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    June 30

    SOBRE UMA POSSIBILIDADE...

    "Então é você
    que bem antes de mim
    diz o que eu queria dizer
    tão bem quanto eu diria.
    E quem diria?
    ainda melhor

    Acho que teu nome é poesia
    e por isso todos te chamam

    Então é você
    tua simples presença
    que quer preencher a minha existência
    me faz ver o que eu não via.
    E quem diria?
    ainda melhor

    Acho que teu nome é vida
    e por isso todos te querem
    (e eu fico de fora olhando
    de um olho só te espiando)

    Então é você
    que quando fala
    instala a compreensão
    de tudo que eu seria.
    E quem diria?
    Ainda melhor

    Acho que teu nome é amor
    e por isso todos te amam

    E quando todos te chamam
    quem sou eu pra não chamar?

    E quando todos te querem
    quem sou eu pra não querer?

    E porque todos te amam
    “eu sei que um dia
    também vou te amar”
    Adaptado de Alice Ruiz
     
     
    POR OUTROS DOIS
                           
    Existe um tempo entre...
    a gente sabe
    a necessidade
    da espera
    da demora
    e das voltas
    que o tempo dá.

    o tempo sabe
    que tudo o que vale
    que realmente vale
    precisa de paciência.

    ainda mais
    quando se diz amor
    o tempo espera mais devagar
    e quando é amor de verdade
    o tempo
    guarda
    aguarda
    como um relógio
    porque sabe
    que amor é coisa
    que não pode
    ser tão cedo
    e nem tão rápido
    se acabar.
    June 28

    SOBRE ONDE PISAR...

    “De que adianta tanta poesia
    se quem precisa ler de verdade
    sofre da cegueira de entender?”
    Julio Carvalho
     
     
    CADA PASSO
     
    que qualquer coisa é andar por aí
    que qualquer coisa é saber onde ir
    que qualquer coisa ter tempo
    para se escolher um lugar
    e andar
    olhar as janelas
    acariciar alguém
    bem de perto
    que qualquer coisa jogar tempo fora
    olhar com demora o outro passar
    poder sentir tudo mais lento
    se permitir
    ter sono
    sonhar
    meio solto
    meio todo
    meio abandono
    colocar o pé no mundo
    andar sem saber
    nem parar
    perceber que
    as ruas ficam poucas
    os passos ficam muitos
    ficam longos
    ficam longe
    andam muito
    andam longe
    os sapatos descalços
    os pés de pele só
    no chão
    de pé no chão
    em pé
    a opinião
    e a certeza que andar é mais fácil
    descalço
    a distância é melhor
    o caminho mais leve
    a vida menos breve
    o pé acha o caminho
    e sabe
    que é sozinho
    que se faz andar
    o pé no chão.
     

    SOBRE GOSTAR OU NÃO...

    "A moralidade é simplesmente a atitude
    que adotamos com as pessoas de quem não gostamos."
    Oscar Wilde
     
     
     
    - Cara, tem certeza que estamos perdidos?
    - Estar perdido, amizade, inclui não ter certeza.
     

    SOBRE OS SUSSURROS...

    “Amizade é você ouvir a verdade do outro
    mesmo que esta verdade
    possa mudar no dia seguinte.”
    Julio Carvalho
     
     
    O SOPRO
    da série infantilidades
     
    só é quando sai da boca
    é vento pouco
    vapor no inverno
    invisível no verão
    assopro em machucado
    o sopro sara
    quando algo dói muito
    sussurro quando lento
    ao pé do ouvido
    quase em silêncio
    não fala muito
    mas agrada
    feito carinho
    a tempo
     
    em dente de leão
    espalha semente
    ajuda a vida
    a ir pra frente
     
    cada sopro
    é diferente
    depende muito
    se é ruim
    ou se veio
    de alguém
    que gosta da
    gente.
     

    SOBRE DOIS TEMPOS...

    "Se um caminhão te atropelasse e estivesse morrendo,
    caído na sarjeta e tivesse tempo de cantar uma música
    a qual lembrasse de você antes de virar pó.
    Uma que mostrasse a Deus o que achou da sua vida aqui na Terra.
    Uma música que te resumisse, que canção você cantaria?
    A mesma canção repetitiva que qualquer cantor
    cantaria todo dia numa rádio qualquer?
    Você cantaria como um cantor qualquer ou cantaria algo diferente?
    Algo verdadeiro? Algo que você sentiu?
    Porque esse é o tipo de música que as pessoas querem ouvir.
    Esse é o tipo de música que salva os outros de verdade.
    Não tem nada a ver com crer em Deus.
    Tem a ver com crer em si mesmo. "
    Julio Carvalho
     
     
    DOIS TEMPOS
     
    UM: O LONGE
     
    O passado só me passa.
    Não fica nada.
    É minha defesa
    para não ter que lembrar
    e ter que sentir
    aguma dor
    depois.
     
    A dor
    demais
    abre uma lembrança ruim
    demais
    que se fecha dentro da mão
    - o punho fechado
    demais -
    e tudo vira raiva
    um soco
    demais.
     
    DOIS: O PERTO
     
    Faço parte
    de muita gente
    que fala demais
    porque o mundo
    anda de boca
    muito fechada.
    O mundo anda
    muito
    de boca calada.
    E muita gente está cansada
    de tanto segredo.
    E medo.
    É hora do vômito da palavra falada.
    De soltar aquele grito
    amarrado no meio da boca.
    Falar baixo?
    É coisa que nunca atingiu nada
    nem ninguém.
    A arma é o grito
    bendito.
    Seja ele por onde passe
    Seja ele por onde grite
    Seja ele de qualquer altura
    O melhor grito
    tem que ser máximo
    e fácil e solto
    para que o protesto
    arranque os ouvidos dos lugares
    estoure os tímpanos e acabe
    com todos os falsos silêncios
    atrás das vozes armadas.
    (É hora de desarmar a voz calada!)
    E palmas!
    Muitas palmas para os gritos
    que lavam a mentira deslavada!
    O protesto alto e claro
    do grito desengasgado!
    Mais palmas ainda
    quando a raiva vira grito
    e a verdade aparece
    igual a um furacão
    que toma forma
    e foda-se a razão.
    O resultado imprevisível
    vai do visível ao imprevisível
    do bom para o ruim ou
    do não para o sim.
    Mas de toda forma
    muita gente pensa
    que é bem melhor
    assim.

    SOBRE TUDO O QUE FICA EM BRANCO...

    "Existem pessoas que os olhos não vêem, mas o coração sente.
    Pessoas que fazem a distância mentir e o tempo nem existe.
    Tempo é só mais um modo de contar.
    Não importa muito o não ver, não estar ou qualquer espera.
    Um sentimento bom por alguém, sabe mais que qualquer tempo
                                                                                    ou distância
                                                                                               longe..."
                                                                                         Julio Carvalho
     
                                                                                                                                   Lúcia Castello Branco
     
    KOI*
    Ao som de “Alma Muda” de Heitor Pereira
     
    A alma em branco
    A página em branco
    A tela em branco
    Alguma vida em branco
    Eu escrevo para preencher esses vazios
    colocando letras nos espaços
    e sentido no branco.
    Assim o branco deixa de ser
    só um vazio
    e passa
    a significar.
     
    *Nome de uma espécie de peixe japonês (shimoji) e significa “branco”.
    June 21

    SOBRE AS PALAVRAS E A LUZ...

    “A luz representa para o fotógrafo
    o mesmo que o estilo para o escritor.”
    Brassai
     
                                                                                          Foto fornecida por Gabriel
     RADIOGRAFIA
    Para Marcos Paiva
     
    Com a mão escrevo
    e disfarço a imagem
    em palavras.
    As rimas são fotográficas
    iluminadas
    pela clareza das idéias.
    A cada linha nova
    mais uma palavra
    escrita pela lente
    do olhar da poesia
    minha.
    No final,
    a imagem letra
    a poesia completa
    do texto lido
    e a imagem formada
    de quem lê
    fica então
    revelada
    na surpresa
    do olhar
    de quem percebe
    o poeta.

    SOBRE OUTRAS DIREÇÕES...

    Aí eu lhe disse:
    se um dia eu escrever
    e encenar nossa história de amor
    ela não terá desfecho.
    O espetáculo
    vai acabar
    só para que eu possa
    voltar logo para casa
    meu amor.
    Chamarei o romance de
    Amanhã Será Tarde
    E Depois de Amanhã
    Nem Existe...”
    Assinatura - Denise Stocklos
     
     
    EM TRÂNSITO
     
    Olha a direção:
    para muitos
    não importa onde
    o que se segue
    qualquer lugar
    é rumo
    prumo
    qualquer sinal de vida
    ou atenção
    sempre amarela
    esquerda
    direita
    seta indicativa
    direta no peito
    em alta velocidade
    quando vê passou o sinal
    atravessou a vida
    sem saber
    que viver
    é sempre
    "siga"
    o coração vermelho
    só entende
    os sinais
    quando estão
    verdes.

    SOBRE AS VELOCIDADES...

     Entre um passado e dois ou mais futuros
    o presente não é ainda
    mais do que memória.”
     
     
    FAST EMOTION
     
    Rápido
    antes que a luz acesa
    se apague
    Rápido
    antes que o jantar
    sobre a mesa
    esfrie
    Rápido
    a fome urgente
    o país doente
    Rápido
    alguma clareza
    alguma certeza
    alguma paciência
    Rápido
    tudo é muito rápido
    aqui e agora
    não será
    em um segundo
    mais nada
    palpável
    tocável
    sensível
    acaba já
    o que nem bem começou
    cedo é ontem direito
    se esquece
    Rápido
    antes que a lembrança
    seja mais nada
    nem semente
    de memória.
    Então
    seja rápido
    não delete
    apague
    o que resta
    de sanidade
    principalmente
    no seu
    coração.

    SOBRE A AUSÊNCIA E A PAIXÃO...

     “Amor é quando é concedido participar
    um pouco mais.
    Amor é a grande desilusão
    de tudo mais.
    Amor é finalmente
    a pobreza.
    Amor é não ter
    inclusive amor
    É a desilusão
    do que se pensava
    que era amor.
    Amor não é prêmio
    por isso não envaidece.
    Amor - Clarice Lispector
     
     
    SIMULAÇÃO
     
    Imagine
    uma imagem
    pense em espaços vazios
    pense em nuvens brancas
    barcos em portos isolados
    papel em branco
    soldados desarmados
    pássaros cativos
    céus escurecidos
    nenhuma estrela
    em noite de lua nova
    a mente em branco
    brinca de ser nada
    quase zen
    - mas não para o bem
    paisagem amarelada
    de foto velha
    há muito tempo guardada
    na gaveta
    quebrada
    dentro de livros flores mortas
    preservadas
    por nada
    um meio de noite
    sem luz nenhuma
    e a casa sem velas
    escuridão...
    pensou nisso tudo?
    é como coração
    sem vontade
    e ausente
    de qualquer
    paixão
    presente.

    SOBRE O EXCESSO DE INFORMAÇÃO...

    Palavras são
    algo ofídios,
    algo répteis
    (serpentes se deslocam
    nas areias
    escaldantes
    do meu deserto...
    lagartos,
    com seus dentes pontiagudos
    e olhos de predador
    me fitam silenciosos).
    Palavras vão,
    ecoam e pulsam.
    Latidos cortam
    a noite implacável
    a noite que me abraça
    e onde me perco
    (água turva,
    solidão).
    Palavras não.”
    Répteis – Álvaro Barcellos
     
    Álvaro Barcellos é poeta e letrista. Gaúcho, de Pelotas, tem 45 anos.
    Formado em Direito e Letras, com especialização em Literatura Brasileira,
    pela Universidade Federal de Pelotas.
     
     
    ZOOM
     
    Lupa
    televisão
    jornal
    informação
    como se a massa fosse
    o pão da mídia
    inteira
    colocada
    num forno
    quente
    que acaba sendo a cabeça
    da gente.
     
    Melhor ir
    devagar e sempre:
    a escolha do que serve ou não
    é única opção
    urgente.

    SOBRE AS DISTÂNCIAS POÉTICAS...

    Na primeira pessoa. No contrafluxo.
    Em pé, encruado, sentindo a força
    dos cabelos, das unhas, do dente decisivo
    da camisa encardida, cheirando a suor.
    Mando o que está escrito na cara
    na testa, onde a linha do pensamento
    que segue, à sombra, irregular e pontilhada
    corresponde às rugas de expressão fixas
    que interrogam, rudes, mas nem esperam
    resposta, recepção, reflexo:
    sim, sou eu, cercado, à cata de sentido.”
    Pessoal e Transferível - Armando Freitas Filho
     
     
    LEGÍVEL
     
    As distâncias poéticas
    formam
    quadros de palavras
    e mais sensíveis são
    quanto mais próximos
    os sentimentos.
    O poeta escreve de perto
    para que quem lê -
    entenda-se de longe
    qualquer
    sentimento.
    Para a poesia
    não é asolutamente
    necessária
    qualquer
    proximidade.
     

    SOBRE OS SONS E A INFÂNCIA...

    “A maioria dos homens vive com espontaneidade
    uma vida fictícia e alheia.
    A maioria da gente é outra gente, disse Oscar Wilde,
    e disse bem.
    Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem;
    outros empregam-se na busca do que querem e lhes não serve;
    outros, ainda, se perdem.”
    Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego.
     
     
    SONORO
     
    Lá vai a criança pisando
    pisando num chão que estala
    e fazendo
    algazarra
    a criança pensa
    em nada
    e distraída sabe que
    a vida é tudo palhaçada
    gente grande vira circo
    risada
    o sério
    é só outra forma
    da vida
    brincada
    só fica no estalo e vive
    igual ao barulho
    assusta rápido
    e passa o susto
    até que acaba
    a criança percebe
    cedo e sozinha e fica
    sabendo que
    barulho de infância
    é assim então.
    A vida não seria um barulho,
    um susto
    rápido
    que se apaga?
    June 20

    SOBRE A VERGONHA DE SER...

    "É nosso destino ter imperfeições.
    Poucas são as pessoas que não têm uma falha moral ou um defeito natural.
    Apesar de ser tão fácil curar-se, os homens deixam-se dominar pelos defeitos.
    A prudência sente um enorme pesar quando observa um talento sublime
    com um defeito mínimo: basta uma nuvem para eclipsar o Sol.
    A malevolência se levanta imediatamente
    e ainda repara nas manchas da reputação.
    É uma grande habilidade converter os defeitos em motivo de admiração.
    César soube cobrir sua calvície de louros."
     
     
    VERGONHA?
     
    Escondam os rostos
    escondam
    escondam suas peles mal suportadas
    escolham as roupas
    escondam os restos
    os farrapos humanos de vida
    escondam verdades
    ou as mentiras esquecidas
    que são verdades perdidas
    de vergonha
    escondam as máscaras
    que as outras coisas
    já são estão tão dramáticas
    que não tem mais como esconder
    escondam as escolhas
    erradas - que as certas
    aparecendo
    na certa causam inveja
    escondam os medos
    para que não saibam seus segredos
    mesmo aqueles menores
    que possam ser usados
    e atirados na cara sem dó
    escondam a cara
    do ruim e o bom
    não demonstrem
    porque outros sempre põem
    defeitos em tudo
    escondam, afinal
    o perigo iminente
    porque escondendo tudo
    que riscos corremos
    e o que será aprendido
    na vida da gente?

    SOBRE POESIA, SANTOS E ORAÇÕES...

    "Meu poema
    é um tumulto:
    a fala
    que nele fala
    outras vozes
    arrasta em alarido.
     
    (estamos todos nós
    cheios de vozes
    que o mais das vezes
    mal cabem em nossa voz:
     
    se dizes pêra,
    acende-se um clarão
    um rastilho
    de tardes e açúcares
    ou
    se azul disseres,
    pode ser que se agite
    o Egeu
    em tuas glândulas)
     
    A água que ouviste
    num soneto de Rilke
    os ínfimos
    rumores no capim
    o sabor
    do hortelã
    (essa alegria)
     
    a boca fria
    da moça
    o maruim
    na poça
    a hemorragia
    da manhã
     
    tudo isso em ti
    se deposita
    e cala.
    Até que de repente
    um susto
    ou uma ventania
    (que o poema dispara)
    Chama
    esses fósseis à fala.
     
    Meu poema
    é um tumulto, um alarido:
    basta apurar o ouvido."
    Muitas Vozes - Ferreira Gullar
     
     
    SAGRADO
     
    Todos os dias
    Todos os santos
    sagrados
    Oremos
    plenos
    que o dia de hoje
    será melhor
    que o dia de ontem
    e ontem e anteontem
    amém
    os dias rezados são argumentos
    para toda arquitetura que a fé
    tem dentro
    e cada coisa de cada um
    existe por isso mesmo
    oremos
    por cada coisa então
    de cada um
    para que todas as coisas
    não saiam sem forma
    sem força
    sem risco
    sem noção
    sem fé...
    Oremos
    Todos os dias
    para todos os santos
    natos e inatos
    os que são e os que virão
    precisam-se de muitos santos
    para se salvarem os dias
    que são muitos
    que não são poucos
    os dias e as causas
    as preces e as promessas
    mas os santos
    sem pressa
    escutam tudo
    sempre
    em sagrada
    solidão.

    SOBRE O QUE FALAR E AMIZADE...

    "o bonito é o silêncio que diz

    dizem

    tentativa
    eu
    de calar pra dizer mais

    mas repito
    mais repito
    enquanto sinto

    até "repito" ser

    letras feias
    e sem sentido

    "eu páro quando quiser"
    de você
    que então é de mim

    (não consegue brincar de cara séria
    [comigo)
    ri à toa]"

     

     

    Amigo é amor em silêncio
     
    porque geralmente os amigos
    não costumam falar que se amam
    da mesma forma
    como os amantes fazem -
    eles se amam calados
    e em silêncio. 

    SOBRE MUITA GENTE JUNTA...

     "Perfeito:
    o dia não espera nada
    de mim."
    Julio Carvalho

     

     

    EM PARADA
     
    Eu vim da festa
    a rua cheia de gente
    muita gente muita gente
    Eu passei por muitos
    muitos me passaram
    pelas ruas gente
    tumulto, música e diversão
    Todo mundo passou
    e muita gente
    é todo mundo que passou
    é um lugar em mim
    que virou rua, casa , carro
    um movimento bravo de vida breve
    e intensamente
    passou
    tudo o que é festa
    muita gente é o que resta
    Eu imóvel
    e todo cheio de contornos fechados
    Eu como uma praça
    quieto no fim
    pensando
    todos os outros
    o resto do mundo todo
    transformado
    em movimento
    em rua, casa, carro, muita gente.
    E eu praça imóvel
    cercado de todos, dos outros
    observando tudo
    enquanto a vida passa por mim
    dançando.
    June 14

    SOBRE AS PROXIMIDADES EXATAS...

    "É preciso não esquecer nada:
    nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
    nem o sorriso para os infelizes
    nem a oração de cada instante.

    É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
    nem o céu de sempre.

    O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
    o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

    O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
    a idéia de recompensa e de glória.

    O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
    vigiados pelos próprios olhos
    severos conosco, pois o resto não nos pertence."
    É Preciso Não Esquecer Nada - Cecília Meireles

     

     

    SÓ JUNTO
    O corpo acompanhado e a dificuldade de se olhar o outro -
     
    entender o outro é desapego
    entender o outro é a aventura total do eu
    para se entender o outro é preciso
    um movimento fluído como água
    limpo como água
    transparente, claro, líquido
    sem forma
    entender o outro
    em todo início 
    não tem forma
    a forma
    se toma
    no tempo
    do conhe
                   cimento.

    SOBRE O "NÃO BRINCAR MAIS"...

    "Queremos ser amados por nós mesmos,
    não tratados como telas vazias
    nas quais um amante inscreva seus sonhos e fantasias.
    Nem mesmo nos sentimos confortáveis
    quando somos colocados sobre um pedestal.
    Os pedestais restringem os movimentos
    e uma queda seria de muito alto."

    Rae Langton
     
     
    CANSEI DE BRINCAR
     
    Febre
    calor
    o corpo no sinal vermelho
    deixei tudo em algum lugar
    e o que me sobrou sobre a cama
    foi
    deserto
    cansaço
    lençol molhado
    engraçado
    não fui eu quem fiz
    tudo parar
    foi meu corpo
    tomando
    tempo
    para
    pensar
     
    tomo tempo
    tomo cápsula
    torno sono
    durmo.
     
    June 07

    SOBRE O DESEJO INERTE...

    "Eu o desejo e desejo seu desejo por mim.
    Espero que você deseje meu desejo de ter seu desejo e,
    se as coisas correrem bem, você o terá."

    Simon Blackburn - Luxúria
     

     
    INERTE?
     
    Esquecer de pensar?
    Esquecer o desejo?
    Esquecer o amar?
    Dê liberdade aos seus olhos
    Dê liberdade
    Examina outros gostos
    Examina outras belezas
    Examina outras coisas
    Isso tudo para que não aconteça amar -
    o mistério secreto que acontece quando
    dois seres que nem bem se conhecem
    se olham;
    nem bem se olham, se amam;
    nem bem se amam, suspiram;
    nem bem suspiram, perdem a razão;
    - um ao outro -
    nem bem conhecem a razão, buscam uma outra;
    e nesses passos, eles fazem um par de escadas
    para uma relação inteira
    e subirão rapidamente ou, de outro modo,
    serão impulsivos tanto quanto rápidos
    na subida.
    Ou na queda.
    Eles estão na própria cólera do amor
    e estarão juntos.
    Nada pode separá-los.
     
    Adaptação de Shakespeare