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    March 31

    PRIMEIRAS BRINCADEIRAS...

    “A vida levada a sério é o brinquedo dos adultos.”
    Karl Kraus
     
     
    CUIDADO.COM
    Para meu sobrinho Vítor
     
    Cuidado com o pé descalço
    no chão.
    Cuidado com a mão.
    Cuidado com o olhar do outro
    que se diz esperto.
    Cuidado com a escuridão.
    Cuidado com o toque.
    Cuidado com a falta.
    Cuidado com o excesso.
    Cuidado com a sorte.
    Cuidado com a vida
    que ninguém
    é de morte.
    Cuidado com o tempo
    que anda muito rápido
    igual pé-de-vento.
    Cuidado com o amor
    que sem o cuidado certo
    pode virar
    a maior
    dor.
    Cuidado com o medo
    que se não controlado
    pode virar um filme
    de horror.
    E por fim
    cuidado
    comigo
    que sou seu amigo
    porque
    amigo
    é o maior cuidado
    que eu tenho
    contigo.

    ARGUMENTOS INVISÍVEIS...

    “Estas crianças
    estão assinando a vida
    com dedos de imaginação.”
    Júlio Carvalho

     

     
    ATOS DOS HOMENS
    Antevendo o filme “Crianças Invisíveis”
     
    Olha bem uma sombra
    na cidade já feita
    que não é mais criança.
    São crianças visíveis –
    gente que estende a mão
    nos faróis
    dormindo em lençóis
    no meio das ruas
    aspirando fumaça e drogas de vida
    quase todas iguais
    nuas.
    Enquanto isso se escreve tanto
    e não se pára pensando
    na indiferença dos olhos
    que não querem ver
    e que talvez seja
    o que as deixa assim
    sem saber.
    Estas crianças
    que não entendem palavras
    como corporativismo
    mais-valia
    corrupção
    venda de ideais
    ganância
    venda da alma
    desilusão...
    Palavras criadas
    por homens crescidos,
    palavras nunca visíveis
    nos seus cadernos invisíveis
    dessas crianças
    deixadas à deriva da vida
    longe nas suas
    cidades-ilha.
    A infância
    ainda anda
    engatinhando
    em certos lugares
    sem nenhuma
    alternativa.
    March 30

    MAPEAMENTOS...

    "Onde se destrói o mundo em que vivo
    Aí estou
    Onde há destruição, aí se define o meu caminho
    Onde os deuses se desmoronam é que apareço sem rosto.
    Atrás de suas formas feitas de noite e de medo
    Onde se morre, onde se nasce
    Onde se morre é que eu renasço".
    Enredo - Moacir Félix
     
     
     
    MUNDI
     
    O mapa
    onde olho
    cada país
    um estado meu.
    Agora
    meus
    desenvolvidos
    estados unidos
    outros
    emergentes
    como chinas e brasis
    pobres áfricas
    tristes afegãos
    muitas guerras
    e tanta gente jogada
    no chão
    por causa de dinheiro
    e religião.
    Sou um mundo bom às vezes
    e imundo mal em outras.
    Inundo tudo
    de mares
    negros, às vezes...
    Em outras
    padeço de terremotos.
    Não crio tempestades
    em copos dágua
    mas provoco maremotos
    inteiros
    em minhas ilhas
    internas.
    Furacões de muitos nomes
    se acumulam em terras
    que eu preciso decifrar
    e todo dia
    em cada parte minha
    tenho florestas
    quase poucas
    em áreas preservadas
    isoladas
    que eu cuido
    sempre
    ecologicamente.
      
    O problema são as pessoas
    que me povoam por dentro
    e que fazem muitos os meus povos
    e tenho que cuidar de todos
    cada um
    de uma forma
    separada
    e humanamente
    diferente.
     
    Então,
    tento tanto
    quanto difícil
    é quando
    administro minhas guerras e batalhas
    separadamente.

    A FALÊNCIA DAS PALAVRAS...

    Melancolia: palavra mais antiga, que alude a figuras atormentadas, a poetas românticos e filósofos existencialistas, a melancolia parece expressar, com mais precisão, os sentimentos que atordoam algumas pessoas. Palavra mais literária, que aponta para um sofrimento mais difuso, e que remete menos a uma doença específica, e mais ao mal de viver. Procuro me deter na idéia do vazio, que talvez explique as dificuldades que os poetas e escritores sentem algumas vezes para escrever. Dificuldades que aliadas aos problemas pessoais, dizem respeito, mais que isso, à experiência da ausência, ou mesmo da falência das palavras.”
    Trecho adaptado do livro Diário de Tudo de José Castello publicado no Jornal
    O Estado de São Paulo – 30/03/2006

     

     

    CORPO DE VIDRO
     
    Por pouco
    tantos deuses em mim
    e um só demônio
    me persegue.
    O sentido do olhar
    é uma tangente.
    Um olhar torto
    e distante,
    um cais de porto,
    água parada,
    silêncio...
    Um tanto cansado
    de muitas
    palavras
    sem resultado
    e um sentimento
    impróprio
    de como quem se vê
    estranho
    de fora.
    Tudo fica
    cada vez
    muito mais longe
    e nem se pode chamar
    de tristeza.
    Porque
    nessas horas
    tudo
    precisa
    de
    muita
    delicadeza.
    March 29

    PELOS MEUS CÁLCULOS...

    "Por que escrevo?
    Porque sou
    pouca e mínima
    embora vária.
    Porque não me basto,
    escrevo
    para compensar
    a falta.
    Porque não quero ser
    só raiz e haste
    e preciso do outro
    para dar sombra e fruto."
    Olga Savary
     
     
    NÚMEROS
     
    Vivo no século vinte e um
    Vim do século vinte
    e tenho quarenta e um
    Minha aritmética
    não é tão grande coisa
    quanto minha arte
    poética.
    Minha rima
    não é sempre
    simétrica.
    Escrevo solto
    e muitas vezes
    não tenho tempo
    para tanta
    estética.
    E afinal
    a poesia
    não precisa de temas tão longos
    podendo ser
    mais simples
    como vida, tempo,
    amor e morte.
    O que não pode
    a poesia
    é ser coisa
    calculada
    sem nenhum
    envolvimento
    e sem nenhuma sorte
    como se
    fosse
    pura
    matemática.

    PELAS MINHAS METADES...

    "Vou te pedir:
    deixa-me intranquilo
    vivo como um oceano intratável
    e me custa muito o silêncio".
    Pablo Neruda
     
     
    50%
     
    Eu prefiro viver
    em busca de ser poemas
    entre meios
    meio termo
    meio medo
    meio gozo
    meio verdade
    meio mentira
    meio homem
    meio mulher
    meio revolucionário
    meio reacionário
    meio vivendo
    meio desvivendo
    meio raiva
    meio amor
    meio tudo
    meio a meio
    quase nada
    - antes tudo meio do que tudo nada
    antes fosse toda essa
    espera e demora
    - mas isso já é outra história!
    antes que os pássaros
    da minha memória
    voem
    para
    longe
    agora...

    MUITO TEMPO...

    "Toda solidão
    é sempre
    sobra
    de uma profunda
    falta
    de
    inspiração."
    Júlio Carvalho
     
     
    TEMPORARIUM
     
    A palavra está cruzada
    sem inspiração
    hoje triste aconteço fico
    prisioneiro do tempo
    adentro
    palácios de cristal
    de intactos silêncios
    com olhos de assombração
    olhando pelas frestas
    das portas
    assustando as horas lentas
    agarradas às paredes
    e espantando as palavras
    que escapam dos textos
    e somem noite noite adentro
    aumentando a solidão
    e deixando
    o que fica
    mal acabado
    então
    são só os escritos
    é só a sobra
    do que resta da
    pouca-alguma-quase-nada
    inspiração
    que de forma tosca e rouca
    é a única hora angustiante agora
    que se tem
    como
    opção.
    March 28

    A ESMOS...

    "só
    bebo
    à
    poesia sem placebo
    clareza de cristal
    dureza de rochedo
    mídia sem média sem medo
    da contramão da vida
    ao beco sem saída
    sentir o
    so
    ss
    os
    ouvir as pedras
    quebrar os espelhos
    até o último round
    o último suspiro
    se eu cair (pound)
    não caio de joelhos."
    Augusto de Campos

     

     

     

    "Já te despedes de mim, Hora
    Teu golpe de asa é o meu açoite
    Só: da boca o que faço agora?
    Que faço do dia, da hora, da noite?
    Sem paz, sem amor, sem teto
    caminho pela vida afora
    Tudo aquilo em que ponho afeto
    fica mais rico e me devora."
    O Poeta - Raine Maria Rilke

      

     

    “Serão as afeições
    como as vidas
    que não há mais certo
    sinal de terem de
    durar pouco que
    terem durado muito.”
    Pe. Antônio Vieira

       

    “Penetra surdamente no reino das palavras.”
    Carlos Drummond de Andrade

    PASSANDO POR AQUI...

    "Nada como um dia atrás do novo."
    Carlos Ávila - In Bissexto Sentido
     
                                                                                                                                         in Diário de Um Mago
    PRÉ-PASSOS
     
    As coisas do infinito -
    paralelos não são riscos
    e o que se corre
    não é só no caminho
    Algumas pernas
    estão bem cansadas
    e outras não pisam mais 
    com pés
    que já são quase
    levados
    e anda tudo quase longe
    e o que se deixa
    quase foge
    da linha torpe
    que no horizonte
    some
    Mas não se desiste não
    e ainda se anda
    até onde vai
    a manhã
    inda que seja noite
    quase morrendo
    porque se sabe
    que todo escuro
    tem alguma luz
    dentro...
    March 27

    PERGUNTA!?!

     
    Pergunta-se...
     
     
     
     
     
    DESEJO UM
     
    Eu quero trepar, gozar
    e matar o meu amor às cinco horas da manhã
    cortando os pulsos dessa culpa
    que é coisa
    religiosamente
    obrigatória:
    a maior estraga prazeres da história
    que me fez insone
    e de olhos bem abertos
    até essa hora.

    IMPRESSÕES...

    “O que amo em minha loucura
    é que ela me protege
    contra vários tipos de seduções”.
    Jean-Paul Sartre.

     

     

    UTILITÁRIO
     
    Para alguma coisa
    deve servir
    essa dor que
    estou sentindo
    Talvez para que se perceba
    que aqui não seja
    meu lugar à mesa
    nos jantares expostos
    das ocasiões familiares
    formais...
    Talvez meu lugar
    seja em outros espaços
    e as famílias sejam outras.
    Os lugares estão poucos.
    Estão ficando escassos
    e por mais que se resista
    sinto que essa dor insista
    e teima em mostrar sua razão
    senão para quê serviria
    toda dor que aparece
    senão como aviso
    de tudo errado
    que acontece?
     
    Algumas vezes
    realmente
    nada é
    como se
    parece.

    A SOLUÇÃO DE USO ORAL...

    “A essência da doença é tão obscura, como a essência da vida”.
    Novalis - Nome literário de Georg Friedrich Philipp von Hardenherg (1772 - 1801). Poeta excepcional, um dos maiores escritores alemães.
    "Hino para a noite" reúne seis poemas de sua autoria
    que marcaram a fundação do Romantismo. Fonte: Provocações.

     

     

     

    A CURA DAS IDÉIAS
     
    Às vezes faço poesia como alívio.
    Um certo analgésico
    de dores do corpo e da alma.
    Um remédio
    para o que  não está arranjado
    do lado de fora.
    É um rearranjo das coisas de dentro.
    De falas e silêncios
    que não foram postos em prática.
    E sei e entendo que nunca farei o mundo do jeito que quero.
    Nunca.
    Mas continuo espalhando versos
    plenos de minha revolta
    intensa
    até que se venha
    essa cura prescrita
    da minha
    doença.
     
    Cada um não fala tudo
    mas pode escrever
    o que pensa.

    OUTRA LÍNGUA...

    “A língua é o fogo.
    A língua é o fogo de artifício.
    Artífice
    do povo.”
    Júlio Carvalho
     

     
    PROCESSO
     
    Escrever
    Montar
    Pensar
    Desreprimir
    Desenvolver
    Amar
    Corrigir
    Confiar
    Seqüestrar
    Publicar
    Ler
    Gostar
    Emocionar...
    March 26

    OS MODOS CALADOS...

    "...é por isso que eu me lembro e meu peito chora.
    Está faltando muita coisa ainda para a gente cantar.
    A gente lembra das coisas e me dá vontade de chorar.
    Mas como é que chora? Só sai uma água pouca dos olhos..."
    Fala de Índio – Adaptado por Júlio Carvalho

     
     
    O POEMA MUDO
     
    Categorias de silêncio:
    Silêncio amoroso
    Silêncio poético
    Silêncio vergonhoso
    Silêncio entediado
    Silêncio triste
    Silêncio inocente
    Silêncio culpado
    Silêncio acusado
    Silêncio simples
    Silêncio composto
    quando é de mais de um...
     
    Existem
    silêncios de todos os tipos.
    Silêncios gota a gota
    mesmo nos dias de chuva
    quando
    os homens não se falam direito
    mantendo
    um silêncio perfeito.
    Nos dias de sol
    usam outras desculpas
    e usam silêncios
    esfarrapados
    e muitos se sentem
    obrigados
    a ficar
    de costas
    com seus silêncios
    amordaçados.
     
    De quantos silêncios são feitos a vida?
    Na sequência dos silêncios até o último silêncio
    (o mais profundo)
    o silêncio que cala tudo o mais
    o maior silêncio de todos
    e que acaba
    na morte
    de todo
    mundo.

    PALAVRA & IDIOMA...

    “A palavra e a terra
    tudo é teu que enuncias.
    Toda forma nasce uma segunda vez
    e torna infinitamente a nascer.
    E a palavra um ser esquecido de quem o criou;
    flutua reparte-se em signos
    para incluir-se no semblante do mundo.
    O nome é bem mais do que nome: o além-da-coisa,
    coisa livre de coisa, circulando...
    E a terra, palavra espacial, tatuada de sonhos,
    cálculos...”
    Carlos Drummond de Andrade - Lição de Coisas

     

     

    BEIJO DE LÍNGUA
     
    Passei o dia todo com a língua solta
    encostada nas palavras
    lambendo...
    Engostando palavras novas.
    O silêncio era só do corpo
    e a minha postura
    e compostura
    era de alguma coisa próxima.
    Alguma coisa que falava.
    Alguma coisa que falava
    bem.
    Colocava
    letra por letra com letra
    com eira e com beira
    nessa língua inteira
    que faz-desfaz-enfeita
    frase
    ou algum livro de cabeceira.
    E monta histórias,
    poesias...
    Ensina o be-a-bá
    todo dia
    nas escolas da rua
    e nas coisas da vida.
    E sempre muda
    toda hora
    em toda gíria
    toda
    palavra nova inventada.
    A língua é falada toda agora
    e transformada arte
    em prosa artista coisa poesia
    que descobre
    o que o poeta tem com a língua
    é a arte encarcerada
    que com as palavras
    vira língua solta
    e a poesia
    vira palavra
    escancarada.

    ENTREMENTES...

    "Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca,
    jamais discutiria, jamais faria sofrer.
    Mas ele ainda não aprendeu nada.
    Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias
    são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva.
    Ninguém absolutamente sabe amar.
    D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio.
    Amigos, o amor é um eterno recomeçar.
    Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último.
    E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo
    – porque sempre há de amar errado."
    Nelson Rodrigues – Juízo Final - trecho de Morrer Com o Ser Amado.
     

                                                                                                      www.museudalinguaportuguesa.org.br

     

    SEPARAÇÕES
     
    Há homens que são sílabas
    e separam as coisas
    e se isolam.
    Criam hífens
    entre as pessoas
    como se fosse direito
    todo
    pre-con-cei-to.
     
    Há homens que segregam homens,
    embustem,
    escondem...
    Usam sua sombra
    própria
    para encobrir verdades
    e escondendo-a até
    com
    na-tu-ra-li-da-de.
     
    Há homens que são pedaços
    de homens já despedaçados.
    Só olham para o seu próprio
    um
    bi
    go
    separando-se até
    da
    fe-li-ci-da-de.
     
    Há homens que só dizem
    eu
    e são distantes
    esquecem
    que existem outras pessoas
    que são também
    im-por-tan-tes.
     

    QUASE INSANO...

    "Todos estão loucos neste mundo?
    Porque a cabeça da gente é uma só,
    e as coisas que há e que estão para haver
    são demais de muitas, muito maiores diferentes,
    e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça,
    para o total."
    João Guimarães Rosa - TOTAL
     
     
     
    TRÊS INSANOS
     
    Um
    Acho que pessoas criativas são loucas.
    Há milhares de escritores e artistas.
    Para muitos deles, o sonho nunca se realizará.
    Tem de se ser louco para que as coisas
    aconteçam.
     
    Dois
    A verdade liberta.
    Mas também pode enlouquecer.
    Escolha.
     
    Três
    Há coisas que tenho de pouco.
    Há coisas que tenho eu muito
    de louco.
    March 23

    O TEMPO TODO...

    "O tempo o tempo o tempo
    Eterno eterno eterno
    Relogicamente
    um tic-tac
    único..."
    Julio Carvalho
     
     
    ETERNAMENTE
     
    O relógio indica agora
    mas o que é que indica
    o resto do tempo?
    O que é eterno não tem ponteiros
    e as horas são poços
    onde os baldes
    não atingem o fundo.
    As estações
    são todas nas horas incertas
    todo verão vira inverno
    desde que primaveras
    sejam as folhas do outono.
    O que fica ontem
    hoje será amanhã
    completamente.
    As juventudes são categóricas
    e o que ficaria velho
    já não existe mais.
    As datas são paradas
    muito desnecessárias
    lugares distantes
    como os horizontes.
    Os anos são casas velhas
    com portas escancaradas
    e de janelas vazias
    e escadas desajeitadas.
    Nas eternidades
    o tempo abraça forte
    e toda história
    é uma só
    de repente
    tudo fica
    era uma vez
    e todos são felizes
    para sempre.
    March 22

    TEXTO, EXÍLIO OU EXIT?

    "Mas que dominar las cosas
    y los sentimientos
    abandonarse a ellos."
    Carlos Ávila - In Bissexto Sentido
     
     
    Carlos Ávila - In Bissexto Sentido
     
     

    "ISMOS"....

    "Não quero ser o poeta de mil poemas
    o poeta de cem poemas
    sim
    o poeta sem poemas
    virar as costas ao sol
    das letras
    dar de ombros quando ouvir falar
    no livro de fulano
    nos contos de sicrano
    nos beltranos beletristas
    beletristes
     
    e se me perguntam
    mas o que você faz
    você se interessa pelo quê?
    faço de desentendido
    entendendo tudo
    e não digo nada
    ou então
    louco de raiva
    ouso pronunciar rouco
    duas sílabas:
    VI-DA
    e basta!
     
    concursos prêmios suplementos
    movimentos que não movem nada
    a gorda glória
    a fama fácil
    difícil é ser
    verbo que ninguém conjuga mais
    poesia subentende vida
    para que sobreviva."
    Carlos Ávila - In Bissexto Sentido

     

    A LÍNGUA NÃO É SÓ FALA
     
    A língua não é a da boca
    pouca coisa fica com ela
    quando a fala
    diz
    a língua não pára
    faz da palavra
    limpa e clara
    voz
    que dispara
    diz que a língua
    é algo
    que não
    é só de
    palavra
    língua é voz
    movimento
    e qualquer coisa
    que significa
    símbolo
    tarja
    ícone
    signo
    toda coisa que não
    cala 
    a língua é um experimento
     
    a língua não é arma
    a língua não separa
    a língua não é coisa que se instala
    só quando
    cada vez que uma pessoa
    fala.

     

    P.S.

    Poesia:
    interferência na forma de comer beber respirar falar
    Julio Carvalho - Adaptado de Carlos Ávila