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September 27 SOBRE TUDO...
"Nego-me a submeter-me ao medo
Que me tira a alegria da minha liberdade Que não me deixa arriscar nada. Que me torna pequeno e mesquinho, que me amarra, Que não me deixa ser direto e franco, que me persegue Que ocupa negativamente a minha imaginação, Que sempre pinta visões sombrias. No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo Eu quero viver e não quero encerrar-me. Não quero ser amigável por medo de ser sincero Quero pisar firme porque estou seguro, e não para encobrir o meu medo. E, quando me calo, quero fazê-lo por amor e não por temer as conseqüências de minhas palavras. Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar em nada. Não quero filosofar, por medo que algo possa me atingir de perto Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim. Por medo de errar, não quero me tornar inativo. Não quero fugir de volta ao velho, o inaceitável. Por medo de não me sentir seguro de novo. Não quero fazer-me importante porque tenho medo de ser ignorado. Por convicção e amor, quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor E quero crer no reino que existe em mim." Forjando a Armadura - Rudolf Steiner Foto by Rafael Gama
TUDO
tudo o que tenho pensado
me esvazia
me esvai
solta-se
dos meus olhos
ouvidos
nariz
boca -
não se prende
pensamento não se prende a nada
pensamento é palavra não escrita
é rascunho
é a fuga das idéias
não se prende porque não se fixa
o mundo das idéias não se fixa
é um mundo solto
as idéias são soltas
folhas ao vento
eu tento
só fazer
o que fazem os poetas
como eu
ajuntar as idéias
como folhas
todo dia
pelos invernos
da vida.
September 24 SOBRE O LIMPO E O BRANCO..."A lua é pra quem se deleita,
pra quem ama de perto..."
CilvaH
![]() SOBRE O INACREDITÁVEL..."Quando escrevo,
repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas,
um léxico só não é suficiente."
Guimarães Rosa
![]() INTERVALO
![]() September 23 SOBRE OS ACHADOS & PERDIDOS..."Todas as coisas perdidas
que não se perderam nunca
sei que elas estão por aí
e com uma delas dou
de repente."
Annibal Augusto Gama
![]() Quando se olha a folha
tanto de sua íntegra textura invade a alma esfiapada que os olhos se comportam como fontes invejosos do ser humilde do gramado branco
brando
QUANTO - Renata Pallottini (adaptado) ![]() September 22 SOBRE UM VÔO..."Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem,
ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros,
vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso,
porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço,
que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar
e acabando conosco nos principia.
Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."
-- Eduardo Galeano
![]() "Tudo que é imaginário tem, existe, é." - Estamira
PLENO VÔO
Açoite do ar no rosto:
Sobre a cidade
Sobre os lugares
Sobre a paisagem
Sobre os horizontes
e os dias nascentes
os poentes
os sóis
as luzes
neons
noites e madrugadas.
Sobre as estrelas
do chão
e do céu
- estas, bem mais perto -
Sobre os lugares de verdade
e os lugares de mentira
Sobre as palavras
das pessoas
amargas
e mais perto da imaginação
Sobrevoando
o pior de tudo
dos outros
e do mundo
e tendo nos olhos
a distância
das coisas
ruins
do
chão. SOBRE AS COISAS SIMPLES...deve haver pra tudo isso alguma explicação
as coisas querem ser coisas que na verdade não são
![]() eu não sei voar no entanto eu ando
CUIDADO!
....isso é saudade!
A gente tem saudade do que faz falta do que está longe do que a gente não vê porque se estivesse junto saudade não seria e o carinho não se perderia tanto
na distância... NOTURNO
sem a luz do dia sem alegria sem sol sem a clareza das coisas expostas sem respostas na sombra na escuridão o olho é uma lanterna acesa vigiando preso na beleza da luz pessoa ressoa por dentro o reflexo a luz o bem e a falta que você me faz... September 20 SOBRE UM QUASE CORTE..."As coisas não dão certo.
Nunca deram certo.
Não foram feitas para dar certo.
Nós é que temos a ambição do alinhamento e da simetria.
E até inventamos deuses perfeitos,
construídos à imagem e semelhança do que sonhamos.
As coisas não dão certo. Nós é que cerzimos o pano, obturamos o dente,
remendamos a fronteira no mapa
e inauguramos na estátua de chumbo um simulacro de ave.
Queremos crer que as coisas dão certo, que as coisas agora estão dando certo
e - se Deus quiser – sempre darão."
Certo - Carlos Machado ![]() O CORTE
A lâmina
afiada
A tesoura
cega
O filme
curta
A guilhotina
acerta
Na cabeça
o corte
certamente
muito
perto
da morte.
Não o suficiente
pra deixar o fio da meada se acabar
tão
de
repente. SOBRE UM QUASE EPITÁFIO..."Eu sou o que no mundo anda perdido,
Eu sou o que na vida não tem norte,
Sou o irmão do Sonho, e desta sorte
Sou o crucificado ... o dolorido ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquele que passa e ninguém vê...
Sou o que chamam triste sem o ser...
Sou o que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!"
Eu - Florbela Espanca - Adaptação de Carlos...
HABEAS DATA Quando eu morrer é possível
que alguém
ao ler meus escritos
tantos
se debruce com um pouco de piedade
um pouco de compreensão
sobre o que fui
ou julguei ser.
E então realize
aos meus olhos já distantes
da vida,
e termine
o que eu não pude fazer:
conhecer-me.
De tudo tento
ser honesto sem preconceitos
amoroso sem luxúrias
casto sem formalidades
correto sem princípios e planos
e no mais
intenso o tempo todo
vivo.
Outras vezes
grosseiro e feio e grotesco e miserável
coloco dúvidas no poder dos meus versos
ainda se vivo
– vivendo e não saber que se vive -
breve.
Dos outros, se não me conhecem
eu tento:
conheço-me
e penso: o que importa o que está para além?
seja o que for
vezes muitas
será melhor que o mundo
e que a vida seja
agora.
Acontece sempre
porque nunca consigo
pôr de acordo
o meu corpo,
o meu espírito
e a minha alma. September 12 SOBRE O CHÃO E AS PAREDES..."Tudo o que fica pendente é continuação.
Por isso é que existe essa sensação de falta."
Julio Carvalho
![]() O chão onde a gente pisa, se agarra, segura...
O QUARTO ELEMENTO
Então,
e que as verdades sejam ditas
benditas as coisas admiradas
brotadas da terra de verdade
plantadas no tempo da gente
de cada um
onde pisa o chão
onde planta árvore
onde nasce
reparte
a vontade
de um e de outro
é natural
e que não se agradece
algo do coração
e se segue
um cuidado atrás do outro
brota
amizade
amor e até
saudade
só. SOBRE RESPIRAR AR PURO...“Imagem é o viver estático,
o botão do pause, um suspiro, um piscar de olhos.
Porque o verdadeiro significado de uma imagem
está dentro dos nossos olhos.
Estejam eles abertos ou fechados.”
Caroline Freire
![]() os espaços são para a melhor respiração...
O TERCEIRO ELEMENTO
Precisa-se do ar
perfeito
porque
o ar está rarefeito
de espessos gritos presos
pulmões a solta procurando
a respiração direita
à esquerda arfam desejos
o coração se ajusta
aperta o pulo
mais alto
mais ar puro
tudo
no alcance da palma.
A grande causa
é viver sem traumas
como se fosse sem
a poluição
das coisas sujas
dos incômodos e puídos
nos poluídos cômodos internos
por fumaça, cisco e fuligem
e muita bobagem
a gente merece mais o ar limpo
e menos vertigem
a gente merece mais oxigênio
e menos gênios pensantes
degradantes
que pensam
poluindo
o
ar.
Precisa-se outra vez
respirar
profundamente...
SOBRE OBJETIVOS E PAIXÕES..."Fogo:
transformo coisas -
a gente sabe pelos olhos
e pelas pontas dos dedos."
Adaptado - http://incrise.blogspot.com
O SEGUNDO ELEMENTO
Um braseiro!
incendeio-me enquanto posso
monstro aceso de fogo
o fato é que escapo
das coisas mornas e frias
sou paixão enferma e firme
e aqueço sob os abraços
os dias frios
as noites longas
e as solidões muito constantes
prefiro tudo o que incendeia mesmo
que nada
melhor que a aridez da neve branca
um branco que não diz
um branco que não lembra
um branco de folha em branco
ou as coisas que se passam
em brancas nuvens
resfriando-se pouco a pouco
deixando aos poucos
de ser pessoa
e passa a ser
monótono
um corpo branco
frio
nu
por isso
aqueço-me...
September 11 SOBRE O MÍNIMO MOVIMENTO...“Já não remaremos mais tanto noite a dentro,
embora corações batam iguais e o luar brilhe como outrora.
Pois a espada enfim desgasta sua bainha e a alma, o peito,
corações dão-nos seu “basta” e Amor quer pausa no leito.
Mesmo se o dia desfaz brusco a noite própria a amar,
já não remaremos mais tanto como outrora ao luar.”
Sowe'll go no more a-roving - George Gordon – Lord Byron
![]() O PRIMEIRO ELEMENTO Meus olhos dedilham as águas calmas em um mar de espírito agitado,
esgotado pelas esperas, pelas marés, ondas distendidas
e os horizontes distantes demais.
A calma se faz irritante enquanto se rema exausto.
Os dias são transpassados, adagas e feridas profundas reerguidas.
Apressam-se os medos. Quanto mais o tempo urge, mais o medo aumenta.
Um dilema. Chuva morna. A garoa dos dias.
O dia a dia treme em horas, minutos e segundos demais.
A ampulheta deixou de ser só areia
e o tempo é água vertida num lamento em suor,
em lágrimas, em gotas. Lentas. Sonolentas. Apáticas.
O tempo é uma imagem. Um silêncio. Um desatino. Uma espera.
O tempo é uma tortura permitida pelos relógios.
O mundo estático fica nu e em compasso de espera.
Assim ficam só as mãos, os remos, a água...
Tudo remando em silêncio até o porto dos relógios dos dias.
No mesmo assim,
prossigo...
September 10 SOBRE O QUASE LONGE...“Tenho medo das coisas que caminham pro irremediável.
O passado que vinca rugas no rosto, A palavra derradeira, A mão não estendida, pouco amiga, A gordura depositando-se entre os nervos. Nas praias dos acontecimentos irremediáveis As ondas continuam a bater E a desfazer a realidade em finos grãos de areia. A realidade só dá pra isso mesmo: Pra pequenino a pequenino grão formado Encher praias, caminhões E pra fazer castelos pela orla do cotidiano. (Mesmo sem areia e praia e água e mar). O que quero é ter braços Que se esforcem com a força De mil homens E que sirvam para que te deites - faça deles seus braços.” ”(O que acontece, meu amigo, eu acho, é que há coisas que não devem ser definidas,
que não devem ser sentidas, que não devem ser aspiradas.
O amor é uma delas, de acordo com essa minha opinião.
Porque quando se quer algo, quando se deseja sentir algo, não se consegue.
Porque há coisas preciosas que precisam nascer do cotidiano,
de vulgaridades, simplicidades)."
![]() "Tampouco eu sei o que é, esse sentimento, esse acaso, esse labirinto.
Tampouco eu sei o que é. “
www.diariodeummago.blogger.com.br TALVEZ DISTANTE
Para Francis
Tampouco eu sei das distâncias incompreensíveis que o coração tem que percorrer.
Tampouco eu consigo sentir que bem pouco importa que essas mesmas distâncias
façam diferença para mim.
Entre eu, mim e algumas pessoas.
As distâncias não são coisas visíveis.
As paredes que separam as pessoas nem sempre são aço, pau ou pedra.
Às vezes são invisíveis as coisas. As separações.
E o melhor disso é que em alguns casos, com ou sem distância,
essas paredes se quebram com uma lembrança, uma simples saudade, uma memória.
Existem pessoas capazes de superar as distâncias. Pessoas que diminuem distâncias.
Pessoas que extinguem a saudade.
Pessoas como eu.
E você. September 05 SOBRE AS MUDANÇAS DE TEMPO..."Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural,
nada deve parecer impossível de mudar."
Nada é impossível de mudar - Bertolt Brecht ![]() VIVÊNCIA AO TEMPO
O tempo que resta
o tempo de cada um
o tempo que se presta
um dia atrás
um ano atrás
dez anos atrás
todos são acusados de abusar do tempo
que ido já foi
o tempo que cobra o que vem vindo
e que de longe ou perto tudo acaba
mesmo
não tem remédio
nem resolve
voltar
o risco de um sorriso na volta
e o tempo enrosca nos espelhos
nos olhos dos outros
na idade dos velhos
que até pouco tempo
nem as rugas tinham
as coisas ficam rápidas
e as mensagens muitas de aproveitar
o tempo fica
pouco
louco
o tempo rápido exige todo ímpeto
de mergulhar como água:
dias e noites e luares solares inteiros
ímpeto, ímpeto, ímpeto
que não adianta tudo isso nos braços
o tempo pesa mais que a vida inteira
e o ímpeto fica quase nada
e se perde
num vício
num traço
numa verdade atrasada que vem bem depois
todo ímpeto do tempo
pede mesmo
é um abraço.
E calma...
SOBRE OUTRA VEZ INSISTENTE AMOR..."Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira,
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez - é lei – desaparecem.
E ouvi de amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um
crime."
Trecho do poema "ESTÂNCIAS" de Carlos Drummond de Andrade
![]() "Suicidas não dão bis... " - FAMILIAS TERRIVELMENTE FELIZES - Marçal Aquino
CANÇÃO DE ESPERA
Eu tive de amor de mais de bem
e a pouco a pouco
olhei o dia se pôr de lado
numa janela feita de meio sol
e já vi do outro lado
que o tempo de colheita foi
só vejo na espera a coisa pronta
não se tem mais o que fazer
cada coisa se conta pronta
em branco, em página, em pena e em alma
dá dó de quem não tenta
apesar do agora triste
sobra a coisa meio mole, lenta:
a esperança no amor que vem.
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