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    August 23

    SOBRE OS PORQUÊS DOS DOCUMENTOS...

     

    "por que

    retrair-se à agenda alheia - desistir dos cinco sentidos - por que o relógio,

    as distâncias que cria, o mover-se a sua sombra - por que as chaves giradas,

    o diário trancar-se com a família - por que a gravata, esperar o fim do dia,

    dos dias - por que o espelho, o asseio, a rotina dos sapatos - por que as senhas,

    os códigos, os telefones de emergência, endereços - por que os passos, os prazos exíguos,

    as datas consumidas como aspirinas."

    Tarso de Melo

     
     

    .doc I

     

    cansado do sério

    do estéril

    do seco

     

    engolir a seco

    o sono

    os relatos

    dos outros

    e andar

    olhando para frente

    inventando vontade

    inventando uma força

    qualquer

    inventando coisa

    sem fantasia

     

    o seco nos olhos não tem lágrima que seja

    suficiente

     

    e nem nada que venha de dentro

    inunda e completa

     

    somente

    silêncio

     

    e os acasos colados nos postes - cartazes

    grudados no meio da rua

     

    o tempo é roubado

    impiedosamente

     

    a cor é cinza

     

    .doc II 

    alguém sabe como deslizar a paixão?

     

    .doc III

    surreal:

    a parede da cozinha desabou

    sozinha

    - a solidão vem se alastrando

    até pelas paredes

     

    August 21

    SOBRE OS DIAS QUASE RUINS...

     

    "Quero aprender astrologia hermética, encontrar você na próxima reta,

    desse mundo curvo, sem fim, sem nexo, esse paradoxo, estrada errante, sem final.

     

    Porque é um entra-e-sai de novidades, todas sem novidade.

    É o pensamento sem a menor chance de filosofia, nesses dias de mídia-guia,

    que não há chance nem para a terra, nem para o sal.

     

    Quero muitas facilidades, eu sei. Mas você sabia. Você sabia.

    Você sempre soube que nós estivemos um para o outro, para além do bem e do mal."

    http://laescenadelamemoria.blogspot.com

     

     

    photo by Bruno Alvarez

     

    Café com algo e nada

                                     para márcia melo

     

    Naquele dia no café eu não sabia se meu olhar era de tristeza ou de uma alegria forçada

    Tinha tido uns dias difíceis e de repente foi um convite que me fez sair de casa para tentar melhorar um humor que já estava pra lá de ruim

    Aceitei o convite dela de sair do meu confortável casulo particular fechado-em-mim-mesmo-de-raiva-do-mundo-e-de-mim-e-de-tudo.

    Não fomos a nenhum lugar muito longe de onde moro. Nenhum lugar em especial

    Um café até bem conhecido na região onde quase sempre eu encontrava alguém comum. Alguém ou algum conhecido comum.

    Não pedi nem muita coisa e só fiquei mesmo com um café longo - que de longo não tinha nada, pois que a maldita xícara era do mesmo tamanho do café que  ela pediu.

    Eu andava muito irritado, mas precisava dos olhos dela e de ver seu cabelo meio desajeitado e seus olhos um pouco cansados e ela falando sobre o carro que tinha sido consertado e blá blá blá – assuntos tantos e tanto sentimento.

    Olhamos para os lados e reparamos pessoas – o cara da mesa do lado que é um gato, mas muito gordo etc etc etc – e as coisas seguiam assim falando do mundo das pessoas amigos comuns pretensões comuns justificativas medos sinais cansaços e suas formas de vida enquanto pães de queijo em numero de duas vezes oito eram comidos sem gosto – eu fico azedo e de boca amarga.

    Nem sempre se fala bem de tudo ou se entende que todo mundo é tão bonzinho quanto parece e até as relações e as conversas passam por dietas e pelas coisas do mundo normal

    Mas não era isso que importava tanto

    Não era o lugar o momento a conversa

    Era outra coisa que estava muito além disso e passava meio que nas entrelinhas dos olhos de duas pessoas que não estavam só  sentadas num café falando besteira

    Era um encontro de dois mundos muito bem conhecidos que apesar até das diferenças se encontram se resvalam e combinam com certa sutileza

    Lembro de muitas vezes pensar nela com certa raiva e num depois sempre que tentava falar algo mais grosseiro as outras palavras tomavam conta e só me ficavam as coisas boas na língua.

    Sobrava só um gosto de delicadeza.

    Sutileza delicadeza de certas pessoas certas que fazem o amargo que acaba doce mesmo que o mundo esteja parecendo nada.

    Eu fico com seus olhos e seu cabelo desarrumado mesmo.

    Nessas horas é que eu me pergunto se amizade também não seria palavra que se confunde muito com amor.

     

    (Amigo também é palavra que se confunde muito com amor)

     

    August 10

    SOBRE ALGUMAS OBSERVAÇÕES...

     
     

    colágenos pessoais

     

    I 

    todo som

    mesmo que não,

    entra

     

    o ouvido não tem pálpebras

    - não tem como evitar o ruído

     

    tudo fala demais

    o silêncio anda muito caro

     

    II 

    cansado

    das pessoas-azulejo

    que não se pode dizer falar ferir nada

    sobre

    sempre o correto grudado nelas

    - uma maldita cola medíocre

     

    III 

    ainda falamos de computadores

    a nova geração não fala

    - faz

     

    IV 

    depois do corte

    só o que move

    sangra