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    December 13

    SOBRE COMO DAR UM JEITO NA VIDA...

     

    "Se eu morrer amanhã que se salve a poesia ou que me salve a poesia e não estarei morto amanhã.

    Minha voz e as letras - como é preciso o encaixe das palavras – que dão sentido e, na busca,

    o encontro do que é estético ético do que é sintonia.

    Não vaguei neste mundo besta à toa, se bem que é bom vadiar. Vadiei.

    Se na volta da mesa toalha de cânhamo

    e vaso deixei vagar pensamentos e cheiro e sabor: como gosto de você.

    E procurei ajudar outros vadios, em precisão maior que a minha, pois há retorno na camaradagem.

    Sou de um grupo de semente vândala, de esparramante coração.

    Assumido vagabundo. Sinto falta de você. E lá se vão anos e gente de todas as vidas.

    Vi venderem a peso de ouro copeques sem valor.

    Fui passado para trás com um sorriso vago. Era vantagem.

    Vendo o sorriso vago de quem vendia. Não sou vítima.

    E cada disso com sentido: eu amo ser humano que se aventura...

    contudo vem agora canseira do vago, ventrílocos, vociferação.

    Já sinto sono no meio da volta. Este teatro eu vi ontem.

    E não que valha apenas o versado.

    Mas vai chegando a velhice e devagar cedo ao vigor do vento.

    Continuo amando o que é verde...ver-te vou indo ver."
    Verde - Guilherme Zarvos

    tem outro jeito?

     

    como você vai?

    como vão as suas coisas?

    como vão seus dias, horas, anos e as coisas que te fazem falta?

    e as coisas que te doem na alma?

    as coisas esquecidas

    as coisas do fundo do fundo do fundo da memória

    aquelas que são tão boas que doem de lembrar

    é o que faz a saudade acordar

    verdade

    verdade

    não precisa ter bola de  cristal pra inspirar

    deu vontade de fazer e eu fiz

    não diga que o que é espontâneo e de coração é erro

    erro é não se inspirar

    e não reclama...eu te ligo...eu importo...eu bati na sua porta

    mesmo sabendo que pode ser que sem você eu não volto.

    pode ser que não aconteça nada, pode ser um bumerangue,

    pode ser só um instante, o importante é que eu tentei...

    mesmo o seu silêncio, mesmo sem sua letra faço minha canção.

    o que importa é perceber que eu ainda sinto alguma coisa

    mesmo que não me venha medo, amor ou emoção.

    mas o que ainda vejo, o que tento e espero,

    é tirar do seu peito alguma coisa semente,

    alguma coisa que mostre que a gente ainda é gente e de repente pode se encontrar

    e a ter um ao outro e até quem sabe se apaixonar.

    me deixa. é como canção que vai saindo de lugar algum sem eu saber.

    é vento frio de manhã, é calor de beira da praia, é natural, é sol e sal,

    é a vida que eu sinto dentro, é poesia e não é lamento.

    entenda o inevitável. o tempo inesgotável dentro das cidades.

    nossas idades se confundindo. a coisa toda em possibilidades.

    nas histórias nos lugares. alguma coisa de mudança se espera que aconteça.

    e você aí quieto de coração fechado ainda não sabe. 

    é a verdade. o que acontece aqui fora é muito especial.

    se você fecha a porta acaba tudo.

    fica nada e sem nenhuma felicidade...

     

    é isso...

    December 11

    SOBRE O TEMPO E O HOMEM COMUM...

     
    "Eu sou um homem comum
    de carne e de memória
    de osso e de esquecimento"
    (Homem comum - Ferreira Gullar)
     
     
      VELOC-IDADES

     

    Meu pai morreu de infarto - rápido.

    Minha mãe morreu de câncer - rápido.
    Muita gente já morreu

    ou rápido ou devagar.

    Muita gente desapareceu

    ou rápido ou devagar.

     

    Os irmãos sumiram no mundo
    ou submundo
    com ou sem explicação.


    Teve gente que nunca mais falou comigo
    e, para alguns,
    sou só um fantasma do passado.

     

    E assim a gente percebe

    o velho dentro da gente.

     

    Vejo muita coisa já voando
    e nem um pássaro na mão.

     

    Escrito e adaptado a partir de poema de Ângela Melim

    Do livro Possibilidades, Rio de Janeiro, agosto de 2006
     

    December 05

    SOBRE AS NOVAS FORMAS DE SE JOGAR...

     
    "A reserva que um ovo inspira
    é de espécie bastante rara:
    é a que se sente ante um revólver
    e não se sente ante uma bala.

    É a que se sente ante essas coisas
    que conservando outras guardadas
    ameaçam mais com disparar
    do que com a coisa que disparam. "

    João Cabral de Melo Neto
     
     
    GAMES
     
    Um quase ganhar de alegria
    Um quase estar perto de ter
    Um quase amor
    Um quase encontro
     
    Jogos e murmúrios por baixo das mesas
    olhares fartos e furtivos
    em bares e lugares alguns
    e por baixo das coisas
    a duras penas
    as pernas se cruzam
    tentando disfarçar
    os sentidos roubados
     
    e criaremos outras formas
    outras regras
    outros jogos
    outras cenas
     
    Os dados, as torres, as cartas dadas
    sempre outra vez até o quase
    e um dia então
    acontece:
    o jogo acaba.
     
    Ganho
    ou morro
    jogando...
     

    SOBRE SONHOS & POESIA...

     
    "1.
    em terra de profetas
    quem se cala
    é o poeta

    2.
    porque houve auschwitz
    porque o caos é aqui

    porque a palavra consola
    porque há tantos brasis
     
    porque arte é ordem
    escrevo e sou gris

    3.
    entre a expressão
    (banal)
    e a invenção
    (genial)

    fico com a impressão

    invento
    no leitor
    a expressão
    do meu horror

    imprima-se"
     
    O P.S. - FREDERICO BARBOSA- (in Louco no oco sem beiras, São Paulo, Ateliê, 2001)
     
     
     
     
    IN-SANO
     
    Sonho
    que sou um louco solar insano
    (com o sol dentro de casa)
    de portas abertas
    de portas inversas.
     
    Ao contrário
    entro pelas portas fechadas
    e travo nas abertas.
      
    No sono insano
    os sonhos
    atravessam até as portas
    por mim...
     
     
    December 03

    SOBRE O QUE É SER E O NADA DENTRO...

     
    "Bombordo
    aroma
    de rosas
    azuis

    Estibordo
    o corpo
    suspira
    espiral

    Acima
    o lume
    do teu olho
    em mar escuro
    o leme
    do teu olho

    astro-
    lábios."
    Navegação - Adalberto Muller
     
     
     
     
    FECHO
     
    O que passa em falta
    não se sente mais a falta como antes
    as portas não se abrem mais
    fechos cerrados
    todos os meios
    lacrados e sem sentimentos
     
    nenhuma comoção
    nada de emoção
     
    agora
    é o tempo do quê?
     
    esperar o quê?
    quando
    como
    se tudo o que está dentro
    vazio está como um corpo
    morto
    procurando vida
     
    procura-se
    outra vez a mesma coisa
    outra vida
    que comece tudo de novo
    com outra
    história
    surpresa
    ou emoção
     
    ou quem sabe apenas
    um
    talvez?
     
    December 01

    SOBRE CONHECIMENTO E CASTIDADE...

     

    "Ser casto é conhecer todas as possibilidades sem se perder nelas."

    je vous salue, marie