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    August 27

    SOBRE AS COISAS MAL DITAS...

     

    “Dizer tudo numa frase, eis a coragem de quem escreve.

    Ameaçar dizer tudo nas frases seguintes, eis a covardia.

    O tédio produz documentos.”

    Biblioteca, Campo das Letras - Gonçalo M. Tavares

     
    Ilustração por: Fillipe Castro
     

    Pra quê
    o ouro dos tolos
    se tudo
    é o outro?

    O outro é que vê
    O outro é que sente
    O outro é que magoa
    O outro é o que não perdoa
    O outro dói até no calo do pé

    (O ouro é o outro dos tolos?)

    Então
    neste caso
    o que me aconteceu
    o que me acometeu
    e onde
    se
    me
    teu
    eu?

    August 25

    SOBRE PRESSÁGIOS E DESENCONTROS...

     

    ”A nuvem losando foi um presságio
    E também
    O encontro com a motocicleta empalhada

    Mário de Andrade
    No seu livro “Losango Cáqui”
    Fala do dia a dia-a-dia dos soldados

    Hitchcock
    No seu filme “Psicose”
    Transforma Antony Perkins
    Num taxidermista

    As nuvens me lembram Turner
    As motocicletas me lembram Fellini

    Símbolos
    Talvez
    Presságios incertos
    De encontros infúlgidos.”

    O NÃO PROFUSO - Eduardo Telles (1989)

     

     

     

    na última manhã...

     

    ...joguei  minha poesia no lixo

    com um corpo qualquer sujo

    o muito bonito e novo veio usado

    lambuzado de desperdício

    a cara limpa e o resto

    todo

    despido:

    um nu

    de incômodos

     

    água foi pouco

    o sujo era dentro

    nunca se limpa direito uma alma

    de intenção diferente da sua

     

    fiquei a ver desejos

    e outras coisas que frustraram

    o dia amanheceu entre as mãos

    num gozo único

    e solitário

     

    SOBRE FERIDAS E FAXINAS...

     

    "  ... Fala, poeta, por ti e por nós
    a palavra de amor
    por sob os lençóis
    a palavra benigna
    que não fere jamais,
    a palavra da vida
    que lava a ferida
    tantas chagas de dor.
    Fala, poeta,
    palavras, palavras
    em rimas de amor!" 
    POEMA - Dilercy Adler

     

    Ilustração por: Fillipe Castro

     

    faxina fácil

     

    a sujeira

    a escória

    o pó

    se convertem em todas as pequenas lembranças

    que eu tive que jogar pra baixo do tapete

    com uma vassoura do tamanho do mundo

     

    É porque as pequenas coisas

    pesam muito mais

    e o tapete

    é um rolo-compressor.

     

    SOBRE AS VERDADES DAS CIDADES...

     

    “A verdade é tudo aquilo que o homem precisa para viver, não pode ganhar nem comprar dos outros.
    Todo homem deve produzi-la sempre no seu íntimo, senão ele se arruína.
    Viver sem a verdade é impossível, mas não exagere o culto da verdade.
    Não há um único homem no mundo que não tenha mentido muitas vezes e com razão.”
    Este texto é uma adaptação livre de pensamentos dos escritores Kafka e Borges.

     

     

    CONSTRUÇÕES

     

    onde nasci

    Cambuí

    é minha janela.

    São Paulo

    onde moro

    agora

    é minha porta.

     

    o teto feito por um céu de mundos

    estrelas de lugares e cidades

    que estão na memória

    nas minhas e nas dos outros.

     

    eu tenho casas

    construídas de cidades e lugares

    e os prédios maiores

    formados

    por países

    e continentes inteiros

    feitos por paredes

    de lembranças.

     

    August 23

    SOBRE OS ABRAÇOS FILOSÓFICOS...

     

    “Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser.

    O leitor de poesia é também um poeta.

    Para mim o poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações Públicas.

    O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor.

    E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre o leitor, que o revela a si mesmo.”

    Mário Quintana

     

     

     

    EMBARAÇOS

    algo fácil

    para tomar chuva é só estender os braços*

    agora

    para entender os abraços

    algo difícil

    algo cheio de boas

    ou más

    intenções

    algo impossível

    saber o que se passa

    na cabeça das pessoas

     

    *http://tlectlectlec.blogspot.com

     

     

    August 17

    SOBRE UM MUNDO FEMININO...

     

    "Clarice em estado bruto
    ela é muito primitiva
    à beira da morte,
    ela falava de seu túmulo."

    in http://tlectlectlec.blogspot.com

     
                                                                        inspirado em http://tlectlectlec.blogspot.com
     

    a criação feminina

                                               para erika

     

    como ela mesma disse

    com suas peles próprias

    vestidas de palavras:

    o Todo pode ser igual a todo mundo

    Deus é filho único

    e Ele pode ser o começo do proibido

    e pode ser

    como mais uma dessas coisas que eu vivo

    e que eu não sei o nome

    e que eu poderia dormir e escrever até no silêncio

    e que de tanto eu escrever

    o seu caderno e eu acabaríamos tendo a mesma capa

    - um caderno cheio de coisas indizíveis

    minhas, suas, de Deus e dos homens mortais

    (coisas quase sagradas)

    são coisas escritas que estão embaixo da pele

    debaixo do que está em baixo

    e acima disso tudo

    só nos restam

    dúvidas

    e outras criações mais complexas que um colar de pérolas negras.

     
     
    August 16

    SOBRE OS ALTOS & LOUCOS...

      

    "Não se limite
    a dizer coisa com causa.

    Não beba o eco ou o cio
    que brota de versos alheios.

    Não se banhe duas vezes
    no mesmo vazio,
    mesmo estando cheio.

    Não caminhe por estradas conhecidas
    nem queira novas perguntas
    para suas velhas respostas.

    Não se imite,
    perca-se no caminho da volta."
    João Andrade

    então é assim é?

    eu quero
    eu posso
    eu deixo
    eu gosto
    eu quero as horas
    todas
    todas
    todas
    de

    agosto

    nesse mês mesmo
    eu sonho
    com todo cachorro louco
    e mais louco é quem me diz
    aposto
    que na outra esquina
    eu vejo
    de longe mesmo
    do lado oposto
    alguém
    pouco a pouco
    cada vez mais perto
    muito mais
    que eu
    é outro
    ficando
    louco

    SOBRE ESQUINAS E SINAIS...

     

    "A internet desvendou no google tudo o que busquei nos dicionários a vida inteira.

    Enciclopédias, cabalas, mapas e posições assimétricas das estrelas.

    Tudo inútil.

    O homem só aprende a morte e o silêncio."

    Araripe Coutinho

       

     

    TRÊS TEMPOS ÚTEIS 

     

    vermelho

     

    daredevil:

    nunca fui um anjo

    porque sempre tive as asas cortadas

     

    amarelo

     

    do jeito jeans

    eu tiro as calças

    pra desbotar minha cara

    de vergonha

     

    verde

     

    eu vou porque é preciso

    ou impreciso

    disso ou daquilo

    naquilo tudo

    que não quero

    nem meço

    nem peso

    e compro briga

    se tudo tiver peso

    quilo por quilo

    atiro

    dente por dente

    arranco

    olho por olho

    eu furo

     

    ou eu acabo

    com

    tudo

     

    August 15

    SOBRE AMORES E HUMORES...

     

    "...e as pessoas só querem o milagre da normalidade."

    do curta "Devoção" de Sérgio Sanz 

     

                                                                                           amor inverso

     

    paciência zero

     

    não tenho matéria

    inteligência

    para esse poema

    agora

    a matéria-pensa

    - mente

    luta com

    a matéria-bruta

    - corpo

    para fazer de cada

    artéria

    matéria

    para um novo

    esquema

    histérico

    gritado

    forçado

    físico

    uma briga feia

    uma luta bruta

    feroz

    de fato

     

    eu

    árduo

     

    dentro

    do poeta

    não há trégua

     

    eu

    ardo

     

    não há regra

    não há régua

    que se meça

    tamanha

    brigaria

     

    eu

    paro

     

    August 11

    SOBRE VÔOS E CONFISSÕES...


    "Para me calar, peço licença. Hora inusitada essa, de com leves toques, bater à porta.

    Hora de crer que ouvidos atentos estão do outro lado.

    Ouvidos, ouvidos apenas, sem que haja fala.

    Sentidos, apenas sentidos, trocados.

    E no vazio do frio olho mágico, procuro seu vago sorriso (que tanto de mim traz consigo).

    Eis que vejo, então, seu sutil expressar, remontado, quadro a quadro, no meu projetor.

    Mornas mãos só as suas? (que num toque hesitante aquietam minha dúvida).

    Negros olhos só os seus? (que não raro me ultrapassam, mas não param em mim).

    Calo, não para manter latente a semente, pois já é germinada.

    Calo para observar o primeiro ramo e identificá-lo. Calo para me manter atento.

    E no silêncio, ajo: se a porta não se abre, arrombo.

    Se a graça não se dá, a faço, ponto por ponto, tomo-a do seu céu, a ferro e a fogo.

    Tempo mais não há, nunca houve.

    Portanto, agora ou não mais: dá-me essas chaves, rega esse broto, abraça-me.

    Conceda-me a cada febre o privilégio de me calar com seu beijo."

    CONFISSÃO - Marcos Milan

     
    Para  Anderson Lucarezi de http://sobre-todas-as-coisas.blogspot.com
     
     
    August 08

    SOBRE TRÊS VEZES OITO...

     

      

                                                          dia redondo by Julio Carvalho

     

                        sobre o dia de hoje mais detalhes em 

    http://www.nytimes.com/slideshow/2008/08/07/opinion/20080808-schott_index.html

                                     (Colaboração de Melissa Mann)

     

     

    oitavo dia do
    oitavo mês do
    oitavo ano do segundo milênio...

     

    três vezes oito

    três oitavas acima

    da minha cabeça

    um som de rua cheia de coisas

    e os movimentos

    e o trânsito

    e a chuva

    no dia oito de oito de dois mil e oito

    tudo hoje está mais próximo de algum infinito

    deitando o oito

    tudo infinito

    fica

    então

    tudo agora e sempre

    é oito ou oitenta?

     

    SOBRE AS COISAS FEITAS À MÃO...

     

    ".que, talvez, o bom da fantasia do verbo
    - no poema -
    está em sorver imagens pra fora do mesmo lugar."

    In http://incrise.blogspot.com/

     
                                                                                                                      escrito por Éberson

    SOBRE UMA OUTRA VERDADE...

     
    “Vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar,
    mas que não sabe o que realizar.
    Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo.
    Sente-se perdido em sua própria abundância.
    Com mais meios, mais saber, mais técnicas que nunca,
    o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido:
    puramente ao acaso.”
    Jose Ortega y Gasset in "A Rebelião das Massas"
     
    “A arte se integrou ao ciclo da banalidade.
    Ela voltou a ser realista, a desejar a restituição da reprodução clássica.
    A arte quer cumplicidade do público e gozar de um status especial de culto,
    situação prefigurada nas sinfonias de Gustav Mahler.
    Claro que há exceções, mas, em geral, os artistas se renderam à realidade tecnológica.
    Desde os ready-mades de Marcel Duchamp, a importância da arte diminuiu,
    porque a obra de arte deixou de ter um valor em si.
    Os signos soterraram a singularidade.
    Os artistas se submetem a imperativos políticos, e não mais seguem ideais estéticos.
    A arte já não transforma a realidade e isso é muito grave.”
    Jean Baudrillard
    produto verdade
     
    a verdade agora é um produto
    bruto
    violento até não poder mais
    e o poder dessa verdade-imagem
    é o que manda e anda e desanda o rumo das coisas
    até não se saber mais
    onde ir
    isso também vale para o com quem ir
    as pessoas hoje em dia não vão
    nem vem
    nem ouvem
    apenas são
    o que nem sabem direito
    o que sentem
    nesta para
    fernália de coisas tecno
    ilógicas
    demais
    pra qualquer relacionamento
    em que dois só não bastam mais
    e que tem que existir uma terceira coisa
    que não-se-sabe-o-que-é
    enviesada no meio de tudo
    virtualmente
    escapando
    por entre os dedos das mãos
    consumindo o meio
    o começo
    e o fim.
     
    August 01

    SOBRE OS CURRÍCULOS ATUAIS...

     
    "O que te falta

                   à palavra

    do jardim solitário

    é o teu nome ser

    não ser:

                 a pá

    nas tuas mãos vazias."

    Max Martins

     

    SOBRE DEUS VER, OUVIR, FALAR...

     
    Deus fez tudo de nada.
    Às vezes, o nada ainda aparece
    no meio do que ele fez."
    Paul Valèry

     
     

     

    IDIO-APÁTICO

     

    não tenho nada

    nada me tem

    metem

    a mão em tudo

    e mentem

    descaradamente

    sobre

    tudo

     

    sobre a minha pele

    sobre a minha vida

    sobre a minha cara

     

    em quem

    de viés

    eu olho

    sobretudo

    sobre o que falam

    ignoro

    todo 

    mundo

     

    mudo

     
     

    SOBRE OS POEMAS DAS RUAS...

     
    "Estou desde as cinco e meia da manhã em frente ao micro.
    Precisava terminar um desenho.
    Estou no escritório em casa.
    Usando roupão e chinelos.
    Com os cabelos úmidos.
    E ainda lento...
    Muito lento." 

    LABUTA in http://www.uomini.blogger.com.br
     
     
    POEMA DA RUA UM
    no chão
     
     
     
    POEMA DA RUA DOIS
    no poste