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    June 30

    SOBRE OS SEGREDOS DAS PALAVRAS...

     

    "as palavras

    não sabem nem

    saberão o quanto

    já sabemos

    então"

    Agnosia* – Edson Cruz

     

    *Agnosia (a-gnosis, "non-knowledge", or loss of knowledge) is a loss of ability to recognize objects, persons, sounds, shapes, or smells while the specific sense is not defective nor is there any significant memory loss.[1][2]

     

     

    amordeletras

     

    o povo não faz poesia porque tem medo

    e eu faço “cá maior façura”

    eu acho que eu faço poesia

    porque as palavras gostam de mim

    elas chegam bem pertinho e já vão contando seus segredos

    e eu fico bobo, esperto e lento

    e coloco tudo no papel antes que elas saiam de perto

    correndo

    isso também é uma espécie de amor, não?

    um tipo de amor “letrético” ou amor poético?

    um amor tipo de letras?

     

    June 29

    SOBRE AS FRASES SOLTAS NA VIDA...

     

    "Vida:

    ou você tem ou não

    ou vai sem ou vai com

    com o escudo quebrado

    e ninguém a seu lado

    quando não é hora para piadas

    e quando deus é uma cilada."

    Enzo Potel

     

     

     

    Desejo:

    que eu não minta quando escrever.

     

    Um texto só pode ser lido se ele existir.

     

    Todos nós somos crianças

    e precisamos de reconhecimento.

     

    Eu não tenho escolha, eu tenho uma história

    e tenho de começar a contar isso de qualquer jeito.

     

    Eu vi você

    Aqui

    Borboleta

    Pousada

    Poesia

     

    O trabalho discreto da chuva.

     

    O passado é meu e eu faço dele o que eu bem entender.

     

    Só os poetas podem ter a propriedade de falar do amor de verdade.

    Mesmo que não o sintam.

     

    eu aprendi
    que eu gosto tanto de você
    que às vezes
    cadê você
    e cadê todo mundo
    acaba sendo tudo
    a mesma coisa...

     

    June 27

    SOBRE FATOS E GATOS...

     

    "Realidade não me impressiona.
    Eu só acredito em intoxicação,
    em êxtase, e quando vida ordinária me algemar,
    eu escapo, de uma maneira ou de outra.
    Nenhum muro mais."

    Autor Desconhecido

     
                                                                                                                                poema discreto (para Givago Oliveira) - foto de Julio Carvalho
     
     
    June 25

    SOBRE COISAS QUE INCENDEIAM O CORPO...

     

    "Devia olhar o rei

    Mas foi o escravo que chegou

    Para me semear o corpo de erva rasteira

     

    Devia sentar-me na cadeira do rei

    Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo

     

    Penteei-me para o rei

    Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

     

    O escravo era novo

    Tinha um corpo perfeito

    As mãos feitas para a taça dos meus seios

     

    Devia olhar o rei

    Mas baixei a cabeça

    Doce terna

    Diante do escravo"

    Paula Tavares

     
     

     

    UNI-FOME

     

    Come letra

    Come coisa

    Come espaço

    Come tempo

    Come homem

    Come rua

    Come a pele nua

    de um qualquer

    com os olhos

    com boca

    com olfato

    com tato

     

    (de fato

    come-se até sem contato

    limpo

    uniforme

    asséptico -

    lave-se

    livre-se

    antes de comer)

     

    Em qualquer lugar se come:

    Come com a mão

    Come com o garfo

    Come com a faca

    Come sem fome

    Come e some

    para dentro do corpo

    na geografia confusa do esôfago, estômago, âmagos, afagos e afins...

    E tem coisa que se come e fica digerido

    E tem gente que se come e fica enrustido

    E não dá mais para perder o que está enraizado

    E não dá mais para perder o que está dentro

    depois que se

    come

    tem coisa

    que dentro

    endurece

    e fica

    preso nas entranhas

    para

    sempre

    enroscado.

     

    E tem outras coisas também

    do mundo

    que se comem,

    saem

    e somem:

    amigos e gentes e lembranças e coisas assim

     

    os homens se comem

    e se consomem 

    enfim

     

    June 24

    SOBRE O QUARTO JOGO DAS 12 PALAVRAS...

     

    "O que tem me mantido vivo hoje

    é a ilusão ou a esperança dessa coisa,

    "esse lugar confuso",

    o Amor um dia.

    E de repente te proíbem isso.

    Eu tenho me sentido muito mal

    vendo minha capacidade de amar

    sendo destroçada, proibida, impedida"
    Caio Fernando Abreu

     

     

    Água -Cal- Corpo- Cotovelo -Emergir -Lodo -Loucura -Método - Raízes -Rosácea -Sobressalto - Vasculhar .

     

    Insanidade:

     

    (dessa água não bebo. )

    Escorre cal pela parede caiada

    tal qual um corpo muito branco

    erguendo seu cotovelo

    que vem emergir devagar do fundo do lodo

    da loucura.

    Tal visão, cria um método,

    forma

    que se enrosca nas raízes da memória

    e eu construo uma rosácea de sonhos estranhos...

    E num sobressalto acordo

    a vasculhar minhas

    lembranças

    para não perder

    a razão.

     

    Texto publicado em http://eremiterioblogspot.blogspot.com

     

     

    June 22

    SOBRE AS PEQUENAS GRANDES CONQUISTAS...

     

    "Enfim, perdeu-se muito tempo com uma outra questão surgida da audiência, a dos cursos universitários de escrita literária. Na platéia estava um jovem que participa do curso de pós-graduação lato sensu em escrita montado por Gabriel Perissé (http://www.perisse.com.br/cursoformacaoescritores.html). A maioria dos membros da mesa achou estranha a idéia de um escritor "com diploma", metáfora desastrada mas muito repetida no debate. É claro que ninguém terá na parede um diploma "de escritor", mas sim um bacharelado ou pós-graduação em "escrita criativa", "criação literária" ou seja lá como esse tipo novo de atividade acadêmica vem sendo chamado no Brasil. Nos EUA e Inglaterra os cursos de escrita criativa são comuns e estabelecidos há décadas, com as suas respectivas saídas para os mundos acadêmico, editorial e literário - seus formandos não apenas se formam como escritores, mas como acadêmicos habilitados a multiplicar cursos e oficinas e a pensar a literatura de forma diferente da tendência hegemônica da teoria e do historicismo que temos no Brasil. Por aqui eles ainda são novidade - e já levando pedrada de críticos, jornalistas e escritores -, mas deve ser só questão de tempo até que as primeiras turmas encontrem os seus nichos e passem a atuar, com prestígio, igual, maior ou menor do que seus congêneres internacionais em seus respectivos países. Afinal, a idéia do gênio solitário e outra fantasia daquelas apontadas por Orlando Paes Filho - que, aliás, conhece Perissé e apóia a idéia, dentro da chave da relação mestre-aprendiz, que nós perdemos nessa era do astro instantâneo da literatura e da ausência de movimentos literários reais."

    Fonte: Mesa-redonda sobre fantasia http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2962796-EI6622,00-Mesaredonda+sobre+fantasia.html

    Primeiro Sarau da Primeira turma do Curso de Formação de Escritores da ESDC.
    Dia 28 de junho, das 15 às 17 horas.

       

    June 20

    SOBRE PROBLEMAS E SORTE...

     

    “Tanta gente quer ouvir, embora ninguém entenda.
    E seus conselhos não são solução para o meu problema.
    Deus existe mas as vezes parece que ele me detesta.
    E o único sentido da vida é viver fazendo festa.”

    In http://perturbadamente.blogspot.com

     

     

    AMULETO

     

    esperei que as coisas acontecessem
    esperei do céu olhares misteriosos
    e da terra o sabor sereno dos frutos maduros
    plantei algumas árvores
    e desenhei e escrevi e pintei
    foi tudo em vão porque não se procura
    nada nos céus nem na terra
    porque de nada vale o sabor de um fruto
    ou um desenho um vocábulo uma cor
    ainda assim
    quando não esperava nada
    encontrei uma chave colorida no chão
    desconheço o seu uso mas trago-a na mão.

     

    SOBRE OS JOGOS E MOVIMENTOS...

     

    “E-mail

    ..........................
    onda sísmica

    ..........
    joga-me na rede

    fisga-me sem isca

    ..
    circunda

    ..............................
    a borda do aquário

    ..........................................
    transforma-me em

    .............................................
    descabimento

    .............................
    com um simples aceno

    .................
    e agora já não caibo

    ..........a bordo”

     

    Peixe Cibernético – Drica Nery

     

     

    DOS MOVIMENTOS

     

    é um outro jogo
    : uma poeira azul espalha-se
    por toda a parte
    entranha-se na pele e nos ossos
    basta um movimento errado
    basta um movimento
    basta estar acordado
    as regras são precisas
    infalíveis – dolorosas
    um pensamento a mais e fecha-se o mar
    contrai-se o rio
    e os navios morrem em cada porto.

     

    SOBRE DATAS E OS MELHORES AMIGOS...

     

    "E quero outras cores
    Orgânicas e vivas
    Cores que têm cheiro."
    CilvaH

     

     

     

    SÓ MAIS UMA DATA?

     

    Estou aqui para falar sobre um amigo.

    E nem sei bem por onde começar.

    Se começar a falar de alguém é algo agradável, eu não gosto muito não.

    Mas quando a força das coisas e das datas obriga a gente a fazer isso, não por uma vontade ruim,

    mas por uma vontade de gostar muito, a coisa muda de figura.

    Existem “alguéns” na vida da gente que são bem diferentes e estranhos.

    A gente costuma chamar esses seres de amigos.

    Esse em especial é diferente como convém a todo amigo.

    Cada um, cada um.

    Cada amigo, cada amigo.

    Esse é O amigo.

    Daqueles que deixam a  gente ficar na casa dele até tarde falando bobagens e não bobagens

    e verdades e não verdades e coisas e não coisas e música e poesia e tristeza e alegria.

    Bem, é um amigo.

    Desses que a gente tem sempre vontade de ver e acaba acostumando e quando vê

    ele já faz tanto parte da vida da gente que a vida da gente sem ele não é mais a vida da gente.

    E aí a gente sente

    falta

    e alegria

    e escreve as coisas e acaba chorando enquanto escreve.

    São essas coisas assim, de amigo.

    De um amigo que não é um amigo qualquer.

    E eu escrevo agora, até porque segundo consta, seria hoje uma data especial para esse amigo em especial.

    E eu como amigo que sou tenho que escrever algo aqui por causa dessa data.

    Escrever porque é o que eu sei e é o que eu posso fazer de melhor para dar pra ele de presente.

    Porque ele não está presente. Não agora. Não aqui.

    Então resolvi escrever.

    Por causa de tudo: da data, do amigo, dos significados...

    De tudo.

    E eu tenho que deixar alguma coisa aqui afinal.

    Então eu resolvi deixar

    um

    parabéns.

     

                                                                            Para CilvaH.

     

    SOBRE OS LONGOS ABRAÇOS...

     

    “Nas tuas mãos

    Ardia

    Barco de espuma

    rede

     

    das tuas mãos escorria

    língua de fogo

    sede

     

    nas tuas mãos

    sentia

    dobra do vento

    febre

     

    nas tuas mãos

    tremia

    nome da vida

    tempo.”

     

    PAULA TAVARES – Manual Para Amantes Desesperados

     

     

                                the bomb girl - foto de Julio Carvalho

     

    ENCONTRANDO LILIA

                                (ou Outras Formas de Dizer Eu Te Amo) – para Lilia Lambert

     

    Hoje

    eu estive com Lilia.

    E vi Lilia de moleton,

    despenteada e solta e linda numa camiseta branca.

    E vi o coração de Lilia.

    No doce de leite, no requeijão, no vinho do porto, no nhoque do restaurante famoso...

    Eu vi o coração de Lilia no beijo do namorado.

    Eu vi o coração de Lilia ouvindo Fernando Pessoa.

    Eu vi o coração de Lilia pedindo pro amor ficar por perto.

    E no final do encontro

    abracei Lilia

    e percebi:

    o coração de Lilia

    estava

    o tempo todo

    dentro

    daquele longo

    abraço.

     

    June 18

    SOBRE MORTE E RELIGIÃO...

     

    “...a religião católica não me convenceu.

    O catolicismo está muito mais ligado à morte do que a vida,

    e transforma mesmo a vida em morte.

    Daí eu ter partido, não para a eternidade que me ensinaram,

    mas para a eternidade já na própria vida.”

    Mário Quintana (in Literatura Comentada – 1982)

     

                                                                                                                                                                         suicides

     

     

    SOBRE A DELICADEZA DAS OPÇÕES...

     

    "As pessoas delicadas são aquelas que a cada idéia ou gosto

    juntam muitas idéias ou muitos gostos acessórios.

    As pessoas grosseiras apenas têm uma sensação;

    a sua alma não sabe compor nem descompor;

    não juntam nem retiram nada ao que a natureza fornece:

    ao passo que as pessoas delicadas no amor

    criam elas próprias a maior parte dos prazeres do amor.

    Polixena e Apicio trouxeram para a mesa bastantes sensações

    desconhecidas aos nossos vulgares manjares;

    e aqueles que julgam o gosto das obras do espírito possuem

    e produzem uma infinidade de sensações que os outros homens não possuem."
    Baron de Montesquieu, in "Ensaio Sobre o Gosto"

     

     

    ECO-LÓGICO

              Para Anderson Cyrillo

     

    Entre um Pessoa

    morto

    e um Carvalho

    vivo

    a segunda opção

    me parece

    mais

    cabível.

     

    June 16

    SOBRE CONSEQUÊNCIAS E DESAPARECIMENTOS...

     

    “Estamos salvos, estamos vivos

    Agora não temos mais nada a perder

    Nós nos tornamos imortais

    Nós temos o alimento dos deuses

    Do alto das montanhas

    Não tem nenhum segredo para a gente

    Descalços, caminhamos sobre o fogo

    Podem até rir da nossa cara

    Nós temos o alimento dos deuses”

    A Reminiscent Drive -  Ambrósia

     

     

     

     

    VONTADES

                    Para Renato Medeiros

     

    Sumir

    Fugir

    Do mesmo jeito que a mãe de um amigo meu

    queria fugir depois de apanhar de arreios de cavalo do pai e ameaçá-lo de morte.

    Fugir por ódio ou raiva ou diante de alguma situação de impotência

    Ou vergonha

    Ou medo

    Ou desamor

    Fugir até o último fio de cabelo sumir

    Fugir até virar cisco

    Um risco no chão

    Sumir pra esquecer de alguma coisa ruim ou de alguém ruim

    Sumir até mesmo sem motivo nenhum simplesmente por sumir

    Porque as coisas de sempre cansam a gente

    Rotina família casa comida roupa lavada

    Então sumir

    Fugir

    Aí vem um pensamento:

    Será que alguém vai dar falta?

    O namorado a namorada a mãe pai cavalo cachorro papagaio

    Alguém vai dar falta?

    E se ninguém der falta?

    Será que pelo menos eu vou dar falta de mim?

    Mas às vezes dá vontade sim de desaparecer

    Por completo

    Entrar pelo ralo de qualquer banheiro pia chuveiro e sair pro esgoto e ir dar no mar

    Sumir

    Fugir

    é nada mais do que querer se libertar.

     

     

    June 15

    SOBRE DUAS COISAS EM PRETO & BRANCO...

       

    "Lágrima: 1. saudade na forma líquida; 2. mistura de água do mar com alma moída; 3. secreção aquosa expelida através dos canais lacrimais quando se espreme o coração; 4. felicidade que escorre pela face; 5. estrela cadente que despenca do céu dos olhos de quem ama; 6. motivo da existência de lenços brancos; 7. resultado da fusão de sentimentos contraditórios quando submetidos a altas temperaturas; 8. nome comumente dado ao fim de um romance; 9. momento que antecede o adeus; 10. pedaço de ontem; 11. antônimo de desprezo; 12. matéria-prima das jujubas; 13. grande inspiração dos poetas; 14. fado de Amália Rodrigues; 15. na Europa, folha que cai da árvore quando chega o outono; 16. na infância, associada ao berro, alarme de fome; 17. na velhice, fome de colo; 18. névoa úmida que cobre o mundo quando chove dentro da gente."

    Pequeno Dicionário das Relações Amorosas (à moda Cambalhotina)- André Gonçalves

     

    DOIS POEMAS EM P&B

                (fotos de Davison Mendes - http://www.flickr.com/photos/davisonmendes)

     

     

                                                                                                     inversões

     

    poema & parede

     

    SOBRE CIDADES, LARANJAS & CORAÇÕES...

     

    “coração
    PRA CIMA
    escrito
    em baixo
    FRÁGIL”

    Paulo Leminski

     

    coração

    descascado

    feito laranja

    em gomos

     

     

    ao modo de leminski:

     

    nasci
    numa cidade pequena
    cheia de buracos nas ruas

    porres de vinho barato
    grandes como aquelas montanhas

    e subindo e descendo morros
    fazendo passeios noturnos
    entre estrelas brilhantes
    e como que escapando das coisas
    me seguia a lua
    por entre os buracos

    das ruas.

     

    SOBRE MEDO, AMOR E POESIA...

     

    ”Vende-se, urgente, grande coleção de medos, em ótimo estado.

    Único dono, que vem colecionando todos eles desde bem pequeno.

    Pequeno defeito no altímetro da acrofobia.

    Acompanha um mata-baratas pela metade, um grito um tantinho rouco pelo uso,

    duas garrafas de álcool, cinco gotas de frio na espinha e dois frascos de pânico.

    Aceita-se troca por bilhetes de montanha-russa não utilizados

    ou sorrisos que causem taquicardia, desde que em quantidades insuficientes

    para que se sinta alguma dor.

    Motivo: mudança.

    Tratar diretamente com o proprietário (mas somente em lugares abertos,

    por ele ser claustrofóbico).”

    CLASSIFICADO - André Gonçalves

     

     

     

    SUMIÇO

    ou um mini conto fantástico-poético...

     

    Parece que um dia de repente minha mente cansada parada estática

    resolveu por si só sair do lugar e andou por ruas lugares escolas esquinas pequenas lojas escadas

    e nos morros nos forros das casas mais distantes pelas estantes de livros usados

    e outros lugares criados pelas coisas mais absurdas da imaginação.

    Entrei num torpor numa situação de distância das coisas

    e as sensações não voltavam porque a mente sumida estava arredia

    criando outras ruas e lugares e esquinas e tudo de novo com outros olhos

    refazendo mudando e virando suas mesas e vivendo novas situações.

    O mundo não se conteve e trouxe na volta com ela um tanto grande de histórias

    e coisas e tristezas e memórias e alegrias e uma porção tão grande de vida

    que não pude fazer mais nada a não ser criar com tudo isso meio assustado corrido parado 

    um monte de poesias.

     

     

    June 13

    SOBRE O AMOR À FLOR DA PELE...

     
    "Aquele que amo
    Disse-me
    Que precisa de mim.
    Por isso
    Cuido de mim
    Olho meu caminho
    E receio ser morto
    Por uma só gota de chuva..."
    Bertold Brecht
     
     
    A PELE
     

    a pele é um jardim

    de pêlos e apelos

    arrepios

    do calor ao frio

    sente-se

    na pele

    segue-se

    plantando

    sensações

     

    será não por isso

    tudo sempre dito

    sentido

    à flor da pele?

     

    SOBRE CONSUMO E POESIA...

     

    “Toda obra-prima

    é questão de rima.

    Todo poema,

    um problema.”

    Valério Oliveira

     

     
     

    DO CONSUMO

     

    O poema é enlatado

    ou entalado

    geralmente ele vem entalado (na garganta)

    e cai na folha de flandres (de papel)

    e fica

    enlatado.

     
     

    SOBRE O FOGO E A INFÂNCIA...

     

    “Comprobar que la vida se arranca y despedaza

    Los chalecos de fuerza de todos los sistemas;

    Y descubrir, de nuevo, que todas las riquezas

    Se encuentran en nosotros y no bajo la tierra.”

    LO QUE ESPERAMOS - Oliverio Girondo

     

     

    DESMEMBRAMENTOS

     

    Quando eu era criança costumava ganhar brinquedos eletrônicos muito sofisticados e logo me entediava com eles e os desmontava para fazer os meus próprios de acordo com minha imaginação. Eu reconstruia o que me entediava. E os novos brinquedos eram sempre brinquedos feitos de papel. Meus pais abominavam a idéia, pois diziam que eu tinha um espírito destruidor e nunca imaginavam que na verdade o espírito era o de recriançamento dos brinquedos eternamente entediantes, com seus mecanismos repetitivos e monótonos.

    Só que depois de algum tempo, até esses brinquedos se tornavam entediantes e tinham um fim que ainda hoje não sei muito bem explicar o porquê. Acabavam numa fogueira no fundo do quintal.

    Era algo muito estranho e maravilhoso ver uma criação minha se consumindo e tendo o seu tempo útil de vida chegado ao fim. Era como se fosse uma despedida da brincadeira e do significado que aquele brinquedo tinha desde quando eu o tinha ganhado até ele ser consumido. Ainda não sei se isso era punitivo, resolvido ou resignado. Sei que a única sensação que eu sentia e que me fazia bem era a de liberdade. Algo que ia contra métodos e monotonias e repetições e o tédio. Algo que me levava além do ato criativo. O impulso de ter, criar, usar, destruir. O fogo era minha desforra, minha vingança. Até hoje tenho um certo encantamento pelo elemento fogo. Ele me faz pensar no além criar. Algo mais longe do que só fazer algo. Ou ter algo. Mais que possuir parece que o poder de destruir também era algo maior. Era libertador.

     

    June 06

    SOBRE OS EUS E AS PAIXÕES...

     

    "Sendo caprichoso,
    O destino fez de mim lugar nenhum,
    Vagando pelos séculos
    E caminhando pelas ruas.
    Passei por estrelas e por luares,
    Dei espaço para as loucuras,
    Plainei pelos céus silenciados
    E deslizei por geleiras enciumadas.
    Caí no presente e perdi,
    Perdi a razão,
    A lógica,
    A noção,
    A verdade,
    Quando vi que caminhos
    E passos tortuosos
    Me levaram não além,
    Mas Aqui,
    Ao alcance do seu olhar,
    Onde o Amor pode tocar todos os lugares e também nenhum."

    Thiago Rossi

     
     
     
    OS EUS
     
    Eu não quero umbigos
    Eu quero motivos
     
    Eu sou um filósofo das coisas paradas
    Eu não me dou muito bem em movimento
     
    Eu penso pelos cotovelos e falo com as paredes
    Eu até falo com a porta da rua aberta
     
    Eu não tenho medo de altura
    Eu me arrisco se for preciso
     
    Eu às vezes me canso de mim
    Eu posso trocar de lugar comigo?
     
    Eu não sei para onde ir.
    Eu não sei se eu faço sentido.
     
    Eu só acordo depois do banho
    Eu tomo banho de porta aberta
     
    Eu acordo de mau humor
    Eu não sei se faço tudo na hora certa.
     
    Eu não falo com estranhos
    Eu estranho os conhecidos
     
    Eu me canso
    Eu deito e não durmo
     
    Eu me calo
    Eu acabo de escrever no ponto final.