Julio's profileANIMUS VIVENDIPhotosBlogLists Tools Help

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    April 29

    ALGO ASSIM MEIO EXIT...

    "Pessoas
    com suas malas,
    mochilas e valises
    chegam e se vão
    se encontram, se despedem
    e se despem dos seus pertences
    como se pudessem chegar
    a algum lugar
    onde elas mesmas
    não estivessem
    você se move
    como se uma legião invisível
    te aprovasse
    você se vai
    como se de longe
    você mesmo
    se chamasse
    você me vem
    como se só em mim
    enfim
    você em você
    chegasse"
     
    eu não chego assim...
    Invisível -  Alice Ruiz
     
     
    HORA DE IR EMBORA
     
    O que foi que eu fiz
    a noite toda aqui?
    Fugi.
    Escrevi.
    O dia aqui na janela entrando
    e essa luz nos meus olhos
    acreditando
    num ser
    visível
    tonto de sono
    e gasoso.
    Sólidos
    aqui
    são só a cadeira
    que estou sentado
    agora
    e os meus dedos
    teclando
    até essa
    hora.

    NO RÉS DO CHÃO...

    "Ia dizendo
    não é por aí
    o caminho mais curto
    acaba logo ali,
    acaba logo ali
    acontece que algum gesto ainda não foi feito
    hei, não vá saindo assim desse jeito
    pra que pressa?
    depois dessa
    outra história, outra transa, outra festa
    agora é tarde
    não está mais aqui quem falhou
    ia dizendo, não é por aí"
    Não é por aí - Itamar Assumpção e Alice Ruiz

     

     
     
    SUB-SOLOS
     
    o inferno são os todos
    o inferno são os fogos
    o inferno são os lodos
    o inferno são os bobos
    o inferno são os lobos
    o inferno são os rotos
    o inferno são os porcos
    o inferno são os toscos
    o inferno são os loucos
    o inferno são os socos
    o inferno são os muitos
    que fazem pouco
    de todos.
    o inferno são os esgotos

    E OS MEUS DIAPASÕES..

    "É mais fácil cultuar os mortos que os vivos
    mais fácil viver de sombras que de sóis
    é mais fácil mimeografar o passado
    que imprimir o futuro
    não quero ser triste
    como o poeta que envelhece
    lendo maiakóvski na loja de conveniência
    não quero ser alegre
    como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
    sob o sol de domingo
    nem quero ser estanque
    como quem constrói estradas e não anda
    quero no escuro
    como um cego tatear estrelas distraídas
    amoras silvestres no passeio público
    amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
    tempestades que não param
    pára-raios quem não tem
    mesmo que não venha o trem não posso parar
    veja o mundo passar como passa
    sentado na porta de minha casa
    a mesma e única casa
    onde eu sempre morei"
    Minha Casa - Zeca Baleiro
     
    By Alice Ruiz
     
    NOTA
    ...dos sons de dentro e os meus diapasões...
     
    Vibra
    o vento na lâmpada colada no poste
    vibra  grama cortada recente
    na casa em frente
    vibra toda gente
    que torce firme, no time, no campo
    vibra e até esquece o final do filme
    vibra somente
    solenemente
    mesmo por dentro calmo
    calado
    surto
    uma vontade que
    vibra surdo instrumento delicado
    afinado
    diapasão
    diário
    vibra sozinho até
    estrela, sol, constelação e lua
    é tudo
    vibra
    fibra
    vida
    e o que não vibra comigo
    é minha alma
    nua
    rota e puída.
    Enquanto a rua passa
    no silêncio
    nada
    vibra.

    EU SOU MAIS VENENO QUE PAISAGEM...

    "Minha arte
    é marcial,
    lutada em claro.

    Minha solidão
    tem mais auroras
    que cansaços.

    Os vencedores andam em bando,
    mas, a verdade,
    ainda, a cavalo.

    Meu nome é ninguém,
    porém, não aceito pactos:
    minha parte
    é com o silêncio.

    O meu estado é de sítio;
    a minha casa, o contrário.
    Sou mais meu conflito
    do que o palco.

    Meu número
    não tem comentários
    e o que eu miro
    não é no fácil"
    Westerns Land - Astier Basílio 

    Astier Basílio nasceu e vive em João Pessoa, Paraíba. Ainda na casa dos vinte anos, já publicou uma dezena de livros, mas renega alguns. Trabalha como jornalista cultural, tanto à frente do Correio das Artes quanto de Augusto (suplemento cultural do Jornal da Paraíba). É possível encontrar vários de seus poemas nos principais sites do gênero na Internet, principalmente no seu blog pessoal, o Eu sou mais veneno que paisagem.

     
     
    POUCO
    ...das definições...
     
    Arte = capacidade de SENTIR & SER
    e materializar ambas as coisas
    Tem alguma coisa haver com amor, arte....
    mas arte é amor também de outros jeitos:
    pode ser amor ruim = a chamada arte ruim
    ou amor bom = a chamada boa arte. 
    E se espera que a boa arte não acabe assim tão fácil...

     

    P.S. para um MAGO...

    ...são só alguns passos dentro de túneis...
     
    "Ando com a cabeça erguida hoje
    Por costume apenas.

    Há constatações tristes
    A cada passo meu
    E o relógio parece não mais servir
    Para marcar as horas.

    O dia parece não servir pra mim."

    "Eu sabia que ele sentia muito com tudo aquilo.
    Mas eu, não Aurelium, importava naquela história toda.
    Eu e minha vida, minhas glândulas, minha pele, minha vontade de viver.
    O mundo deveria ser sempre como se fosse pela primeira vez.

    É o que eu queria conservar com o fim total de qualquer coisa que pudesse vir a começar."

    "Como se quisessse
    na luz
    de teus olhos
    achar
    o desconhecível
    ou
    o comestível"
    April 26

    NUVENS DE POEIRA...

    "Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
    Tudo que não invento é falso.
    Há muitas maneiras sérias de não dizer nada,
    mas só a poesia é verdadeira.
    Não pode haver ausência de boca nas palavras:
    nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
    É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
    Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
    mas se não desejo contar nada, faço poesia.
    Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
    A inércia é o meu ato principal.
    Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
    O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
    A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela
    expresse nossos mais fundos desejos.
    Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
    Por pudor sou impuro.
    Não preciso do fim para chegar.
    De tudo haveria de ficar para nós
    um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra
    — Como um lápis numa península.
    Do lugar onde estou já fui embora."
    Manoel de Barros
     
     
    DOR NÚMERO UM
    Ando pisando em pregos e arames farpados. Não são as perdas. São desamores.
    Coisas que doem no peito feito ferro quente marcado. São faltas. Mortes.
    Desaparecimentos. Insônias. Ausências. São todas as coisas que levam ao fim.
    Sou eu e minha doença de sentir demais. São sensibilidades.
    Estou perto de decretar o fim do meu maior poema.
    O eu mesmo por dentro.Uma pena. Uma morte. Nenhuma sorte.
    Nenhum começo, meio ou fim.
    Agora é só a vida em branco, sem papel passado.
    Sem presente e com o futuro ausente. Inerte.
    Náufrago procurando um talvez S.O.S.
    Mar aberto e céu fechado.
    É tanta água que afogo. É quase isso.
    Ponto.
     
    DOR NÚMERO DOIS
    Da vida
    de um amargor tão grande e longo
    quanto um gume de faca lento cortar um pulso vivo
    amargor de vontades acabadas na hora do gozo de perto de um rio seco pelo sol
    um mar sem sal nem onda
    acre feito marca de morte
    marca forte alongando a vida que já anda curta demais
    e triste demais para continuar
    amargor que arde toda dor que mata toda força acaba todo pulso sujo
    amargor de cansaço de ver que tudo não é brincadeira
    e não é assim que se joga
    a regra acaba na morte
    e acabou a sorte
    o vazio do peito é muito maior que só de sangue
    isso vem de tempos de longe
    vem de dores feito flecha mirada com veneno de morte
    só não acertou ainda
    porque até aqui
    o alvo foi
    desviado
    para longe.
     
    DOR NÚMERO TRÊS - maior que todas...
    ...se eu não tivesse tanto medo de ser punido já teria morrido há muito tempo...
    mas estou inerte
    não valeu de nada
    só não me matei até hoje por pura covardia
    medo do que pode acontecer depois ou
    de ter de continuar isso mesmo depois de morto
    se eu soubesse que eu ia ter paz de verdade já teria feito
    eu estou só suportando
    quieto
    esperando alguma coisa acontecer para que eu não precise fazer nada
    e que tudo se acabe sozinho
    pelo simples fato de ter que ser
    se eu não fizer nada outra coisa vai acontecer e vou acabar morrendo do mesmo jeito
    é tipo "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come"
    e o que se conhece?
    punição?
    inferno?
    Coisas relativamente felizes?
    isso vai atenuar
    passar não passa mais
    e eu vou continuar achando coisas para alívio imediato
    mas no fim das contas vai ser sempre essa coisa ruim
    no fundo
    existe um ódio tão grande dentro de mim que não tem mais espaço pro amor
    eu estou tão desgastado que nem saio de casa e nem quero conhecer ninguém
    tudo me irrita
    e eu fico impassível fazendo de conta que estou bem
    eu queria uma forma de acabar com isso sem me sentir culpado depois
    mas até para a morte as pessoas  querem que a gente se sinta culpado
    eu acho que não devia ser assim
    devia ser como uma opção
    mas é uma opção que dizem que é ruim
    que traz inferno que traz algum carma
    que traz um monte de porcarias
    e o grande coração está morrendo
    só está fazendo de conta
    e se eu passar por isso...
    se passar isso.....não vou ser o mesmo
    eu só estou agindo pela raiva
    minhas mãos estão todas machucadas
    cheguei a tirar sangue das mãos
    de tão nervoso
    e de tanta dor
    para não ter que fazer bobagem
    para tudo o que eu olho só procuro meios inconscientes de acabar comigo
    não sei onde isso vai parar
    eu não tenho conseguido nem comer
    não sinto fome
    não sinto nada
    nem choro
    nem riso
    nem nada
    eu sei...nem a capacidade para ter alguém até hoje eu tive
    todo mundo diz isso...
    mas a minha tristeza é maior que o amor dos outros que estão próximos
    tanto DESAMOR que tive é maior que qualquer amor
    é preciso um amor muito maior pra que eu fique melhor, acho
    até me disseram sobre o amor de deus
    mas eu estou com mágoa até dele
    por permitir que isso aconteça comigo
    e outras coisas que acontecem em volta de mim
    eu estou cansado
    não estou conseguindo fazer mais nada sozinho
    e sempre odiei depender dos outros
    fazer o quê? Esperar que os outros façam alguma coisa
    e eu ficar olhando pra cara deles sabendo que não vai dar em nada?
    as pessoas ficarem falando, falando, falando
    e eu vendo essa porra dessa dor aqui dentro só aumentar?
    uma minha briga eterna desde que eu me conheço por gente
    para melhorar e tudo o que eu faço não funciona?
    o esforço que faço todo dia HÁ ANOS para levantar da cama e continuar
    e nada muda aqui dentro?
    você pode até achar que estou sendo egoísta mas
    EU ESTOU CANSADO DE SER SEMPRE O BONZINHO QUE SÓ SE DÁ MAL!!
    aposto que se eu fosse um grande FDP essas merdas não estavam acontecendo comigo
    o ruim é que eu estou sempre são
    e SINTO TUDO PENSO TUDO PERCEBO TUDO MUITO INTENSAMENTE!
    cada dor é maior que a dor que o outro sente
    cada alegria é maior que a que o outro sente
    cada medo, desespero, angústia
    tudo é maior
    porque eu tenho uma porra duma sensibilidade
    e me colocaram dentro de um CIRCO DE HORRORES
    gente como eu não deveria estar aqui
    e eu não falo só por mim não
    falo por tudo
    se eu fosse burro, ignorante, sem noção talvez até seria melhor
    a capacidade de sentir faz a gente ficar muito duro
    talvez se eu tivesse tido sempre a referência do amor
    pode ter certeza que não seria assim e eu seria forte
    o que eu penso é que como minha vida toda
    foi uma vida só de FALTA agora não adianta mais.
    aconteceu que NADA mais entra aqui dentro
    quando entra é só fagulha...não acende mais nada
    isso é praticamente a mesma coisa que estar morto
    e essa é a dor maior
    tudo o que é que será que foi sentimento MORREU
    agora só falta a morte física
    entende?
    se tivesse existido o amor ANTES.....
    as coisas não devem ser assim.... São assim
    o que você não sabia?
       o que eu te disse sobre mim que você não sabia?
    eu não sou mais o mesmo
    estou amargo
    foi tanta, tanta, tanta, tanta falta de amor desamor e horror que morri por dentro
    e agora nem consigo mais chorar sobre esse meu cadáver interno
    infelizmente
    e eu lutei muito pra evitar isso
    mas desculpa falar: a ajuda sua que eu queria
    talvez tivesse que ter sido ANTES quando você esteve aqui.
    Era o amor ANTES. Agora todo amor é tarde...
    desculpe minha sinceridade.
    na época eu implorei, pedi, chorei amor de você......
    .....e não é sua culpa...
    eu vivi sempre de migalhas
    é o que eu chamo de pequenos amores quando não se tem nenhum
    na época foi até bom porque me manteve vivo um pouco
    me fazia esquecer essas porcarias aqui dentro
    mas foi sempre assim
    eu cansei de pedaços, migalhas, restos
    e agora como não consegui nem os grandes amores
    estou fechado pra todo tipo de amor
    quando é para sentir pouco
    melhor ficar com NADA...
    April 21

    EM QUEDA LIVRE...

    "As portas estavam abertas.
    As janelas estavam abertas.
    O cérebro estava aberto.
    Os olhos estavam abertos.
    Os ouvidos estavam abertos.
    A tristeza, a melancolia, a solidão
    estavam abertas.
    Os desejos estavam abertos.
    Todo eu estava aberto
    e o mundo todo entrou em mim
    escarificado, sucateado, fracionado
    o mundo todo entrou em mim
    descompassado
    desritmado
    silencioso
    em murmúrios
    em falas
    em gritos
    em borbotões ou em anduras ou em quedas
    de multiplicadas quebrações ou aberturas
    de fragmentos vivos
    de fragmentos semi-mortos
    de fragmentos mortos
    de fragmentos poucos
    decompondo-se, decompondo-me
    ora com lentidão,ora com velocidade
    em misturas de dor e de espasmos e de gestos
    em perguntas sem rosto
    em perguntas agudamente identificadas
    em respostas de pernas tortas e feridas
    em respostas dançantes e musicadas
    em vontades de viver, amar, criar
    em assentimentos ao não mais viver
    neste meu ser que nem sei ainda.
    E eu fiquei assim aberta-mente
    a transitar-me entre pessoas e fatos
    ou sentado na poltrona a ler-me além dos livros
    ou com olhos a me rodopiarem na tela da TV
    E assim foi que senti-me re-velado
    como uma bola de pingue-pongue jogada
    pelas idéias de vida ou pelas idéias de morte
    ora monótonas ora velozes
    sobre esse meu espaço-tempo entre
    o verde das árvores e os meus futuros cabelos brancos
    sim, eu todo aberto e tudo isso
    acontecendo no mundo todo em mim
    enquanto nas paredes e nas ruas infinitas
    dos silêncios que em mim não se tornaram voz
    o porquê dos cemitérios já estava desenhando-me
    como mais um seu cadáver."
    Eu Aberto - Moacir Félix - Adaptado

     

    SECAMENTE

     
    Carvalho.
    Sr. Carvalho.
    Árvore.
    Galhos frágeis, mas bem no alto
    a perder-se de vista no céu.
    O não olhar.
    O não olhar para trás.
    O abandono do ódio
    e o abandono do sofrimento,
    do que foi ruim
    ficando
    cada vez mais difícil.
    Os galhos já se vão na distância dos anos vividos todos.
    Aumentam-se as palavras.
    Os ditos.
    A sabedoria.
    A maturidade das raízes.
    Mas tudo junto a algum cansaço
    aumentado
    cada dia mais...
    Cansado
    buscando sempre os veios de água.
    Fluxos sob o solo
    muitas vezes árido
    outras vezes pouco úmido,
    raro.
    Água pura.
    Aguardando o encontro das chuvas de verão
    e farto da espera
    para que os galhos mais altos no céu
    alegrem-se
    novamente.
    Plenos.
    Faz tempo
    que é sempre
    o não...
    Secamente.
    E isto não é vida.
    April 20

    DOS RISCOS DA VIDA...

    "Tome-se um homem
    feito de fibra, como nós
    e em tamanho natural. 
    Mergulhe sua carne
    lentamente
    numa certeza aguda
    irracional
    intensa como o amor
    ou forte como o ódio.
    Depois
    perto do fim
    agita-se uma bandeira 
    e toca-se um sinal
    em alto e bom som.

    Serve-se o corpo limpo
    cercado de riscos
    de vida."
    PRATO FEITO - Julio Carvalho
     
     
    ALTO RISCO 
     
    Uma vida,
    uma pedra
    uma pista
    tão próxima,
    mas
    o receio de
    escorregar
    resvalar em feridas
    derrapar em ruas alagadas
    ruas perdidas
    tudo pensa que tudo sempre
    é uma pena, pena, pena...
     
    Vale a pena tudo sim
    quando se pensa:
    você já teve amor
    dos pés a cabeça?
     
    O risco de amar é
    algo ainda
    que compensa.

    ALCANCES...

    "Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam.
    Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça,
    por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve?
    Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos
    livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que
    escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que
    nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio."
    Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904

     
     
    LONGE...
     
    ...das coisas primeiras
    e já mais perto
    das coisas últimas
    neste lugar
    que é raro!
    Qualquer um não se aproxima daqui
    assim tão fácil.
    Os acontecimentos
    surpresas
    medos
    anseios
    sustos
    formam já as paredes
    altas
    longe...
    Do outro lado
    calmo
    deste lugar
    estou seguro:
    alegrias
    verdades
    saudades
    e as vontades...
    As luzes
    acesas iluminam muito mais.
    Muita gente foi
    passou
    e ficou.
    Hoje 
    difícil é ter um coração contido aqui e
    tudo o que foi feito é só resultado de chão
    semeadura e
    muita, muita mesmo emoção
    e o acreditar
    pleno que
    foi o que fez
    o que está aqui dentro
    permanecer
    inteiro.
    Quando a pergunta faz sentido
    a resposta
    tem a força
    de um furacão.
    Então fica agora
    um momento único em que
    não existe problema em confessar
    que o choro é de emoção
    e não de tristeza.
    O choro emocionado não é triste
    e só os que tem o coração puro fazem isso.
    Os puros de coração e os poetas
    e os que já sabem que tem força
    para poder sustentar qualquer tipo de choro -
    alegre
    triste
    emocionado
    ou não.
    Feliz agora
    é o simples. 
    O entendimento
    do que é bom
    no tempo vivido
    querendo
    todas as feliz idades
    daqui para frente.
    Sempre...
    April 18

    O DIA ANTES...

    "Imagine... 

    Um barco numa tempestade.

    Os ventos.

    A noite.

    Os medos.

    Molhados.

    A cabine.

    O leme quebrado.

    O desespero do possível resgate.

    Os mastros.

    Os choques.

    As velas.

    O motor parando.

    As águas.

    Os trovões.

    Os gritos.

    Do nada...

    O sol aflora.

    As ondas calam.

    O coração sossega.

    O silêncio.

    Um bote.

    Homens atônitos.

    A possibilidade da segurança.

    A terra firme.

    Imagine -

    nossa amizade seria o porto!"

    Imagine - Acácio Brindo 19-04-2006

     
     
    MARUJOS
     
    As águas andam revoltas
    mares vermelhos de ódio
    mares mortos de medo
    mares negros de noite
    no mar aberto
    o perigo mar adentro
    muito vento
    tempestades
    ondas altas
    maremotos
    sentimentos pavorosos
    o medo naufragando tudo
    submerso
    até o verso andava perdido
    e só andava o ódio sendo permitido
    de vivo quase pouco
    tanto o susto
    que tudo quase fica
    quase não sentimento
    quase nada sente
    quase nada dentro.
    E de longe um farol avistado:
    outro marujo outro longe
    outro vivo outro perto
    luz de longe clareando
    aumentando
    até que de perto
    o calor e a luz ficam tudo junto
    cada vez mais junto
    e o de longe
    vê o porto
    que andava
    desaparecido
    o mar revolto acaba
    e se acha o rumo perdido
    e o barco volta
    na direção da terra
    e reencontra
    o porto
    desaparecido.
    O outro
    é o amigo
    salvando tudo
    de novo
    o que tinha
    sumido.

    PAISAGEM, CAUSA E EFEITO...

    “A vida é um porto de vista quando se fala de lar.
    Porto mesmo, não ponto. Ponto é onde a gente pára.
    Porto a gente fica um tempo e parte de novo.
    O lar é uma coisa relativa e depende muito da nossa ânsia de chegar.
    Aprende-se muito nisso tudo. Na forma e nas coisas do caminho.
    Um caminho quando bem andado, costuma ensinar muitas coisas.
    Uma viagem. Um chegar.
    E o chegar depende muito de para onde vamos e para onde voltamos.
    Porto de novo. Ponto. Final. Chegamos até aqui.
     Fim.”
    Trecho do texto O CAMINHO de Júlio Carvalho.
     
     
     
    CAUSA E EFEITO
    Alguém sabe de alguém que tenha amor para ser doado?
     
    Ninguém ama
    O sujo
    O roto
    O mendigo
    O resto
    O triste
    O escancarado
    O pobre
    O coitado
    Ninguém ama
    O maltratado
    O doído
    O insone
    O infeliz
    O rasgado
    O pedaço
    O machucado
    Para se amar tudo isso
    é preciso ter amor de sobra
    é preciso se achar alguém com amor de sobra
    Alguém que se desfaça dos excessos amorosos
    e os dê de forma inteira e certa
    não como resto
    e sim como começo
    ensinando o outro a re-amar-se
    para saber amar de novo
    o todo.
    Alguém que dá o amor que sobra
    é que pode fazer outro re-aprender a amar-se
    O desamado
    não vê mais o amor e
    enquanto não puder
    ter de volta o amor que lhe foi tirado
    ou o amor exilado que nunca teve
    ou o amor que mal lhe foi ensinado
    não vai mais conseguir enxergar
    O que se faz quando se reaprende a amar
    Acontece dos olhos aprenderem de novo
    a re-ver o que não enxergavam antes:
    vão ver a arte do mundo
    Entender de belezas e luares
    E sóis e estares
    Vão se perceber de olhos diferentes
    e vai se começar a entender as gentes
    naturalmente
    O amor muda os olhos.
    Todo desamor e amor de exílio
    cega os sentidos.
    Por isso de novo
    o amor urgente
    antes que a cegueira do mundo
    seja
    permanente...
     
    April 17

    OS OLHOS MARCADOS...

    “A gente se irmana porque as coisas são da mesma família.
    É tudo poesia.”
    Júlio Carvalho
     
     
    MARCA DÁGUA
    Para Rodrigo de Carvalho
     
    Desde a porta do olho até a parte de dentro
    das pessoas sempre alguma surpresa é certa.
    Me veio perto da porta de um teatro hoje
    um fato acontecido:
    Olhos de precisão, de pedido
    Olhos de mendigo
    Olhos de mulher
    Olhos quase na mão pedindo alguma coisa firme e forte
    Olhos para não olhar a morte
    Olhos de vida supondo breve
    Doença ou coisa igual
    Que deixa tempo breve igual a mim
    Mas não se importa do que se sabe do que se fêz
    O que tá feito já teve sua vez
    Agora é saber cuidar e olhar do olhar bem
    Tanto perto quanto longe
    Pegadas antigas apagadas
    Novas linhas marcadas
    E os outros viram tudo
    Sentiu que não era só um
    Outro par olhava de perto
    Outro olhar
    Encantado
    Chorou de sentimento
    Eu olho quieto
    Explicando o tempo
    O que a emoção não faz quando é amizade
    Um choro de óculos molhados
    Outros olhos quietos observam
    Talvez porque chore por dentro
    Cada emoção vem em uma caixa diferente
    Cada pessoa caixa sente
    Diferente
    Eu quieto fiz outro choro ainda mais diferente
    Um choro que saiu sozinho
    Como que não querendo ser dividido
    Só meu
    Sai um choro doído
    de contente.
    April 12

    DESTINOS...

    “Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rocha.
    Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.”
    Clarice Lispector - A Hora da Estrela
     
     
     
    PELAS ESCADAS
     
    O que se sobe
    ou o que se desce
    não é sempre
    o que se sabe.
    As escadas tem segredos:
    cada degrau
    tábua solta
    um rangido
    dizem coisas sobre o tempo
    as escadas tem seu próprio tempo
    escadas em espiral, então
    são as mais misteriosas
    envolvem
    entorpecem
    fica-se tonto de tanto girar.
    As escadas verdadeiras,
    ao contrário dos elevadores
    são lentas.
    Tem que ser descobertas aos poucos.
    (Existem pessoas-escadas...)
    Elevadores não escondem nada:
    quatro paredes uma porta
    e pronto!
    Lembrando também
    das escadas rolantes
    que não rolam nada por cima.
    A gente só vê por cima
    e quem rola
    é que não sabe andar
    e escorrega de uma vez só
    e cai.
    É uma escada cega
    e rápida
    simples igual a um elevador.
    Ponto.
    Em uma escada
    de verdade
    quase sempre se chega
    em algo mais alto
    ou mais baixo
    debaixo
    nos degraus
    corrimãos
    ou seus corrimões
    conforme o gosto
    de quem bem entende.
    Tanto faz se chegarem
    em sótãos ou porões
    quando se descobrem seus segredos...
    Escadas precisam
    de lugares seguros para se firmar
    - escadas são traiçoeiras
    por isso tantos corrimões e mãos -
    por isso as voltas
    as descidas
    e subidas que elas fazem.
    Elas se voltam sempre
    quando se chega ao final delas,
    sendo grande ou não
    a caminhada.
    Descobertos os segredos
    as escadas
    sempre
    acabam 
    ensinando
    a chegar.
     

    VERDADES EM ABERTO...

    “Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim
    na terra dos homens. Escrevo porque  sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é
    escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou
    para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase
    tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu
    tivesse sido e não fui.”

    Clarice Lispector – A Hora da Estrela


     
    ABERTO

    Como querem agora as verdades?
    Fatiadas
    Em cubos
    Aos pedaços
    Cortadas
    Serrilhadas
    Servidas frias em potes herméticos
    Vestidas com tecidos sintéticos
    Miméticos
    Imitando mentiras?
    Não basta só falar que é pouco!
    Querem a verdade escancarada
    Jogada na cara um do outro feito lama
    A verdade quer acabar na lama
    (ou é a cara do outro que é a lama?)
    nas paredes
    pichadas de tinta ocre cor-de-tijolo
    a verdade quer fazer nojo
    vômito
    angústia
    ânsia
    raiva
    não quer ser dissimulada
    quer ser escarrada
    a verdade bruta quer ser jogada de cima dos prédios
    caindo na cara de políticos, religiosos e céticos
    a verdade precisa sair dos trilhos
    ficar offline da internet
    escapar das linhas escritas dos jornais
    dos noticiários de TV
    das frequências das rádios
    gritar ruas à fora
    berrar com megafones
    sair dos telefones, das fofocas, dos cantos e paredes
    e ir para a rua
    junto com outras verdades
    abandonadas feito crianças.
    A verdade precisa
    construir de novo
    a confiança
    do povo.
    April 09

    QUESTÃO DE TEMPO...

    "Nunca a alheia vontade, inda que grata,
    Cumpras por própria. Manda no que fazes,
    Nem de ti mesmo servo.
    Niguém te dá quem és. Nada te mude.
    Teu íntimo destino involuntário
    Cumpre alto. Sê teu filho."
    Fernando Pessoa
     

     

     

    AFASTAMENTOS
     
    Planetas
    Luas
    Órbitas
    Ímas
    Magnetismos
    Chegam
    As coisas são pessoas próximas
    Gente que fica perto demais
    Amigos e outras adjacências
    Pausa
    Afastamentos
    O que é necessário pra manter em pé uma relação de dois ou até mais.
    É quase como respirar, andar sozinho
    Tudo muito perto sufoca que nem afogamento
    Excesso de água é igual excesso de sentimento
    Pode matar
    Acabar o amor com o tempo
    Precisa de um momento só pra voltar a ser pessoa
    Gente é sozinha
    Apesar do gosto de todo mundo
    Ficar junto faz bem sim
    Mas de vez em quando
    Melhor separar
    Pra pensar
    Amor também tem que ter espaço
    Senão
    Capaz dele sufocar
    Amizade é igual
    Precisa de espaço
    Pra continuar.

    DAQUI A POUCO...

    "Eu quero ser
    de novo jovem
    com a idade antiga das raízes".
    Júlio Carvalho

     

     

    QUASE ANIVERSÁRIO

     

    Lá vou eu de novo

    Abraçando anos de ilusão

    Criando dias

    365 coisas

    24 horas de mim mesmo

    Corrida de velocidade

    Minutos e horas de vida

    Bem perto de encerrar outra data

    Vencimentos

    Anuidades

    A vida parece que é uma conta que nunca se paga

    Dívida eterna

    E divida é coisa que não sai da cabeça dos que se responsabilizam por si

    A vida se responsabiliza por si.

    Um dia eu pago com juros

    Por enquanto são só dias e anos de que me encarrego

    Não tenho pesos nem prazos

    Nem sei se muito tempo

    Sei que vivo próximo de outro aniversário

    Data vênia

    Acrescento

    Mais um ano

    Ao meu dia

    E só quero

    Continuar.

    Abraços de mim.

    Parabéns.

     

    PELA MANHÃ, BEM CEDO...

    “Dentro de cada pessoa
    Tem um cantinho escondido
    Decorado de saudade
    Um lugar pro coração pousar
    Um endereço que frequente sem morar
    Ali na esquina do sonho com a razão
    No centro do peito, no largo da ilusão
     
    Coração não tem barreira não
    Desce a ladeira, perde o freio devagar
    Eu quero ver cachoeira desabar
    Montanha roleta russa felicidade
    Posso me perder pela cidade
    Fazer o circo pegar fogo de verdade
    Mas tenho meu canto cativo pra voltar
     
    Eu posso até mudar
    Mas onde quer que eu vá
    O meu cantinho há de ir
    Dentro”
    Cantinho Escondido – Marisa Monte

      

     

    CEDO

     

    O passado indo.

    O presente vindo.

    O futuro se servindo de tudo.

    E eu aqui fazendo falta pro tempo

    cheio de água de lágrima, poesia e sentimento.

    Mas sem ressentimentos:

    já tenho quase a idade do vento,

    passo lento,

    leve...

    Ausente de pensamento.

    Colorindo mentalmente tudo.

    Acreditando ainda

    hoje.

    Dia de sol.

    Eu levanto.

    Abro janelas de casa e do peito

    que é uma janela mais de dentro.

    A janela do peito só abre tarde.

    A de casa abre sempre cedo.

    pra dar tempo de arejar.

    Ar puro pra respirar.

    Já meu peito

    faz tempo que não sabe

    o que é o ar puro da verdade.

    Falta sentimento verdadeiro

    pra janela dele

    escancarar.

    DAS DORES INTERNAS...

    “Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que convém, pois cada um só gosta de que se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome internacional e, mais grave ainda de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem é a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.”

    Mário Quintana in CARTA.

     

     

     

    DO SILÊNCIO

     

    A boca dói inchada por dentro.

    Gengivite.

    Sangra.

    Sapinho, afta.

    Arde.

    Suco de limão.

    Arde.

    Falo e dói e arde cada palavra.

    Demora.

    Calo pra curar.

    Pastas, pomadas,

    gargarejos:

    água oxigenada 10 volumes

    diluída em água quente

    pra melhorar.

    Comer demora.

    Tem que ser devagar.

    Escovar os dentes

    é tarefa longa.

    Se encostar, fere também.

    Sangra.

    A escova de dentes sai vermelha

    machucada

    mais que a boca, quase.

    Só encosto pra limpar.

    Devagar.

    Não adianta.

    Sangra.

    É que minha boca tem filosofia.

    e pensa quase que por si só.

    A boca só faz apontar as feridas.

    Tudo sangra, dói e não desce.

    É que as palavras andam difíceis de engolir

    por isso a boca fere

    antes

    da voz se firmar.

    Então brinco de silêncios

    pra não me ferir mais.

    Hora de pensar.

    A boca virou pensamento

    que é coisa que não dói.

    Ainda não dói.

    Pensamento é a voz que não sangra.

    Por isso a hora de calar.

     

    PAIXÃO QUE NÃO SE VÊ...

    “Há algo invisível e encantado entre eu e você.”
    A Alma e a Matéria - Marisa Monte
     
     
    QUANDO DOIS JUNTOS
    Para Gabriel
     
    ...eu acho que isso se chama fogo, ardência, paixão
    se tudo fosse um mundo só,
    seriam dois numa mesma conclusão
    e é isso que faz a gente manter os pés no chão
    até de raiz, eu tenho nome de árvore
    meu nome: carvalho –
    árvore cheia de força, molhada de água
    nem tanto forte
    nem tanto frágil
    mas um orvalho de lágrimas
    quando sensível
    e eu sou visível pra quem amo
    e sempre quando chamo alguém de longe, amor
    é porque sou de verdade e só quero aproveitar, falar
    toda coisa boa
    fica assim palavra só, palavra voz
    palavra amor entre nós
    cada um do seu lado e tudo separado
    mas amor vem junto, vem de dentro
    vem assim, meio colado
    e um mundo inteiro
    entre nós dois
    é só o que basta
    e o mundo fica assim
    meio que já
    terminado
    pra mim.
    April 07

    QUASE CALMA...

    "Procuro nas coisas vagas, ciência.
    Eu movo dezenas de músculos para sorrir.
    Nos poros a contrair, nas pétalas do jasmin.
    Com a brisa que vem roçar da outra margem do mar.
    Procuro na paisagem, cadência.
    Os átomos coreografam a grama do chão.
    Na pele braile pra ler, na superfície de mim.
    Milímetros de prazer, quilômetros de paixão.
    Vem pra esse mundo, deus quer nascer.
    Há algo invisível e encantado entre eu e você.
    E a alma aproveita pra ser a matéria e viver.
    E a alma aproveita pra ser a matéria e viver."
     
    A ALMA E A MATÉRIA - Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte
     
     
    EQUAÇÃO
     
    O que quase cai é
    a calma sobre a gente.
    Quase calma.
    Quase alma.
    Quase tudo na palma
    da mão aberta sobre
    umas
    almas pendentes de corpos
    dependentes de corpos.
    Quase gente
    urgentemente
    alguém tem que estar presente.
    Um corpo na alma
    calma
    quando um mais um é calma
    dois na alma
    fazendo um
    dois em um,
    e em um só
    feito de dois
    se
    salva
    em cada um
    uma
    alma.
     
    April 05

    RE_VOLTA_SE.COM...

    "O escritor vive.
    Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis.
    Quem é poeta é poeta sempre,
    e se vê continuamente assaltado pela poesia.
    Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas,
    assim como o músico se sente procurado
    pelo estranho mundo dos sons (o mundo mais estranho das artes),
    o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável
    circunstancia de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade."
    O ESCRITOR - Jorge Luís Borges é argentino, mas sua literatura
    teve forte influencia dos autores ingleses. Nas poesias e ensaios,
    a biblioteca de seu pai é uma referencia constante. 

     

     

    RE<ALTA>VOLTAGEM

    (ou.... Vai Todo Mundo à PQP!)

     

    Cansado

    de ouvir gente falando

    que é assim

    desse jeito

    dessa forma

    desse modo

    dessa coisa toda...

    Deixa eu ver

    quem eu sei ser melhor

    sem voz nenhuma de fora,

    falando, falando, falando tanto...

    Eu sei me dizer

    mais de dentro pra fora

    e quem sou de cara lavada

    cara limpa

    que não esconde nada

    e assusta assim

    tanta gente

    de tanta verdade

    que digo

    e mesmo assim não ouvem

    porque preferem viver mentiras de fora

    a querer as verdades de dentro.

    E eu sou assim meio bravo

    que nem penso ser tanto -

    meio todos os demônios juntos,

    mas contando com anjos

    de asas brancas delicadas

    se preciso

    e quando preciso

    ficar por perto

    certo

    de alguém cansado

    ou perdido...

    Cansado de gente esquecendo

    do que anda aqui por dentro

    e o que sinto não é coisa egoísta

    senão não saberia entender

    tanta gente que passou por perto

    decerto

    e que eu não deixei que ficassem

    distantes

    tristes

    ou

    tão cansadas.

    Entendi muito tempo muita gente

    e agora sempre julgam corretos

    seus certos modelos enraizados

    tristes seres agarrados imutáveis

    no fundo de rios

    congelados

    em suas

    certezas.

    Nada vai mudar essas estátuas-pessoas

    que se acham vivas.

    Perderam seus sonhos em algum momento

    e grudaram no chão.

    Viraram pedras.

    Melhor - limo de pedras de rio.

    Ficam sobre as pedras.

    Nao mudam nada

    e se agarram a tudo o que podem

    com medo de mudar.

    Desisto.

    Chega de ser politicamente correto

    bonzinho

    modesto

    resto...

    É hora de mudar alguma coisa

    e fazer desse

    cara-eu-mesmo

    gente forte e firme

    que fique longe

    disso

    pra que isso

    mude

    de novo.

    O longe é a resposta.

    O resto é coisa do povo.

    Dos que falam demais

    e não entendem nada.

    Jamais.