
    É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
    Como-a no livor da língua
    Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
    No estreito-pouco
    Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
    Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
    E perambulamos de coturno pela rua
    Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
    A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
    E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
    Olho d’água, bebida.
    A vida é líquida."
    Hilda Hilst - Alcoólicas (Trecho)
     
     
     
    VERMELHO
     
    Regra número um: vermelho
    É a cor do sexo
    do medo
    do perigo
    e das placas que dizem
    “proibido entrar”
     
    Todas as minhas coisas favoritas
    da vida
    são vermelhas.
     
    E vermelho não é confortável
    assim como
    sexo não é confortável
     
    o que vem do vermelho
    fogo
    sangue
    quente
    e a paixão
    são vermelhas
    e líquidas
    mas não certas
     
    pare
    e
    aproveite:
     
    queime!

    SOBRE AS IMAGENS E AS MENSAGENS...

     
    "perco pedaços de palavras
    entre cervejas

    amendoins
    e anedotas

    anotar o mundo:

    poema
    da menina
    do meu olho:

    inquieto."

    POSTAIS
     
    De onde são as fotos
    as imagens
    e as paisagens
    colocadas nos postais?
     
    De onde vem essas mensagens
    fotografadas e
    manipuladas
    pela exatidão das lentes
    de outros olhos?
     
    E os olhos dos outros
    por acaso
    dizem mais
    que os da gente?

    SOBRE O AZUL E OS BLUES...

     
     "Falta enviar uma carta. uma árvore escrita
    que ponha um final concreto a esta chuva de
    relâmpagos. e a carta será escrita,
    a árvore derrubada, o coração liberto."
    Frederico Mira George

    Little Blue Butterfly
     
    Talvez a gente tenha que fingir saber
    o que estamos fazendo
    talvez a gente não saiba a saída
    ou a entrada é só uma coisa que está escondida
    ou na porta ao lado
    na ponta da praia
    da rua
    ou dentro
     
    Por vários dias
    procuramos no meio das palavras
    a explicação para as coisas que sangram
    - faz tempo que as palavras sangram
    e o que se encontra
    é sempre o verso
    o inverso
    do que se pensava
    que tinha
     
    e as palavras são poucas na explicação
     
    o que anda rondando o corpo/coração
    é uma alegria
    que não desiste
    e pensa
    pensa
    pensa
    pensa
    que engana
    mas no fundo mesmo
    ela é
    triste
     
    isso tudo são como
    as pequenas borboletas azuis
    aladas
    inexistentes
    que povoam a memória das coisas
    a memória triste das coisas
    o que foi guardado
    reservado
    esquecido
    o que precisa ser esquecido
    porque dói
    assusta
    ou afasta
     
    um dia ela vai  ser crisalidamente
    ousada
    e escapar
    voando
    nas suas asas azuis
    de novo
     
    livre
     

    SOBRE O AMOR A TEMPO...

     
    "Nunca temos tempo.
    Para ser e até para não ser.
    Para arrumar ou desarrumar.
    Arrumar ou desarrumar a gente mesmo.
     
    Nunca temos tempo.
    Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações.
    O tempo de férias não conta, é um templo planejado,
    que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espontânea inquietação.

    Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar.
    Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar.
    Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça.
    Diversão termina rápido.
    Minha boca é um relógio de corda.

    Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo.
    Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso.
    Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não.
    Eu desmarco, não nego nada.
    O constrangimento de cancelar algo me transtorna.
    Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos.
    Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também.

    Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado.
    Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo.
    Tudo é adiado.
    A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas.
    As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar,
    ensaiar e aguardar perfumado o encontro.
    Passar as roupas é uma necessidade.
    Os vincos são desafiados com inusitada paciência.
    Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários.
    Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso.
    O trabalho passa violentamente rápido.
    Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger,
    o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever.
    Cada um assume uma condição noturna, intermitente,
    o olhar abobado e a vontade excessiva.
    A imaginação pára a escrita em um só nome.

    Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se.
    Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma.
    Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado.
    O que pode dar errado já aconteceu antes.
    Dentro do tempo. "
    Fabrício Carpinejar
     
     
    E ÉRAMOS...
     
    éramos dois.
    ponteiros.
    num relógio só.
    dois para um. luta desigual.
    marcávamos as horas, claro.
    marcávamos o tempo e o que restava dele.
    éramos dois.
    ponteiros.
    num relógio só. um dia percebemos.
    estávamos presos por um arame a um maquinismo.
    que deixou de funcionar.
    um.
    dia.
    percebemos.
    nada pode acontecer antes do momento em que acontece.

    Frederico Mira George - Adaptado
     

    SOBRE AS CASAS E OS ACASOS...

     
    "Guardar mágoa é como tomar veneno
    e esperar que o outro morra".
    W.S.

    CASA

    Onde se nasce
    Onde se cresce
    Onde se perde
    Onde se acaba
     
    December 14

    SOBRE AS PALAVRAS E UM RESTO DE AMOR...

     
    "São como um cristal,
    as palavras.
    Algumas, um punhal,
    um incêndio.
    Outras,
    orvalho apenas.

    Secretas vêm, cheias de memória.
    Inseguras navegam:
    barcos ou beijos,
    as águas estremecem.

    Desamparadas, inocentes,
    leves.
    Tecidas são de luz
    e são a noite.
    E mesmo pálidas
    verdes paraísos lembram ainda.

    Quem as escuta? Quem
    as recolhe, assim,
    cruéis, desfeitas,
    nas suas conchas puras?"
    Eugénio de Andrade
     
                                                                           não sei porquê Mondrian
     
    O MAIS 
     
    o mais difícil/
    tem o mais leve/
    tem o mais bonito/
    tem o mais longo dos dias/
    tem o mais breve/
    o mais alegre/
    o amor de quem se entregue/
    até então o mundo a face vire/
    vira fácil/
    muito fácil/
    sendo todo o mundo/
    o mais antigo/
    único sentido/
    amor.
     
    December 12

    SOBRE OS EXCESSOS E A POESIA...

     
    "Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei:
    embebede-se.
    E se ele me disser que o seu figado sofre com isso respondo:
    o que é o seu figado?
    É uma coisa morta que vive enquanto você vive,
    e os poemas que escrever vivem sem enquanto."
    Fernando Pessoa
     
     
    ARTEFATO
     
    ...e todo bêbado / 
    sempre tolo /
    não tem ciência / 
    e apaga o interruptor / 
    da consciência.
     

    SOBRE VIDA E RAIVA...

     
    "O que é entristecível, continuará,
    o que é risível, deleitoso, também.
    Continuará a vida, repetitiva.
    Novíssima continuará a vida.
    Só vida. Nua. Vida."
    Um Bom Motivo : Adélia Prado
     
     
     
     
    SE MUITA RAIVA...
     
    O ódio não tem graça nenhuma
    nas ruas, estradas
    nas praças
    não escapa
    o ódio
    não espaça
    os dias
    o ódio
    estraga
    a forma
    deforma
    cara
    coração
    clareza
    razão
    das coisas
    o ódio
    cria
    e mata
    o ódio
    não acata ordens
    só desordens
    o ódio
    não sabe de si
    nunca se viu
    não reconhece
    nem conhece
    e vice-versa
    o ódio
    acaba o tezão
    e esquece
    o coração
    o ódio
    se cerca
    de arame farpado
    cerca de arame armado
    que fere
    o ódio
    acaba com tudo
    vida ou não
    o ódio
    não deixa
    nenhum
    perdão.
     
    December 11

    SOBRE LIVROS E PENSAMENTOS...

     
    "Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil
    Domá-los, cultivá-los em aquários / Em estantes, gaiolas, em fogueiras
    Ou lançá-los pra fora das janelas / Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
    Ou o que é muito pior por odiarmo-los / Podemos simplesmente escrever um:
    Encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras."
    (Caetano Veloso)
     
     
     
    "Você é mais cerebral..."
    um amigo disse
     
    o que sai do cérebro
    o que pensa
    tudo sente
    irremediavelmente
     
    a cabeça
    quente
    pensa demais
    em tudo
     
    faz um estudo
    armado
    da vida
    e
    prepara campos de visão
    e sempre uma opinião
    diferente
     
    arranja filosofias
    a prepara linguas
    e táticas
    para discussões
    futuras
    ou outras
    agruras
     
    a cabeça
    cérebro
    pensa demais
    em tudo
     
    e onde o ser cerebral
    vive
    dentro
    da gente?