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8月29日

SOBRE OS REFLEXOS...

 
"Os impactos do amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?"
CONCLUSÃO - Carlos Drummond de Andrade
 
 "A lua é pra quem se deleita,
para quem ama de perto..."
CilvaH
 
AS COISAS TORTAS
 
As coisas do tempo
As coisas do tempo vento
lentamente
a gente não sabe de nada
o que acontece
é um dia a cada dia
dia dias e dias
os olhos são os olhos de quem não se vê sempre
sempre se vê mais
quando não se espera
nada não é que quase
eu vejo
alguma coisa livre
Deus me livre
seja o que quiser
e o que Deus quiser
ainda berro
espero
perto
a saudade
o tempo
certo
o clima
o céu
o sol
você
eu
nós
tudo
melhorar...
 
8月28日

SOBRE MAIS UM OUTRO DESAPEGO...

 
“Quero colo (nada disso aqui)”
CilvaH
 
 
                             ...de tudo essa grade que não me cerque mais...
 
ALTOS FALANTES
 
E ainda dizem que podem,
que mandam,
e que não sentem...
E conseguem
dizer
desamar
destoar
desiludir
desenganar...
 
Ainda dizem que amor é pouco
e justo os outros que mais não amam
não sabem o risco que correm.
O rio que deixam de atravessar
é o mesmo
prestes
a lhes afogar...
8月16日

SOBREAVISOS CLAROS...

 “Sentimos haver um espírito que ama pássaros
e animais e formigas –
Talvez o mesmo que te deu radiação, no ventre de tua mãe.
Seria lógico que andasses agora totalmente órfão?
A verdade é que te afastaste
E resolveste entrar sozinho na escuridão.”
Kabin

 

UM BALLET OU A DANÇA DOS OLHOS...

Passo
despercebo
as coisas
sem vida
acesas
e a vida
(a verdade)
apagada
e meus olhos
se fecham
duros.

 Você me lembra sempre algo assim chamado saudade....

SOBRE UM QUASE SONHO...

"Outros ficam na ingenuidade que destrói as relações.
Tão inseguros que podem preservar a vida...
mas não oferecê-la."
Robert Bly - João de Ferro - Editora Campus
 
ACEITASONHO

Acho
que anda existindo
muito sonho órfão
onde andarão os sonhos órfãos?
os sonhos sem pai nem mãe?
os sonhos descamisados?
desavisados?
os sonhos perdidos no meio da multidão?
as caras dos sonhos pintados a mão?
as vidas dessonhadas?
os sonhos que viraram pesadelos mesmo sem dormir?
a falta de sono que não mostra nenhum sonho?
os acordados andam em busca de sonhos
os sonhos perdidos na chuva
na rua
na lama dos olhos molhados de lagrimágoas doces
as lágrimas dos sonhos são doces
porque são choradas
dormindo
e são da mesma água
feita dos sonhos...
8月14日

SOBRE OS QUINZE DIAS ÚLTIMOS...

 
"Isso é um drama: o drama das pessoas
com um universo interior muito rico
mas que nem sempre conseguem
traduzir essa riqueza aos outros."
Julio Carvalho
 
 
TUDO O QUE HOUVE NOS ONTENS...
 
...e foi fácil reconhecê-lo no meio daquela gente toda
numa sala de chat na internet era mais algum
só procurando sexo
e alguma outra coisa sem compromisso
que não levaria a nada nada nada
e morreria na praia.
E ficou a velocidade de se conhecer
coisa comum na internet.
E foi um dia incomum
um
achado
assustado
surpresa no meio do shopping cheio
conversa estranha
cara esquisito
velocidade é agora e já quer ir embora
- Minha casa agora?
Devo fazer uma ressalva: liguei logo sabendo
que de tudo o que ouve e que esteve acontecendo
e que segurança pouca é bobagem
dentro
de casa lento
a casa é pequena
você fica bem assim quieto
safado e esperto
e a noite inteira eu desperto
um coração semi-aberto
que fica a procura
de vencer o medo do outro em outro em outro em mim em nós dois
dois medrosos procurando a cura
um emocional -
e outro em que tudo na vida
é breve
e mortal.
E vem o tempo entre os dois
duas
semanas
então
se vão
contatos por telefone
um pouco ...
É ligação difícil
reflexo do medo de comunicar
e muito trabalho
trabalho
trabalho
segredos serão?

Dois
Um tempo depois
aparece diferente e rápido
e liga o telefone como se fosse a manhã um fim
Um eu feliz um pouco
Diz que o trabalho passou a noite inteira assim
acordado
pouca a manhã cedida
e minha vontade assumida
minha casa
sem ar...
Agora foi o dia
que se passou a transar
com o cheiro de sexo o tempo todo no ar
O incenso foi leve,
mas uma observação breve:
- não gosto não fiz não faço
coração de aço
e o medo de novo de olhar
e o sexo vitrificado na tela
a fantasia remota
controle remoto na mão
e o outro no coração
observações sobre a tristeza
contaminação e beleza que a vida não conserva mais
- o que acontece com você rapaz?
o que acontece depois é que aparece forte
penetração de tudo por dentro
coração mão ereção
sexo violento
muito tezão
sem proteção e com choro
abraço
medo
alguma coisa emoção
o risco não é só de morte
é de amor e de novo a falta de sorte
mas houve o gozo
e o silêncio
e o ficar junto
e o gostar
e o depois
e ele
e eles todos nele e eu
os dois metades
e no fundo
ambos
querendo ser tudo de uma vez só
INTEIROS.
8月13日

SOBRE ENTREMENTES, AMOR & ENTRELUZ...

"nem tudo tanto tanto faz.
algo escapa das entranhas e ribanceira adentro desencontra-se do encontrado.
faz raiva de mim, você e eu. beijo bonito na fotografia.
silêncio nos gestos de perto. palavras desacertadas. desaconchego desconhecido.
rejeicão é todo dia. você diz que faz crescer. prefiro arroz com feijão.
não é difícil se despedir. espero. amor. saber o que é."
Paula Huven

  

REMORRERCITAR
Para Carlos Alberto
 
Não é o fato de morte que incomoda
É a falta de vida
Falta de luz
Andaluzindo escuros becos
E a falta de vergonha na cara pública
Uma cegonha pública que não vinga
na sorte do aborto silencioso
criando um só torto e único filho
público que não se manifesta
(nem na hora da festa)
acaba se ficando silêncio
em vozes não sonadas
e padecendo.
Desencantados os filhos do vento
lento furacão sem dó
que não cantam e nem falam nem em sonhos
nem em vida
nem em nada
vozes assinaladas de falta
uma assombração dos dias
ruas vazias
silenciosas
almas penadas
pesadas de silêncio:
um casario branco
entornando luz entre os casais
e o branco da voz
a falta
e sempre o mesmo maior
dor desamor maior
o silêncio de um coração
cheio
do próprio
calado
amor
desabraços largos presos em nada
parede nenhuma
mesmo que luz grávida
regrávidaluz
pálida
em desfaços
e desfachos de luz
e laços cansados:
o desamor
é uma doença
maior
que qualquer
dor.
8月1日

SOBRE UM TALVEZ POEMA DE AMOR...

 "Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu peito,
me salvo e me dano: amor."
Ainda Que Mal - Carlos Drummond de Andrade
 
 

 É UM OUTRO POEMA DE AMOR?

 Isto não é um poema de amor,
mas é pra dizer da falta que você faz
Isto não é um poema de amor,
mas é pra dizer que se existe sentido na vida
é o sentido qualquer em qualquer direção
junto com quem o que se espera.
Isto não é um poema de amor
mas que se você morrer ou for embora
pra mim você já é eterno
Isto ainda não é e nunca terá a pretensão de ser um poema de amor:
Amor há e sempre vem
quando a gente nunca espera
desde sempre
amor vem com tempo
e nenhum poema de amor
por mais extenso,
longo, firme e belo que seja
vai fazer
tudo isso
se realizar.