| Julio's profileANIMUS VIVENDIPhotosBlogLists | Help |
|
March 31 SOBRE EXPOSIÇÕES E MEDOS DE NOVO..."O que acontece em torno da AIDS, nesse sentido, pode ser considerado
como um analisador paradigmático da resistência da nossa cultura
a toda espécie de contaminação, ou seja, resistência a uma efetiva exposição ao outro.
Uma ambigüidade que mistura e confunde contaminação por afetos,
valores, sentidos, etc, com contaminação pelo vírus.
O medo de uma instabilidade subjetiva por identificação com o contaminado,
misturado ao medo de uma instabilidade orgânica trazida pelo contágio que pode levar à morte,
é o que passa a justificar o evitamento de toda e qualquer relação efetiva com os portadores do HIV"
Paulo Lima Buenoz
REAÇÃO
Meu Deus
me salve de corpo e alma
mantenha minha calma
de pele e rosto
meu gosto de vida
e me deixe longe da aridez
do conformismo.
Meu Deus
me ponha de fora
do amargo dos outros
e de outros amargos
(inclusive os meus).
Me salve das longas ausências
e das saudades desnecessárias
demais.
Me salve do medo do outro
e do outro com medo
me salve da raiva
me salve da mágoa
me salve da falta
do ponto de vista
que nunca se avista
do olho vazio
e do ouvido cheio
demais
me salve
das muitas palavras
sem nenhum lugar
me salve das coisas urgentes
sem tempo para serem pensadas
do ato triste e vazio
do medo (de novo)
por nada.
Me salve da casa vazia
comida vazia
palavra vazia
pessoa vazia
vazia a vida.
Me salve do nada
do ser sem saber direito
do soco do outro direto
no peito
(o mundo anda sem jeito).
Me salve do choro sem causa nenhuma
do lodo, do logro, do engano
do nu, da falta de pano
cobrindo as sem-vergonhices
da vida, do erro, do imperfeito
deixe-me com todos os contrários
do que peço ser salvo.
Deixe-me inteiro,
me endireita, me arruma, me afasta
sem precisar
de qualquer outra
coisa ruim
que venha
contaminar.
March 29 SOBRE UMA OUTRA RAZÃO..."Ah, se as crianças fossem alfabetizadas através da poesia...
O mundo poderia florescer em frutos, cujas rimas, imagens, metáforas e ritmos ainda desconhecemos."
autor desconhecido
![]() POÉTICA TRÊS
o que dizer
de todo sublime ato
quando menos é mais
quando se consegue
concentrar
tudo numa só palavra?
uma luz no final do túnel
a seta exata no centro do alvo
uma sorte inesperada
a descoberta do sensível
os olhos frágeis sobre a palavra
apontando
delicadezas.
depois é a construção
a pedra
a palavra
a razão
a emoção
é tão grande
é um tão vasto
significar-se
nascer-se
criar-se
um poema:
sublime
arte
palavra.
March 28 SOBRE CERTOS CARAS E BOCAS..."Eu pressuponho que escrevo por sobrevivência.
O texto me exaure até a asfixia plena. É sempre um óbito necessário. " Ézio Deda ![]() o cara - julio carvalho
SOBRE O DES-CONHECER E O MEDO..."nem a estação
nem a viagem a poesia é a paisa gem" mario pirata
![]() DES-MEDOS
coragem
é sangrar
sem nenhum apelo
os pêlos arrepiados de medo
e vencê-los
todos
passando pelos pêlos
os medos
o sangue
vermelho
até a carne
o centro das coisas
conhecer
o medo é só aprender
que sem saber
tudo vira medo
e correm pelos pêlos
os arrepios
os sustos
des
coragem
é não saber
é sempre
des
vantagem.
SOBRE A POESIA IMPRESSA NA PELE...os sons são os órgãos da alma ● cantar silêncios, dizer o inexprimível, fixar vertigens ● é quando o poeta ultrapassa a realidade opressora do livro, proporcionando viagens adjetivas aos ouvidos ● a superioridade da prosa sobre a poesia é a mesma superioridade que dois velhos inteligentes ostentam sobre uma bailarina ao vê-la dançar ● pois é poesia ● a vida inteira que podia ter sido e que não foi ● a voz da voz que canta, dentro da voz que fala ● um poeta não é mais que a sua orelha ● é quando o artista parece gente ● é quando o ouvinte se torna poeta ● arco que vibra tanto para lançar longe a flecha, como para lançar perto o som ● palavras são fósseis vivos; cabe ao poeta reconstituir o animal e pô-lo a cantar ● perante o poema escrito, a voz do poeta é libertação ● quintana reaparecendo no fim do corredor ● contém glúten ● a poesia é o sujeito da prosa ● não há poema em si, mas em mim ou em lá ● a voz humana tanto vibra para lançar perto as palavras, como para lançar longe o som ● poesia são todas as coisas nascidas com asas e que cantam ● o poeta escreve cego por linhas óbvias ● é sintomático que, na pós-modernidade, poesia e música fossem inseparáveis ● se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que deus quis dizer com este mundo ● poesia é o pasto do coração ● coração de cotonete ● o assassino sabe mais de amor que o poeta ● a alegria é a prova dos nove ● sobras das obras completas ● megafone para o mar ● a poesia é a voz da quarta pessoa do singular ● as relações naturais e outras tragédias ● renunciei mil vezes à poesia e voltei a ela mil e uma ● o novo é o óbvio do ovo ● assim na terra como nos seus ● dá-me os óculos ● temos muito menos do que você pensa, muito mais do que você possa imaginar ● a poesia existe nos fatos, o estado de bagunça transcendente.
tudoissoin http://www.trintaemtranse.com.br
![]() para priscila lobato tatto - julio carvalho
SOBRE A POESIA AUTOMÁTICA..."É absurdo pensar que o único meio de saber se um poema é imortal seja aguardar que ele perdure.
Quem sabe ler um bom poema deve poder dizer, no momento que é por ele atingido,
se recebeu ou não um golpe de que nunca mais se curará.
Significa isto que a perenidade e a poesia, como no amor,
aprende-se instantâneamente; não necessita de ser provada pelo tempo.
A verdadeira prova de um poema não reside no fato de nunca o havermos esquecido,
mas de nos apercebermos imediatamente que jamais poderemos esquecê-lo."
ROBERT FROST
![]() POÉTICA DOIS
A poesia certa
A poesia errada
A poesia não é como um alvo
qualquer
exilada assim
do papel
como um ponto a ser
acertado com
algo como arco-e-flecha
de conclusões
e rimas
não se aperta um botão
ou se lança um poema
uma flecha
uma música
sem que o alvo
seja
totalmente
feito
de sensibilidades.
SOBRE O NEXO POÉTICO..."dispensei o sumário,
omiti a numeração,
porque meus versos
pediram a liberdade."
Maria AuxiliaDÔRA BORGES
![]() sobresexo
algo complexo - só pra rimar
mas que algumas vezes não rima com nada
ainda mais pra quem não sabe amar.
POÉTICA UM
copia-se
o dia
alguma solidão
algum sentimento lento
esquecimentos
e se faz poesia
como quem lembra
de escovar os dentes de manhã
ou lavar as mãos antes de comer
ou quando não se consegue
amar
direito
é quase muito tudo igual a isso
um não sei quê perdido no meio do nada
o sentimento real
poeticamente correto
é mais do que isso
é um momento único
dentro do tempo certo do respirar e do envolver-se
com tudo
o tempo pára
as coisas olham-se devagar
e o poema sai assim
limpo e claro
sem cópias
sem sombras
sem dúvidas
March 23 SOBRE O PESSOALMENTE INFINITO..."Ah, se as crianças fossem alfabetizadas através da poesia...
O mundo poderia florescer em frutos, cujas rimas, imagens, metáforas e ritmos que ainda desconhecemos."
autor desconhecido?
![]() trabalho de Gabriel Rodrigues
CONTINUA/MENTE
infinitiva
mente
pessoal
in
finitivamente
in
pessoal
pessoa
que tem
algo
em
mente
infinitivamente
in
finita
mente:
assim fica
o dito
pelo não
dito
até o
in
finito
SOBRE TRÊS TEMPOS E UM SILÊNCIO..."A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga
e escuta ouve ternura luta espanto ou espasmo?
Ouve como quiser seja o que for fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo."
José Carlos Ary dos Santos ![]() Inferno Solitário:
puro abandono
quando não me apaixono
por nada
Paraíso a Dois:
amor no meu céu
acaba sendo
meu e seu
Conversa rápida:
O poeta:
- onde estou?
O filósofo: - porquê sou eu?
March 21 SOBRE AS NOVIDADES LUMINOSAS..."Você tem que falar as 6 palavras seguidas uma da outra por pelo menos 3
vezes, e imaginar um círculo de fogo em torno de você como uma proteção. Faça isso toda vez que você sair (para algum lugar que ache perigoso), ou toda vez que já estiver na prórpia situação de perigo:" K L I M K R I S H N A Y A G O V I N D A Y A G O P I J A N A V A L L A B H A Y A S W A H A Fonte: Anderson Cyrillo
![]() trabalho de Gabriel Rodrigues
FOTOBIOPOEMA
dentro do que se entende e se sabe na biologia até que se pode haver coincidência entre fotossíntese e poesia na fotossíntese, a luz que é muito importante produz energia e oxigênio essencial na poesia, à luz de alguma idéia brilhante produz-se tristeza ou alegria ou outra sensação vital depois durante a noite a fotossíntese pára e na planta, ocorre o inverso o poeta também durante a noite, no sono dorme o sonho da obra feita como se criasse outro uni verso SOBRE O AMOR NO ESCURO..."Se o menino está montado num cabo de vassoura,
ele criou um cavalo para ele.
A criação do poeta se faz dessa maneira:
pela transfiguração da realidade
os poetas criam seus cavalinhos de pau..."
(Manoel de Barros)
![]() SOBRE O QUE DEVERIA TER NO AR..."A pintura é uma Poesia silenciosa
e a Poesia é uma pintura que fala".
Simónides de Ceos
![]() aerosol - julio carvalho
ALHEIO
eu vejo a tarde
e percebo
você
meu céu
um avião
na minha veia
te recebo:
e aterriso em você
inteiro
de felicidade
SOBRE UM NOVO CASAL NOVO..."Se este decifrar
é lento,
posso gastar
uma vida toda
nisso"
Marilá Dardot
![]() SEM GRADES
Para Mayara e Danilo
I
as grandes idéias não admitem prisões
II
o medo é um veneno que não deixa pensar
as leis
os dogmas
os defeitos
as coisas soltas funcionam melhor
abra a cerca, a porta
a cara e a coragem
vá com tudo para a rua
deixe tudo isso correr direito
acerte direto a cabeça de um dogma
mude alguma lei do seu jeito
pegue um defeito
e faça dele vantagem própria
todo mundo anda muito igual
um defeito qualquer pode fazer
uma grande diferença
sua
entenda:
isso não é nenhuma anarquia
é o pensamento de jeito próprio
alterar a ordem das coisas
e a desordem das idéias -
a confusão ainda é melhor
que segurar tudo
todo dia, todo dia
atrás das grades
da covardia
porque
todo medo
começa
do que não se conhece
do irreconhecível
do que se faz terrível
de tudo preso que fica dentro
mas que fora disso
nada disso é o que parece
questão de ficar solto
e atento
ao mesmo tempo
medo não é o que aparece
se você olha do jeito
que ele
merece
assim
toda
lei
dogma
defeito
fica melhor
quando é visto
de outro
jeito
March 19 SOBRE OUTRAS SATISFAÇÕES..."Dia de verão
sol forte a pino
sombra nenhuma"
Julio Carvalho
SAB(AM)OR
Para Ana Carolina
A gente tem que falar do amor como se fosse fome, necessidade, coisa comum de se ver.
Temos que inverter a ordem das coisas nesse mundo de violências demais.
O amor é uma fome leve.
E a violência é gula exagerada demais.
Devíamos ser contra o apagamento do amor antigo. Aquele amor mais doce.
Amor de bala de goma, de chiclete, de doce de leite...
Devíamos ser contra a vontade do desamar faminto e do prato feito de dores amargas demais.
Contra as manifestações do amor trivial, o amor televisão, o amor internet.
Contra o amor que não diz nada, não faz nada, nem a mim, nem a você nem a ninguém.
O amor sem sal, amor vinho seco, o amor sem gosto e engolido por alguma obrigação.
O amor-sapo engolido como se fosse coisa boa.
O amor disfarçado e de sabor artificial colocado na boca
com mil outras intenções menos a intenção de amar de verdade.
Amor de verdade desce leve, sem medo, sem susto.
Tem gosto bom de vida que já existe
mas que de novo foi descoberta.
Amor bom.
Amor de boca
e porta
aberta.
March 17 SOBRE UMAS OUTRAS IDÉIAS..."Não procuro respostas.
Não procuro a verdade.
A verdade é que não sei o que procuro.
Mas quer saber?
Não vou esperar morrer para saber se existe reencarnação.
Podemos reencarnar quando estamos vivos.
Certo?"
THIS GIRL'S LIFE - Movie
![]() OUTRA INTENÇÃO
Sabe, a boca é um orifício incrível.
É uma criação fenomenal da Mãe Natureza.
Tem tantas funções.
Claro que precisamos dela para respirar
mas também para falar, saborear...
Às vezes, usamos a língua para lamber, beijar, chupar...
É até como uma arma quando mordemos, e claro,
é bom também quando posso usar para o meu esporte favorito
usando vários tipos diferentes de técnicas.
Serei mais claro: coloque em sua boca.
Esfregue um pouco dentro dela.
Aproveite isso.
Agora, passe a língua pela extremidade toda.
Não dá uma sensação de poder?
Então, chupe com força. Com mais força.
Não deixe amolecer dentro da boca ou vai engasgar.
Confie em mim.
Tem um sabor inigualável do começo ao fim
e é assim que se aproveitam
os bons
charutos.
SOBRE UNS MOMENTOS COMUNS..."Onde pousar a palavra?
Como se a caneta fosse a asa de uma xícara de porcelana rara que eu estaria a segurar com todo o cuidado no ar. Do ar ao pires, podemos, ou não, espatifar a dinastia Ming. Delicadamente." Missão diplomática na China (pianíssimo) - Camila do Valle
DOIS MOMENTOS COMUNS:
MOMENTO UM
![]() MOMENTO DOIS
![]() SOBRE AS CONOTAÇÕES SEXUAIS..."Dar não é fazer amor. Dar é dar.
Fazer amor é lindo, é sublime, encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca... Te chama de nomes que eu não escreveria... Não te vira com delicadeza... Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, é só dar por dar. Dar sem querer casar... Sem querer apresentar para mãe... Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral... Te amolece o gingado... Te molha o instinto. Dar porque a vida é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro. Dar é bom, na hora. Durante um mês. Para os mais desavisados, talvez anos. Mas dar é dar demais e ficar vazio. Dar é não ganhar. É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém para querer casar, para apresentar para mãe, para dar o primeiro abraço de Ano Novo e para falar:
“Que que ce acha amor?”. É não ter companhia garantida para viajar. É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia. Dar é não querer dormir encaixadinho... É não ter alguém para ouvir seus dengos... Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor. Esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar. Experimente ser amado... " DAR OU AMAR - Erico Verissimo - Colaboração de Gabriel Rodrigues
DUAS VARIAÇÕES SOBRE O MESMO SEXO:
I
![]() Julio Carvalho - Redemption
(religious) a concept referring to forgiveness or absolution for past sins and protection from eternal damnation
II
![]() Julio Carvalho - Sexism
is commonly considered to be discrimination and/or hatred against people based
on their sex rather than their individual merits, but can also refer to any and all
systemic differentiations based on the sex of the individuals.
SOBRE O MAU HUMOR COM HUMOR..."Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. Incrível! Já fumei três maços de cigarros Consecutivamente. Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: Tanta depravação nos usos, nos costumes! Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes E os ângulos agudos. " Contrariedades - fragmento - Cesário Verde
ode ao mau humor
bem vindo mau humor
que põe tudo em pratos limpos
e desfaz a falsidade
e transforma a verdade
em alguma coisa mais concreta
chuta o cachorro
empurra o pobre longe
e coitada da velha lerda
que enrosca atrás do poste
e não sai da frente quando a gente anda
nessa hora vem a vontade de mandar tudo à ....
(rima essa que não combina
neste momento de raiva eterna
mas que tem gente que faz toda hora
em qualquer lugar e esquina).
só queremos matar a coitada
sem ela até não ter culpa de nada
mas afinal é tanto egoísmo danado
que nem se julga o ato impensado
e na certa não está tão errado
porque quando se está mau humorado
tudo funciona, mesmo se dá algo
errado
pelo menos o desabafo
fica solto e genuíno
agüentar desaforo é coisa de gente
que sangue de barata tem
como não sou politicamente correto
já dou uma no olho do infeliz
um bom soco na cara, direto...
March 16 SOBRE UMA HISTÓRIA BEM COMUM... "Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor! A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos" O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA - Manoel de Barros ![]() TODO ÓBVIO
Um dia
numa festa de tamanhos iguais
Maria Grande
conheceu
José Pequeno.
Algum tempo depois
houve outra festa:
mas era uma festa
de casamento.
E mais tarde ainda
festejado foi
um outro evento:
nasceu de parto normal
José Maria Médio
(o que era de se esperar
pelo tamanho das coisas
e todo o resto das outras histórias comuns
com um final feliz).
A moral de tudo isso?
Tamanho não é documento
e no final
tudo é
médio/igual/comum
e firme
como qualquer outro
aconte
cimento.
SOBRE UM BRANCO E A VERGONHA..."O papel em branco era um universo vazio.
Uma única gota de sumi sobre ele imediatamente criaria algo no nada.
Podia invocar a chuva, chamar o vento, tudo lhe era possível.
E então, ali ficaria registrada para sempre
a alma da pessoa que empunhara o pincel.
Se a alma fosse má, a maldade; se depravada, a depravação;
se exibicionista, o exibicionismo, tudo o papel registraria, sem nada esconder.
A alma retratada num pedaço de papel podia viver por um longo tempo,incalculável, muito depois que nada restasse do pintor neste mundo. Para alcançar a leveza espirital tem que se alcançar as fronteiras do nada, o universo do papel em branco. Sentir que a mão que empunha o pincel não era de ninguém, e que a alma,
apenas ela, estava pronta a agir nesse universo branco."
Texto enviado e adaptado por Marcos Paiva ![]() Lado Negativo - Julio Carvalho
|
|
|